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Por que algumas pessoas vivem em estado constante de alerta? A neurociência da hipervigilância

  • 26 de jun.
  • 4 min de leitura

Por Ana Luiza Faria

Colagem editorial representando uma pessoa em estado constante de alerta, com elementos que simbolizam a antecipação de ameaças e o funcionamento preditivo do cérebro
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Há pessoas que não sabem exatamente o que significa relaxar.

Elas conseguem descansar apenas parcialmente. Dormem, mas acordam cansadas. Saem de férias, mas continuam verificando o celular. Terminam uma tarefa e imediatamente procuram a próxima. Quando tudo parece estar bem, surge uma sensação difícil de nomear, como se fosse apenas uma questão de tempo até que algum problema apareça.


O curioso é que muitas reconhecem esse funcionamento. Sabem que a intensidade da preocupação nem sempre corresponde ao que está acontecendo. Ainda assim, não conseguem convencer o corpo de que não existe um perigo imediato.


Talvez porque, para o cérebro, convencer não seja a palavra mais adequada.


Durante muito tempo acreditou-se que percebíamos o mundo exatamente como ele é. Hoje sabemos que isso está longe de ser verdade. A neurociência mostra que o cérebro funciona muito mais como um órgão de previsão do que como um simples observador da realidade. Antes mesmo de um acontecimento ocorrer, ele já está formulando hipóteses sobre aquilo que provavelmente encontrará.


Essa ideia, desenvolvida por pesquisadores como Karl Friston, ficou conhecida como processamento preditivo. Em vez de esperar os fatos acontecerem para depois interpretá-los, o cérebro utiliza tudo aquilo que aprendeu ao longo da vida para antecipar o que acredita que virá em seguida.


Na maioria das vezes, esse mecanismo é extremamente eficiente. Ele nos permite atravessar uma rua, dirigir um carro ou conversar sem precisar analisar conscientemente cada detalhe do ambiente. Prever economiza tempo, energia e, principalmente, aumenta nossas chances de sobrevivência.


Mas existe uma consequência importante.


Se o cérebro aprende por repetição, ele também aprende quais previsões considera mais seguras.


Uma pessoa que cresceu em ambientes marcados por imprevisibilidade, críticas constantes, violência, negligência ou instabilidade emocional pode desenvolver um sistema de previsão que privilegia uma pergunta específica:


"Onde está o perigo?"


Não porque o mundo seja necessariamente perigoso naquele momento.


Mas porque, durante muito tempo, essa foi a pergunta que mais ajudou seu organismo a se proteger.


É nesse ponto que a hipervigilância deixa de parecer um exagero e passa a fazer sentido.


O cérebro não está produzindo medo do nada. Está sendo coerente com a própria história de aprendizagem.


Essa perspectiva aproxima-se também das contribuições da neurocientista Lisa Feldman Barrett, que propõe que nossas experiências emocionais não surgem apenas como reações automáticas aos acontecimentos. Elas são construídas pelo cérebro a partir da combinação entre experiências anteriores, informações do corpo e contexto atual. Em outras palavras, aquilo que sentimos depende, em parte, das previsões que o cérebro faz sobre o que está acontecendo.


Isso ajuda a compreender por que duas pessoas podem viver exatamente a mesma situação e reagirem de formas completamente diferentes.


Enquanto uma interpreta o silêncio de alguém como um momento de reflexão, outra o percebe como sinal de rejeição.


Enquanto uma entende uma mudança de planos como um contratempo, outra experimenta uma sensação intensa de perda de controle.


O ambiente é o mesmo.


As previsões não.


Quando essas previsões passam a favorecer constantemente a possibilidade de ameaça, o corpo acompanha esse funcionamento. A musculatura permanece mais contraída. A respiração torna-se superficial. O sono perde profundidade. Pequenas alterações fisiológicas passam a ser monitoradas continuamente.


É como se o organismo inteiro permanecesse aguardando um sinal que justificasse o estado de prontidão em que já se encontra.


Durante décadas, pesquisadores como Joseph LeDoux demonstraram que os circuitos relacionados ao medo são essenciais para nossa sobrevivência. Eles permitem respostas rápidas diante de riscos reais. O problema não está na existência desse sistema, mas na dificuldade de desligá-lo quando o contexto deixa de exigir esse nível de vigilância.


Mais recentemente, a Teoria Polivagal, proposta por Stephen Porges, trouxe outra contribuição relevante ao sugerir que nosso sistema nervoso regula continuamente estados de segurança, mobilização e proteção de acordo com a forma como interpreta o ambiente. Embora essa teoria tenha recebido atenção clínica e também críticas no meio científico quanto à força de algumas de suas evidências, ela reforça uma ideia importante: o organismo responde não apenas aos acontecimentos, mas também à maneira como os percebe.


Talvez seja justamente por isso que muitas pessoas dizem estar exaustas sem conseguir explicar o motivo.


Manter-se em alerta exige um enorme investimento de energia.


É difícil descansar quando o cérebro continua tentando antecipar aquilo que ainda não aconteceu.


Também é difícil perceber sinais de segurança quando toda a atenção está direcionada para localizar possíveis ameaças.


Esse funcionamento costuma produzir um efeito silencioso.


Quanto mais o cérebro encontra indícios que confirmam suas previsões, mais confiante ele se torna de que estava certo. Ao mesmo tempo, experiências que contradizem essas expectativas recebem menos atenção e acabam produzindo pouco impacto sobre esse sistema de aprendizagem.


A boa notícia é que o cérebro aprende durante toda a vida.


A neuroplasticidade demonstra que conexões neurais podem ser reorganizadas a partir de experiências repetidas. Isso não significa apagar o passado, mas ampliar o repertório de previsões disponíveis. Aos poucos, o cérebro deixa de trabalhar apenas com a hipótese do perigo e passa a considerar que segurança também pode ser uma possibilidade plausível.


Esse processo exige tempo justamente porque não depende apenas de compreender racionalmente o problema. Ele envolve experiências capazes de modificar aquilo que o cérebro aprendeu a esperar do mundo.


Talvez essa seja a principal diferença entre viver em estado constante de alerta e recuperar gradualmente a sensação de segurança.


Não é o desaparecimento definitivo das ameaças.


É a possibilidade de o cérebro deixar de considerá-las sua previsão padrão.


Quando buscar psicoterapia para ansiedade


Viver em estado constante de alerta pode interferir no sono, na concentração, nos relacionamentos, no trabalho e na qualidade de vida. Quando essa experiência se torna frequente e parece difícil de modificar apenas com esforço próprio, a psicoterapia pode oferecer um espaço para compreender como esses padrões foram construídos, identificar os contextos que os mantêm e favorecer novas formas de interpretar e responder às experiências do presente.


Conheça como funciona a Psicoterapia para Ansiedade.

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