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Escritos, artigos e catarses

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista editorial com figura feminina central equilibrando formas orgânicas opostas, linhas circulares douradas e pretas e elementos naturais secos, simbolizando a homeostase e os processos de autorregulação do corpo e da vida.
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Homeostase é uma palavra pouco conhecida, mas descreve algo vivido diariamente, mesmo sem perceber. Trata-se da capacidade do organismo de buscar constância, de regular processos internos para que a vida continue acontecendo apesar das mudanças externas. Temperatura, pressão, níveis de energia, sono, fome, atenção e até o ritmo das emoções seguem essa lógica silenciosa de autorregulação. Não é um estado fixo de calma ou bem-estar, mas um movimento contínuo de ajuste. O corpo e a mente estão o tempo todo tentando responder ao que acontece dentro e fora, buscando um ponto possível de estabilidade.


Ao longo da vida, especialmente com o passar dos anos, essa percepção pode ficar mais evidente. Pequenas alterações no cotidiano passam a gerar cansaço maior, mudanças de humor, dificuldade de concentração ou sensação de sobrecarga sem motivo claro. Muitas vezes, não se trata de algo “errado”, mas de sinais de que os sistemas internos estão trabalhando intensamente para dar conta de estímulos, perdas, preocupações e exigências acumuladas. A homeostase não elimina o desconforto, ela tenta administrá-lo. Quando o esforço para manter esse equilíbrio se prolonga, o corpo encontra outras formas de avisar.


É comum interpretar esses sinais apenas como fraqueza, falta de controle ou “coisa da cabeça”. No entanto, a ciência mostra que emoções, pensamentos e sensações físicas estão profundamente interligados. Um período prolongado de tensão pode alterar o sono; noites mal dormidas impactam a memória e o humor; preocupações constantes exigem mais energia do organismo, que passa a priorizar a sobrevivência em vez da vitalidade. A homeostase atua como um termostato interno, ajustando respostas para proteger a integridade do sistema como um todo.


Compreender esse funcionamento ajuda a olhar para si com mais curiosidade e menos julgamento. Sentir-se cansado sem explicação aparente, irritado com facilidade ou desconectado do próprio corpo não significa falta de força. Pode ser apenas o resultado de tentativas repetidas de adaptação a contextos que exigem mais do que se imagina. A vida moderna, com excesso de informações, pressa e cobranças constantes, desafia continuamente esse mecanismo natural de regulação.


Reconhecer a homeostase como um processo vivo permite entender que equilíbrio não é ausência de conflito interno, mas a capacidade de perceber sinais e responder a eles. Às vezes, o organismo pede pausa; outras vezes, mudança de ritmo, de rotina ou de forma de se relacionar com as próprias emoções. Quando esses pedidos são ignorados por muito tempo, os sinais tendem a se intensificar, não como punição, mas como tentativa de proteção.


Falar sobre homeostase é, portanto, falar sobre escuta. Escuta do corpo, das emoções e dos limites que se transformam ao longo do tempo. Não é preciso conhecimento técnico para começar essa compreensão, apenas atenção aos próprios estados internos. Entender que existe uma inteligência reguladora em funcionamento pode aliviar a sensação de estar “perdido” no que se sente. Muitas experiências que parecem confusas fazem parte desse esforço contínuo de manter a vida em movimento, buscando, a cada dia, um ponto possível de equilíbrio vital.

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista delicada com fundo de papel amassado, figura humana vintage fragmentada, formas orgânicas e linhas douradas simbolizando o corpo como bússola emocional e a comunicação dos sentimentos através do corpo.
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Muitas vezes, a rotina nos afasta da percepção do próprio corpo, fazendo com que nos sintamos como observadores distantes de uma engrenagem que segue seu curso sem nossa intervenção consciente, como se habitássemos uma casa cujos cômodos deixamos de visitar. No entanto, existe um diálogo silencioso e constante entre o que sentimos e como o nosso organismo reage. Quando o peso das preocupações se torna excessivo ou quando as angústias não encontram palavras para serem ditas, a biologia assume a tarefa de comunicar esse desconforto. É como se a pele, os músculos e até o sistema digestivo servissem de alto-falantes para mensagens que a mente ainda não conseguiu processar. Compreender esses sinais não é uma tarefa médica imediata, mas um exercício de autopercepção que permite notar quando a harmonia interna está sendo desafiada pela intensidade da vida.


Um dos primeiros lugares onde o cansaço da alma se instala é nos ombros e no pescoço. Aquela sensação de carregar o mundo nas costas não é apenas uma força de expressão. Sob pressão constante, o sistema nervoso mantém os músculos em estado de alerta, como se o corpo estivesse mobilizando uma energia imensa para enfrentar um perigo invisível, mantendo o estado de prontidão ativo mesmo quando estamos sentados em uma poltrona tentando descansar. Essa rigidez persistente pode evoluir para dores de cabeça que parecem um arco apertando as têmporas, um sinal claro de que o reservatório de paciência e calma está baixando. Nesses momentos, a respiração costuma ficar curta e superficial, alojada apenas na parte alta do peito, o que retroalimenta a sensação de ansiedade, pois o cérebro entende essa falta de ar pleno como um perigo iminente.


O estômago e o intestino também funcionam como um segundo centro nervoso, reagindo instantaneamente a qualquer turbulência afetiva. Quem nunca sentiu um nó no estômago diante de uma notícia difícil ou uma queimação persistente após períodos de estresse prolongado sabe do que se trata. O trato digestivo é extremamente sensível aos hormônios liberados em situações de tensão, podendo acelerar ou paralisar suas funções sem que haja qualquer problema físico aparente nos exames de rotina. É o organismo reagindo ao que não conseguimos colocar para fora, transformando palavras engolidas ou situações mal resolvidas em pesos reais no ventre, indicando que a digestão emocional dos acontecimentos está sendo mais lenta do que a nossa capacidade de seguir em frente. É uma forma de dizer que o ritmo externo está desconectado do tempo que o interior precisa para se organizar.


Além disso, a qualidade do sono e o nível de energia ao despertar são termômetros fundamentais da saúde mental. O cansaço que não passa com o repouso é um indício de que a mente continua trabalhando em alta rotação, mesmo quando as luzes se apagam. Acordar sentindo o peso da exaustão, com as mandíbulas doloridas por terem ficado cerradas durante a noite, revela o esforço invisível de quem tenta sustentar o peso das responsabilidades ou a ansiedade pelo futuro mesmo durante o período que deveria ser de entrega e relaxamento, impedindo que o sono cumpra seu papel de restauração. A pele também pode se tornar um espelho dessas questões, apresentando manchas, coceiras ou sensibilidades que surgem "do nada", mas que na verdade são erupções de sentimentos represados. Ao olhar para esses sintomas não como inimigos a serem silenciados por remédios, mas como mensageiros de uma verdade interna, abrimos caminho para uma existência mais integrada e consciente das próprias necessidades. Reconhecer-se nessas linhas é o primeiro passo para retomar as rédeas da própria paz, compreendendo que cada desconforto é, na verdade, um ato de cuidado da nossa própria vida, um convite para desacelerar e ouvir o que o silêncio do corpo está tentando gritar.

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista analógica com fundo de papel levemente amassado e iluminação difusa. Formas orgânicas abstratas em tons neutros se sobrepõem de maneira delicada. Linhas finas douradas e pretas atravessam a composição, conectando elementos de forma fluida. Figura feminina vintage aparece parcialmente integrada às formas, sugerindo tensão contida. Flores e folhas secas complementam a imagem, criando uma atmosfera poética e sutilmente inquietante, que simboliza o esforço de relaxar à força e o aumento do estresse.
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Existe uma ironia silenciosa que costuma visitar o final do dia de muitas pessoas: aquele momento em que, exaustas, elas decidem que "precisam" relaxar. O corpo se deita, o ambiente silencia, mas o pensamento parece acelerar justamente porque recebeu uma ordem de parada. É uma experiência comum, mas profundamente frustrante, tentar forçar o desligamento da própria mente como se ela fosse um interruptor de luz. O problema central dessa tentativa reside em um fenômeno psicológico simples: quanto mais atenção damos à necessidade de eliminar uma tensão, mais alimentamos essa mesma tensão com a nossa vigilância. Quando alguém se impõe o relaxamento como uma meta a ser cumprida, o cérebro deixa de interpretar aquele momento como um refúgio e passa a tratá-lo como mais uma obrigação na lista de tarefas. Surge então uma cobrança interna, um fiscal do próprio bem-estar que pergunta, a cada cinco minutos, se o alívio já chegou. Se a resposta for negativa, o nível de ansiedade sobe, criando um ciclo onde o esforço para descansar se torna, ele próprio, uma fonte de estresse.


Muitas vezes, essa dificuldade em "baixar a guarda" acontece porque o estado de alerta constante foi a ferramenta que permitiu a sobrevivência e a organização da vida por anos a fio. Para um adulto que passou décadas cuidando de responsabilidades ou para um idoso que se acostumou a estar sempre atento às demandas da família e do trabalho, a quietude pode ser lida pelo sistema nervoso não como prazer, mas como um perigo ou uma perda de controle. O silêncio traz à tona sensações e pensamentos que o ruído do cotidiano costumava abafar. Assim, quando tentamos nos obrigar ao vazio, a mente reage enviando alertas, lembrando de pendências ou repassando diálogos antigos. Não se trata de falta de força de vontade, mas de um mecanismo de defesa. O corpo não compreende ordens diretas e autoritárias; ele compreende ambientes e sinais. Se o comando é "relaxe agora", mas o sentimento interno é de urgência, a biologia sempre priorizará a urgência.


Compreender que o descanso é um processo de sedução e não de conquista muda a forma como lidamos com os dias agitados. Em vez de lutar contra a agitação, o caminho mais gentil envolve observar essa movimentação interna sem tentar expulsá-la à força. É como tentar acalmar a água de um lago: se usarmos as mãos para bater na superfície tentando aplainar as ondas, criaremos apenas mais turbulência. Se apenas esperarmos, a gravidade e o tempo farão o trabalho de assentar as partículas. O relaxamento genuíno surge quando paramos de lutar contra o fato de estarmos tensos. Ao aceitar que a mente está acelerada, retiramos o combustível da frustração, e é nesse espaço de não-conflito que o sistema nervoso finalmente encontra segurança para ceder. O verdadeiro repouso não nasce de uma imposição da vontade sobre o corpo, mas de uma trégua que oferecemos a nós mesmos, permitindo que o ritmo natural da vida retome seu curso sem a pressão de chegar a lugar nenhum.

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