top of page
Escritos, artigos e catarses

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista em estilo vintage mostrando uma figura feminina integrada a flores e folhas secas, conectadas por linhas douradas e pretas sobre fundo de papel texturizado, sugerindo tensão entre proteção e limitação.
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Existe uma crença persistente de que o sintoma é apenas aquilo que atrapalha: um excesso a ser eliminado, um erro de funcionamento que a pessoa gostaria de abandonar assim que compreende suas causas. Na prática clínica, essa suposição raramente se sustenta. Com frequência, aquilo que produz sofrimento também organiza algo essencial na economia psíquica de quem o carrega. O sintoma restringe, mas ao mesmo tempo preserva.


Não é incomum encontrar pessoas que descrevem com precisão o que se passa com elas. Reconhecem padrões, identificam origens, formulam interpretações coerentes. O entendimento intelectual pode ser impecável e, ainda assim, nada se altera no modo de viver. A compreensão não toca necessariamente o ponto em que o sintoma cumpre uma função. Em muitos casos, ele opera como uma solução silenciosa para conflitos que não encontram outra via de expressão.


A queixa se dirige ao sofrimento que o sintoma produz, mas a sua manutenção frequentemente protege algo que não está disposto a ceder. Há sintomas que evitam confrontos, outros que mantêm vínculos difíceis de sustentar sem essa mediação, outros ainda que autorizam uma retirada do campo das exigências externas. A renúncia ao sintoma, quando pensada seriamente, implica perdas que raramente aparecem na formulação inicial da queixa.


Instala-se então um paradoxo conhecido no trabalho clínico: aquilo que a pessoa declara querer eliminar é, ao mesmo tempo, o que sustenta um certo equilíbrio possível. O sintoma é vivido como obstáculo, mas também como dispositivo de proteção. Por isso, não basta saber por que ele existe. Enquanto a função que ele exerce permanecer necessária, o entendimento não produz deslocamento algum.





ganho secundário do sintoma

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista vintage de mulher fragmentada com flores e folhas secas, linhas douradas e pretas sobre fundo de papel amassado, sugerindo tensão e deslocamento estrutural.
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Há uma ideia disseminada de que psicoterapia é um espaço de acolhimento contínuo, um lugar onde se encontra amparo e validação suficientes para aliviar o peso das próprias histórias. Essa expectativa não é ingênua; ela se sustenta em parte do que de fato acontece no setting clínico. No entanto, quando o trabalho avança, torna-se evidente que a permanência no conforto compromete aquilo que se busca transformar.


Na experiência clínica, a compreensão costuma chegar antes da mudança. A pessoa relata sua trajetória com clareza, identifica padrões, reconhece repetições e nomeia conflitos com precisão. Consegue explicar as razões de suas escolhas e descrever as cenas que se repetem. Essa lucidez, porém, convive com a manutenção dos mesmos impasses. O discurso se organiza, mas a posição subjetiva permanece intacta. Saber não desloca necessariamente o modo de se implicar.


É frequente que o sofrimento seja apresentado como algo que precisa ser eliminado rapidamente. Entretanto, muitas vezes ele cumpre uma função de sustentação. Certos sintomas preservam vínculos, mantêm identidades estáveis e evitam confrontos que poderiam desorganizar a imagem construída ao longo dos anos. A queixa, quando examinada de perto, revela também um arranjo que protege. Abrir mão dela não implica apenas perder um problema, mas desestabilizar uma forma conhecida de existir.


O desconforto emerge precisamente quando a fala deixa de servir à justificativa e começa a expor contradições. Nesse ponto, a análise já não confirma a versão que a pessoa sustenta sobre si mesma. O que parecia coerente mostra fissuras. O que era atribuído exclusivamente ao outro retorna como participação própria. Esse movimento raramente produz alívio imediato; tende a gerar tensão, resistência e, por vezes, a tentativa de restabelecer o terreno conhecido.


Há um paradoxo recorrente nesse processo: busca-se mudança, mas preserva-se aquilo que a impede. Reclama-se da repetição, ao mesmo tempo em que se mantém intacta a lógica que a produz. O espaço clínico torna-se, então, o lugar onde essa contradição não pode permanecer encoberta. Não se trata de retirar sofrimento à força nem de oferecer respostas organizadas. Trata-se de sustentar a fratura entre o que se diz querer e o que efetivamente se faz.


Quando a psicoterapia se reduz a um ambiente de confirmação e conforto, algo essencial é evitado. O trabalho clínico, ao contrário do que se espera, não estabiliza identidades nem garante tranquilidade. Ele expõe a inconsistência dos enunciados, desmonta justificativas e coloca em questão as certezas que organizam a vida cotidiana. O efeito disso não é previsível nem imediatamente recompensador. O que se altera não é apenas o conteúdo das histórias, mas o lugar a partir do qual elas são contadas. E esse deslocamento não oferece abrigo.

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista em tons neutros com mulher integrada a formas orgânicas, flores e folhas secas conectadas por linhas douradas, sugerindo repetição e ciclo contínuo.
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Costuma-se afirmar que certas histórias se repetem porque ainda não foram aprendidas. A crença é sedutora: haveria uma lição escondida no sofrimento e, uma vez compreendida, o ciclo se encerraria. No entanto, na experiência clínica, a repetição raramente cede ao esclarecimento. Ela persiste mesmo quando o enredo já foi nomeado, analisado e situado na biografia. Não se trata de falta de entendimento. Trata-se de algo que opera apesar dele.


É comum encontrar pessoas que descrevem com precisão os próprios padrões: escolhem parceiros indisponíveis, aceitam posições de subordinação, mantêm vínculos que as ferem. Reconhecem as origens familiares, identificam as primeiras cenas, conectam passado e presente com coerência. Ainda assim, retornam ao mesmo ponto. A narrativa é sofisticada, mas o gesto se mantém. A repetição, nesses casos, não indica ignorância. Indica compromisso.


Chamar isso de destino alivia a responsabilidade psíquica. O destino organiza a experiência sob a forma de inevitabilidade. A repetição deixa de ser uma produção e passa a ser um infortúnio. Essa formulação protege algo: sustenta a continuidade de uma posição conhecida. Há uma função defensiva clara nesse movimento. Permanecer no que já foi vivido, ainda que doloroso, evita o confronto com o desconhecido e com a perda de identidade que qualquer deslocamento implica. A dor reiterada é previsível; o novo não é.


A repetição também mantém uma fidelidade silenciosa a vínculos primários. Ao refazer a mesma cena, preserva-se um arranjo interno que, embora limitante, oferece coesão. Abandonar o padrão significaria trair uma organização antiga que deu forma ao sujeito. Nesse sentido, o sofrimento não é apenas padecido; ele é utilizado como eixo de estabilidade. O sintoma não é só um erro a ser corrigido, mas um modo de manter consistência.


Há um paradoxo clínico recorrente: quanto mais alguém se convence de que identificou a causa de suas escolhas, mais seguro se sente para continuar repetindo-as. O saber funciona como apaziguador. Produz a impressão de avanço, enquanto o comportamento confirma a permanência. A compreensão intelectual reduz a angústia momentânea, mas não altera a posição subjetiva. O discurso muda antes que o ato mude, e muitas vezes o discurso serve precisamente para que o ato não mude.


A repetição sob o nome de destino oferece uma narrativa coerente para aquilo que, de outro modo, exigiria ruptura. Ao declarar-se vítima de uma força externa ou de uma tendência inevitável, o sujeito se desobriga de reconhecer a própria participação na cena que se repete. Não se trata de culpa moral, mas de implicação estrutural. Enquanto essa implicação não é suportada, a repetição encontra justificativas plausíveis para continuar.


Nem toda repetição é superável. Algumas são constitutivas da maneira como cada um se organizou para existir. A expectativa de que tudo possa ser transformado reforça a mesma lógica que promete encerramento definitivo. A clínica mostra outra coisa: há movimentos que se deslocam, outros que apenas se reorganizam e alguns que retornam sob nova forma, ainda reconhecíveis. O nome pode mudar, a história pode ganhar novas explicações, mas o ponto de atração permanece.


Falar em destino simplifica o que é mais incômodo admitir: a repetição não é um acidente que acomete, mas uma escolha que se sustenta, mesmo quando não é reconhecida como tal. Essa constatação não produz libertação imediata. Tampouco oferece um roteiro de saída. Apenas retira o conforto da inevitabilidade e deixa à vista a permanência do que insiste.

Site criado e administrado por: Ana Luiza Faria | Ponto Psi
Since: ©2022

bottom of page