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Por Ana Luiza Faria

Existe uma crença persistente de que o sintoma é apenas aquilo que atrapalha: um excesso a ser eliminado, um erro de funcionamento que a pessoa gostaria de abandonar assim que compreende suas causas. Na prática clínica, essa suposição raramente se sustenta. Com frequência, aquilo que produz sofrimento também organiza algo essencial na economia psíquica de quem o carrega. O sintoma restringe, mas ao mesmo tempo preserva.
Não é incomum encontrar pessoas que descrevem com precisão o que se passa com elas. Reconhecem padrões, identificam origens, formulam interpretações coerentes. O entendimento intelectual pode ser impecável e, ainda assim, nada se altera no modo de viver. A compreensão não toca necessariamente o ponto em que o sintoma cumpre uma função. Em muitos casos, ele opera como uma solução silenciosa para conflitos que não encontram outra via de expressão.
A queixa se dirige ao sofrimento que o sintoma produz, mas a sua manutenção frequentemente protege algo que não está disposto a ceder. Há sintomas que evitam confrontos, outros que mantêm vínculos difíceis de sustentar sem essa mediação, outros ainda que autorizam uma retirada do campo das exigências externas. A renúncia ao sintoma, quando pensada seriamente, implica perdas que raramente aparecem na formulação inicial da queixa.
Instala-se então um paradoxo conhecido no trabalho clínico: aquilo que a pessoa declara querer eliminar é, ao mesmo tempo, o que sustenta um certo equilíbrio possível. O sintoma é vivido como obstáculo, mas também como dispositivo de proteção. Por isso, não basta saber por que ele existe. Enquanto a função que ele exerce permanecer necessária, o entendimento não produz deslocamento algum.
ganho secundário do sintoma


