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Escritos, artigos e catarses

Por Ana Luiza Faria

Ilustração simbolizando o tempo da terapia em contraste com a urgência emocional
© Todos os direitos reservados. Fica expressamente proibida a reprodução, distribuição, exibição ou qualquer forma de utilização, total ou parcial, dos textos e imagens, por qualquer meio, sem prévia e expressa autorização.

Há um momento, comum a quase todo mundo que já passou por um sofrimento intenso, em que a única coisa que se deseja é que a dor pare. Não amanhã, não na próxima sessão, não em alguns meses, agora. Essa urgência não é fraqueza nem impaciência injustificada: é a reação natural de quem está exausto de carregar algo pesado demais por tempo demais. Quando essa pessoa finalmente decide buscar ajuda psicológica, é compreensível que espere da terapia o mesmo ritmo que sua dor exige. O problema é que a mente não funciona assim, e a terapia, por mais eficaz que seja, não tem o poder de acelerar processos que são, por natureza, lentos.


Isso acontece porque o tempo emocional e o tempo terapêutico raramente coincidem. A urgência emocional nasce do sofrimento presente, daquilo que dói agora e exige solução imediata. Já o tempo terapêutico segue outra lógica: a de elaboração. Elaborar não é apenas entender racionalmente o que se passa, mas digerir emocionalmente experiências, muitas vezes antigas, que moldaram formas de sentir, pensar e se relacionar. Esse processo não pode ser apressado sem se tornar superficial. Um sintoma que aparece hoje, uma crise de ansiedade, uma dificuldade de confiar, um padrão repetitivo de relacionamentos que terminam mal, costuma ser apenas a manifestação visível de algo que vem sendo construído há anos. Tratar apenas o sintoma, sem dar tempo para que suas raízes sejam compreendidas, é como aparar a parte de cima de uma planta daninha sem mexer na raiz: ela volta a crescer.


Além disso, a terapia depende de um elemento que não pode ser apressado: o vínculo entre paciente e terapeuta. A confiança necessária para falar sobre vergonhas, medos e feridas não se constrói em uma ou duas sessões. Ela se forma aos poucos, à medida que a pessoa testa, talvez sem perceber, se aquele espaço é seguro o suficiente para que ela se mostre por inteiro. Esse processo de confiança é parte do tratamento, não um obstáculo a ser superado rapidamente para que o "trabalho de verdade" comece. Em muitos casos, é justamente na construção desse vínculo que as primeiras mudanças significativas começam a acontecer, mesmo que de forma silenciosa.


Quando a urgência emocional não é acolhida com paciência, é comum que a pessoa caia em armadilhas que prejudicam o próprio processo que busca ajuda. Trocar de terapeuta repetidamente na esperança de encontrar alguém que traga alívio mais rápido, abandonar o tratamento nas primeiras semanas por não perceber resultados imediatos, ou buscar respostas prontas e fórmulas de autoajuda que prometem transformação em poucos passos são tentativas compreensíveis de driblar o sofrimento. Mas, na maioria das vezes, esses atalhos atrasam ainda mais a mudança real, porque impedem que o processo se aprofunde o suficiente para gerar transformações duradouras. Mudar de forma sustentável exige tempo justamente porque envolve reorganizar estruturas internas que levaram anos para se formar.


Isso não significa que a pessoa deva simplesmente se resignar e esperar em silêncio, engolindo a angústia como se isso fosse parte do "preço a pagar". Pelo contrário: é possível, e necessário, desenvolver uma relação diferente com o tempo da terapia, uma relação que não exija pressa, mas também não exija anulação da própria dor. Isso passa por reconhecer que sentir-se mal durante o processo não é sinal de fracasso, e que pequenos sinais de mudança, uma reação um pouco menos intensa diante de um gatilho antigo, uma capacidade maior de observar a própria angústia sem ser completamente dominado por ela, um dia em que a tristeza pesa um pouco menos, são sim, evidências de que algo está se movendo, mesmo que de forma quase imperceptível.


Também é fundamental que essa urgência seja comunicada ao terapeuta, e não escondida ou minimizada. Dizer abertamente "eu sinto que preciso de alívio mais rápido, isso está sendo muito difícil de suportar" não é uma queixa inadequada: é informação clínica valiosa, que ajuda o profissional a ajustar o ritmo do trabalho, reforçar estratégias de manejo da crise no momento presente e validar o sofrimento sem prometer o que não pode ser entregue. A terapia pode, sim, oferecer ferramentas para lidar com a ansiedade da espera enquanto o processo mais profundo segue seu curso, mas isso só é possível quando a urgência é trazida para dentro da sala, não escondida dela.


No fim, talvez o mais honesto que se possa dizer sobre o tempo da terapia seja isto: ele não é indiferente à dor de quem espera, mas também não se curva a ela como se isso fosse possível sem custo. Confiar no processo não significa negar a urgência, e sim aceitar que o alívio verdadeiro, aquele que não depende de manter-se em alerta constante esperando a próxima crise, é construído aos poucos, sessão após sessão, percepção após percepção, até que, um dia, sem que se perceba exatamente quando, a pessoa note que já não precisa mais correr tanto para se sentir inteira.


Por Ana Luiza Faria

Nostalgia: Quando lembrar é escuta, não fuga.
© Todos os direitos reservados. Fica expressamente proibida a reprodução, distribuição, exibição ou qualquer forma de utilização, total ou parcial, dos textos e imagens, por qualquer meio, sem prévia e expressa autorização.

Tem uma sensação muito particular em lembrar de algo bom que já passou. Uma mistura que é difícil de nomear, parte doçura, parte aperto. A nostalgia vive nesse lugar estranho entre o afeto e a saudade, entre o que foi e o que não volta. E, talvez por isso mesmo, valha a pena olhar para ela com mais atenção: o que estamos fazendo quando nos refugiamos no passado? Estamos fugindo de algo, ou estamos tentando nos encontrar?


A resposta, como quase tudo que diz respeito ao ser humano, raramente é simples.

Há momentos em que a nostalgia funciona como uma saída de emergência. Quando o presente está pesado demais, quando o futuro parece incerto ou ameaçador, o passado oferece algo que o agora não consegue: a sensação de que já estivemos bem. E o cérebro, que é muito mais sábio do que costumamos dar crédito, às vezes busca esse refúgio como forma de regulação. Lembrar de um tempo mais leve é, em certa medida, uma forma de se acalmar.


O problema começa quando esse refúgio vira endereço fixo. Quando passamos a viver mais no que foi do que no que é, idealizando o passado, comparando o presente com uma versão romantizada de outro tempo, usando a memória como argumento de que tudo era melhor e, portanto, qualquer movimento agora é inútil ou arriscado. Nesse modo, a nostalgia nos paralisa. Ela não nos conecta com o que vivemos: nos afasta dele.


E o corpo sente isso também. Existe uma qualidade física diferente entre lembrar com afeto e lembrar com apego. No primeiro caso, há algo que aquece. No segundo, há um peso, uma contração, como se a gente estivesse tentando segurar o que já escorreu pelos dedos. Não é só sentimento, é tensão, é postura, é uma forma de estar no mundo que se organiza em torno da perda.


Mas a nostalgia tem outro lado, e esse lado é poderoso quando sabemos usá-lo. Às vezes, aquilo que nos move no passado não é o passado em si, é o que ele revela sobre o que importa para nós. Quando sentimos saudade de uma época em que nos sentíamos mais livres, mais criativos, mais conectados, mais simples, o que essa saudade está dizendo sobre o presente? O que está faltando agora que tinha antes? O que, talvez, seja possível resgatar de uma forma diferente, adequada a quem somos hoje?


Usada assim, a nostalgia deixa de ser fuga e se torna bússola. Ela aponta na direção de algo que ainda tem valor, um jeito de se relacionar, um tipo de experiência, uma qualidade de presença. Não para voltar, porque isso não é possível, mas para trazer algo dessa lembrança para o agora. Para deixar que o passado informe o presente, em vez de substituí-lo.


Essa distinção exige uma certa honestidade consigo mesmo. Perguntar: estou lembrando porque preciso me aquecer, ou porque preciso me esquivar? Estou usando esse passado para entender o que quero, ou para evitar olhar para o que está acontecendo agora? Não há resposta errada, há, no máximo, uma resposta mais ou menos honesta.


A nostalgia, como quase toda emoção, não é boa nem má. É informação. E como toda informação, o que fazemos com ela é o que define se ela nos serve ou nos prende. A questão não é parar de lembrar, é aprender a escutar o que a memória está tentando nos dizer. Às vezes, o passado nos visita não para nos prender a ele, mas para nos lembrar de algo que ainda vale ser vivido.


Por Ana Luiza Faria

Meu Nome é Agneta – análise do filme sobre identidade e recomeço feminino
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Agneta vive o que eu chamaria de solidão habitada, aquela condição em que você está cercada de pessoas mas completamente sozinha. Seu marido não a vê, seus filhos partiram, e no trabalho ela é apenas mais uma peça funcional de um sistema burocrático. Ela se tornou aquilo que faz, não aquilo que é. A mulher que mantém a casa limpa, a funcionária que processa papéis no departamento de trânsito, a mãe que já cumpriu seu papel. Mas quando ninguém precisa dela para nada, quando todas essas funções se esvaziam ou desaparecem, quem diabos é Agneta?


Esse tipo de invisibilidade é insidioso justamente porque não acontece de uma hora para outra. É uma erosão lenta, silenciosa, quase imperceptível. Cada pequena renúncia, cada momento em que ela escolheu não incomodar, cada vontade engolida para manter a paz doméstica, foi construindo essa prisão transparente. E o mais cruel é que parte dela colaborou ativamente com esse apagamento. Porque é mais fácil, menos assustador, simplesmente desaparecer do que enfrentar o vazio abissal de não saber quem você é quando ninguém está olhando.


Há algo brutalmente revelador no fato de que o marido dela descobriu um novo propósito na vida através de hobbies caros e narcisistas enquanto ela definhava na mesma casa. Ele mergulha em águas geladas, pedala com equipamentos sofisticados, está vivo, engajado, investindo tempo e dinheiro em si mesmo. E ela? Ela está ali, dividindo o mesmo teto, completamente invisível para ele. Essa assimetria não é coincidência, é uma radiografia de como relacionamentos podem se transformar em estruturas de profunda desigualdade emocional. Ele tinha permissão, ou simplesmente tomou para si o direito, de buscar renovação pessoal. Ela não. E por que não? Talvez porque mulheres na meia-idade carreguem uma culpa cultural específica, como se buscar a própria felicidade fosse egoísmo, abandono, irresponsabilidade. O marido não sentiu essa culpa. Simplesmente comprou a bicicleta cara.


Quando Agneta perde o emprego, aquilo que poderia ser o golpe final numa vida já esvaziada se transforma em algo completamente diferente: uma permissão involuntária para fugir. Às vezes precisamos que a vida nos empurre porque jamais saltaríamos por vontade própria. Somos covardes demais, condicionados demais, assustados demais. A demissão remove a última amarra de responsabilidade que a prendia àquela vida cinzenta. De repente ela não tem mais obrigação nenhuma com nada. É aterrorizante. É libertador.


A decisão de ir para a França como au pair é psicologicamente fascinante porque revela que ela ainda não consegue imaginar-se completamente fora de papéis de cuidado. Está fugindo, sim, mas levando consigo a única identidade que conhece. Vai cuidar de uma criança porque pelo menos isso ela sabe fazer, isso lhe é familiar. É uma meia-fuga, um pé na mudança e outro firmemente plantado na segurança do conhecido. Ela está dando um passo enorme mas ainda com a rede de proteção de um papel social que compreende.


E então vem a subversão brutal do esperado: não é uma criança, é um idoso excêntrico com demência. Isso destrói completamente o script que ela tinha na cabeça. Ela não pode ser a mãe substituta, não pode repetir padrões conhecidos e confortáveis. Cuidar de alguém com demência exige presença radical, paciência infinita com o caos, aceitação profunda da não-linearidade e da imprevisibilidade. É o oposto absoluto da vida burocrática, previsível e morta que ela acabou de deixar para trás.


Mais profundamente ainda, há algo quase poético no fato de que ela vai cuidar de alguém que está perdendo a própria identidade. Einar esquece quem é. Agneta esqueceu quem é. Há uma estranha camaradagem nessa confusão compartilhada, nesse não-saber-se mútuo. Nenhum dos dois sabe bem quem é, então podem talvez descobrir juntos, sem julgamentos, sem expectativas prévias, sem o peso de identidades cristalizadas. É como se dois náufragos se encontrassem no meio do oceano, cada um sem mapa, mas pelo menos não estão mais sozinhos na desorientação.


A Provença não é apenas um cenário bonito. É símbolo, é metáfora, é geografia da transformação. Luz em vez de cinza, calor em vez de frio, beleza em vez de funcionalidade, lentidão em vez de pressa burocrática. Mas seria um erro pensar que a transformação acontece porque a França é magicamente curativa. A transformação acontece porque Agneta está longe, fisicamente distante de todos que passaram décadas a definindo, limitando, ignorando. Longe do marido que não a vê, dos filhos que não precisam mais dela, dos colegas que mal sabiam seu nome. Nesse espaço geográfico e emocional, ela pode experimentar versões de si mesma que nunca teve permissão para explorar. Pode ser engraçada sem que alguém diga "você nunca foi assim". Pode ser corajosa sem que alguém a lembre de todos os medos que sempre teve. Pode ser simplesmente Agneta, sem precisar ser a Agneta de ninguém.


O título do filme carrega esse peso. "Meu Nome é Agneta" é uma frase revolucionária para quem passou décadas sendo "a esposa de", "a mãe de", "a funcionária do departamento de trânsito". É uma declaração radical de existência singular. É dizer: eu existo por mim mesma, não em relação a você ou a qualquer outro. Meu nome não é uma função, não é um papel social, não é um número de matrícula. É Agneta. E isso, sozinho, já basta. Há um poder imenso e subversivo em nomear-se quando o mundo inteiro preferia que você permanecesse uma categoria genérica. Crianças pequenas passam por essa fase do "Eu! Eu mesma! Meu!" quando descobrem a individualidade. Agneta, aos quarenta e poucos anos, está passando exatamente por isso de novo, recuperando o direito básico e fundamental de ser pronome de primeira pessoa, de ser sujeito da própria frase.


O filme provavelmente é doce, reconfortante, esperançoso, e imagino que termine bem. Mas uma parte cínica e realista de mim se pergunta: e depois? Quando a Provença acabar, quando o dinheiro terminar, quando a realidade bater e ela precisar voltar para a Suécia, o que acontece? O marido terá miraculosamente aprendido a vê-la? A vida terá mudado estruturalmente? Provavelmente não. Provavelmente ele ainda terá a bicicleta cara e ela ainda será invisível naquela casa. Mas talvez a verdadeira transformação seja Agneta perceber que não precisa voltar. Ou que pode voltar sendo completamente outra pessoa e se os outros não conseguirem se ajustar a essa nova Agneta, o problema é exclusivamente deles. Porque quando você realmente se encontra, quando toca o fundo de quem você é e decide que isso importa, você simplesmente não cabe mais em espaços que exigem seu encolhimento constante. Você não consegue mais se comprimir para caber.


Agneta tem quase cinquenta anos. A cultura diria sem hesitar: tarde demais para grandes mudanças, para recomeços dramáticos, para descobertas radicais de si mesma. A cultura mente descaradamente. O filme, imagino, é um grito articulado e sensível contra exatamente essa mentira perversa. Você não expira magicamente aos cinquenta. Sua vida não termina porque seus filhos cresceram ou porque seu casamento esfriou ou porque seu trabalho sempre foi medíocre e sem graça. A vida de Agneta recomeça exatamente quando ela decide que recomeça. Simples assim. Aterrorizante assim. Libertador assim. E talvez essa seja a mensagem psicológica mais profunda do filme: que o maior ato de coragem não é mudar de país ou de trabalho, mas mudar a narrativa que você conta sobre si mesma, decidir que sua história não acabou só porque outros capítulos se fecharam.

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