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Escritos, artigos e catarses

Por Ana Luiza Faria

A neuroplasticidade como resposta às mudanças somáticas.

A capacidade de adaptação do corpo e do sistema nervoso é um dos fenômenos mais fascinantes da experiência orgânica. Dentro desse contexto, a neuroplasticidade emerge como um conceito central, evidenciando como o sistema nervoso não apenas responde, mas também se reorganiza diante das mudanças que o corpo vivencia. Longe de ser um mecanismo estático, o cérebro revela-se como uma estrutura dinâmica, profundamente influenciada pelas transformações somáticas e pelos estímulos que o corpo processa em suas interações com o ambiente.


No cerne desse diálogo entre corpo e sistema nervoso, a neuroplasticidade atua como uma espécie de reorganizador interno. Estudos demonstram que a plasticidade neural não se limita ao aprendizado cognitivo ou à recuperação após lesões, mas também se manifesta como uma resposta direta às alterações corporais. Um exemplo claro está em pesquisas que analisam indivíduos submetidos a intervenções físicas significativas, como exercícios ou práticas que envolvem atenção ao corpo, mostrando como essas atividades influenciam a reorganização de circuitos neurais.


Esse dinamismo não ocorre no vazio. Ele é profundamente enraizado no princípio de que o corpo e o sistema nervoso formam um continuum, onde o impacto de uma mudança somática reverbera em níveis mais profundos, redesenhando padrões e reconectando vias. Por exemplo, uma pesquisa publicada no Journal of Neuroscience revelou que a prática de exercícios somáticos regulares promove não apenas o fortalecimento muscular, mas também a criação de novas sinapses em regiões do cérebro associadas ao controle motor. Esses resultados sublinham como intervenções físicas modelam redes neurais de maneira que transcende o corpo físico, envolvendo também processos emocionais e perceptuais.


A ciência contemporânea tem apontado que essas alterações não são meramente pontuais. Estudos no campo da epigenética mostram que mudanças somáticas podem desencadear modificações na expressão genética, regulando a atividade de genes associados ao desenvolvimento e à plasticidade neural. Isso sugere que a experiência somática atua como um agente modelador tanto no nível celular quanto no estrutural, influenciando como o sistema nervoso interpreta e responde ao mundo externo.


Além disso, o impacto das mudanças somáticas na neuroplasticidade não se restringe ao controle motor ou à percepção corporal. Pesquisas recentes demonstram que práticas corporais, como exercícios conscientes, estão correlacionadas com o aumento da neurogênese no hipocampo, uma região-chave para a memória e o aprendizado. Esse dado ilustra como a interação entre corpo e sistema nervoso ultrapassa os limites da funcionalidade imediata, refletindo-se também em processos mais abstratos e complexos, como a organização do pensamento e a regulação emocional.


Essas descobertas levantam questões que vão além do âmbito científico. Elas nos convidam a refletir sobre como vivemos e moldamos nosso corpo em um mundo que, muitas vezes, privilegia o distanciamento entre mente e matéria. Se as mudanças somáticas possuem o poder de remodelar não apenas o corpo, mas também o sistema nervoso, como podemos adotar práticas mais conscientes para favorecer transformações positivas?


A integração entre o corpo e o sistema nervoso não é apenas uma questão funcional, mas também um convite para revisitar a forma como percebemos e habitamos a existência. O ato de prestar atenção ao corpo, de mover-se de maneira consciente e de cultivar experiências somáticas não é uma prática isolada, mas sim uma forma de reorganizar os padrões que estruturam a vida.


Em um mundo marcado por incertezas e mudanças rápidas, compreender a neuroplasticidade como resposta às alterações somáticas nos oferece não apenas um entendimento mais profundo do funcionamento orgânico, mas também uma ferramenta poderosa para transformação pessoal. Afinal, ao transformarmos o corpo, reconfiguramos também os caminhos pelos quais percebemos e interagimos com o mundo.


A plasticidade neural, em sua essência, não é apenas uma adaptação; é uma expressão da capacidade intrínseca de reconfigurar padrões, de abrir novas possibilidades e de criar uma conexão mais profunda entre corpo, percepção e vivência. Ao reconhecermos o papel do corpo na modelagem do sistema nervoso, somos convidados a repensar não apenas o que fazemos, mas também como vivemos em cada movimento, cada gesto e cada escolha.


Por Ana Luiza Faria

Como a desconstrução de crenças limitantes pode transformar a vida

Forças internas moldam silenciosamente como percebemos o mundo e respondemos às suas demandas. Muitas vezes imperceptíveis, elas atuam como lentes que influenciam escolhas, comportamentos e a relação consigo mesmo e com os outros. Essas forças se manifestam por meio de crenças profundamente enraizadas, adquiridas ao longo da vida, que podem restringir a expressão e o potencial humano. Questionar essas estruturas internas é um caminho de transformação que exige atenção às suas raízes e às maneiras como se manifestam na mente e no corpo.


Crenças limitantes são ideias consolidadas sobre o que somos, o que podemos fazer e o que é possível alcançar. Com frequência, surgem de experiências marcantes que moldaram nossa percepção do mundo e foram reforçadas pelo ambiente em que vivemos. Elas não se limitam a conceitos ou palavras ditas, mas se refletem em respostas emocionais e corporais. A sensação de não ser capaz o suficiente, por exemplo, não aparece de forma consciente, mas se constrói ao longo do tempo como resposta a vivências repetitivas e situações desafiadoras.


Essas crenças não estão apenas no pensamento, mas também no corpo. Elas se manifestam em padrões como tensões musculares, posturas habituais ou respiração irregular. Cada experiência significativa deixa marcas físicas, que, com o tempo, passam a sustentar essas crenças. Uma situação de rejeição pode, por exemplo, gerar retração corporal, ombros curvados ou uma postura defensiva. Esses padrões, ao se repetirem, tornam-se parte do repertório emocional e comportamental, perpetuando as crenças associadas.


Reconhecer tais crenças é o primeiro passo para transformá-las. No entanto, esse reconhecimento vai além da análise racional. É preciso observar como elas estão inscritas nas ações cotidianas e na postura corporal. Alguém que acredita não merecer reconhecimento pode perceber que evita elogios, hesita ao falar ou assume uma presença que minimiza sua própria importância. Esses padrões revelam as crenças subjacentes e oferecem uma porta de entrada para a mudança.


O processo de desconstrução não é imediato, mas exige um movimento gradual de reorganização. Ele passa por experimentar novas formas de pensar, sentir e agir, desafiando os padrões que mantêm as crenças limitantes. Uma pessoa que acredita que errar é inaceitável, por exemplo, pode começar a se expor a situações controladas em que o erro seja inevitável. Essa vivência pode transformar sua percepção, mostrando que errar não representa uma ameaça e que o aprendizado é possível em cenários desafiadores. O corpo, antes tenso diante da possibilidade de falhar, passa a responder de forma mais aberta e relaxada.


Essa transformação não se limita ao psicológico. Pesquisas mostram que novas experiências podem modificar padrões neurais, fortalecendo conexões que promovem flexibilidade e adaptabilidade. O corpo e a mente aprendem juntos a adotar respostas mais criativas e menos condicionadas. Esse movimento integrador não rejeita o passado, mas permite que ele seja reinterpretado, criando espaço para novas possibilidades de ação e percepção.


Apesar de sua profundidade, a transformação começa em práticas simples. Pequenas mudanças no dia a dia podem ter impactos significativos. Uma pessoa que sente necessidade de agradar a todos, por exemplo, pode começar a dizer “não” em situações menos desafiadoras. Embora desconfortável no início, essa prática promove mudanças na postura e na autopercepção, reorganizando gradualmente o repertório emocional e comportamental.


A desconstrução de crenças limitantes é, acima de tudo, um caminho para maior liberdade. Ao questionar os padrões que nos restringem, criamos espaço para novas formas de existir, mais alinhadas com quem realmente somos. Esse processo não apaga o que foi vivido, mas ressignifica as experiências passadas, permitindo que o futuro não seja ditado pelas limitações do passado. É uma jornada desafiadora e transformadora, que abre espaço para uma vivência mais plena e integrada.

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