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Escritos, artigos e catarses

Por Ana Luiza Faria

Cultura da exaustão

A nova geração de profissionais está trazendo mudanças profundas na relação com o trabalho, especialmente no que se refere à cultura da exaustão. Se antes o sucesso profissional estava frequentemente associado a longas jornadas, sacrifícios pessoais e a ideia de viver para trabalhar, hoje vemos um movimento contrário. Jovens profissionais, em sua maioria Millennials e Gen Z, estão colocando o bem-estar no centro de suas prioridades, rejeitando a ideia de que o esgotamento é uma medalha de honra ou um indicador de sucesso. Isso coloca as empresas em uma posição de revisão de suas práticas, culturas corporativas e formas de gestão.


A mudança de prioridades é clara. Não se trata de falta de ambição ou comprometimento, mas de uma redefinição de valores. O foco dessa nova geração está no equilíbrio entre vida pessoal e profissional, e o bem-estar emocional e físico é visto como algo essencial, não opcional. Trabalhar para viver, e não viver para trabalhar, tornou-se o lema para muitos, o que está desafiando empresas a se ajustarem a essa nova realidade. Esse movimento não é uma questão de escolher entre sucesso ou saúde, mas de equilibrar ambos, o que transforma completamente a dinâmica do ambiente corporativo.


Para muitas empresas tradicionais, essa postura pode parecer uma crise de comprometimento. No entanto, o que se observa é uma nova forma de engajamento com o trabalho: mais saudável, sustentável e voltado para um propósito de longo prazo. O comprometimento agora não se dá com a empresa a qualquer custo, mas com a ideia de um ambiente que respeite as necessidades individuais e promova o equilíbrio. A lealdade, nesse contexto, deixou de ser apenas uma questão de tempo dedicado à empresa e passou a ser vista sob a ótica da qualidade da experiência de trabalho. Se as condições não são favoráveis ao bem-estar, os profissionais da nova geração não hesitam em procurar novas oportunidades que melhor se alinhem com seus valores.


Essa mudança de comportamento traz consequências importantes para as empresas. O aumento do turnover, bem como a "Grande Demissão", são sinais claros de que organizações que não se adaptam enfrentam uma crise de retenção de talentos. A rotatividade entre os mais jovens é uma realidade que muitas empresas precisam encarar, e o custo disso pode ser alto. Em um mercado competitivo, especialmente nas áreas mais inovadoras, como tecnologia e criatividade, atrair e manter talentos se tornou um desafio que requer mais do que altos salários. É necessário oferecer um ambiente que priorize o bem-estar e que seja flexível o suficiente para acomodar as necessidades individuais.


Algumas organizações já perceberam essa mudança e estão integrando o bem-estar como um valor central em suas culturas corporativas. Não se trata apenas de oferecer benefícios extras ou políticas de saúde mental, mas de criar um ambiente onde o equilíbrio entre o pessoal e o profissional seja respeitado e incentivado. Essas empresas têm percebido que colaboradores mais satisfeitos e equilibrados são também mais produtivos, criativos e engajados. O bem-estar passou de uma palavra da moda a um indicador real de sucesso organizacional.


Para o futuro da gestão de pessoas, essa mudança exige uma transformação profunda. A liderança precisa se afastar de métricas tradicionais de produtividade que muitas vezes ignoram o fator humano. Modelos de trabalho híbridos, horários flexíveis e políticas de saúde mental são apenas o começo. A gestão do futuro será mais humanizada, compreendendo que o sucesso de uma empresa está diretamente relacionado ao bem-estar de seus colaboradores. Isso requer uma mudança de mentalidade, onde o foco deixa de ser apenas resultados e metas e passa a considerar a qualidade de vida como um fator essencial para o sucesso de longo prazo.


Essa rejeição à cultura da exaustão não significa que os profissionais estejam menos comprometidos, mas que estão comprometidos com algo maior: a construção de um ambiente de trabalho mais saudável, equilibrado e sustentável. As empresas que souberem aproveitar essa oportunidade e adaptarem suas culturas corporativas para valorizar o bem-estar estarão mais preparadas para o futuro do trabalho. Afinal, a verdadeira evolução organizacional passa pela capacidade de enxergar o colaborador como um ser integral, e não apenas uma peça produtiva.

Por Ana Luiza Faria

Solidão na era digital

Vivemos em um mundo onde as interações humanas são mais acessíveis do que nunca, e, ao mesmo tempo, a solidão parece estar em alta. A era digital nos trouxe uma infinidade de ferramentas para nos conectar, mas será que essas conexões estão realmente preenchendo o vazio que muitos sentem? Essa dicotomia é uma das questões mais relevantes da nossa sociedade contemporânea, levando-nos a refletir sobre o impacto das redes sociais e da comunicação virtual em nossa saúde mental e bem-estar.


A solidão não é uma experiência nova. Ela sempre fez parte da condição humana. No entanto, a forma como vivenciamos essa solidão mudou radicalmente com o advento das tecnologias digitais. Em um estudo recente, pesquisadores apontaram que, embora o uso de redes sociais possa inicialmente proporcionar uma sensação de conexão, a realidade é que muitas pessoas relatam se sentir mais isoladas e desconectadas do que nunca. A interação por meio de telas pode dar a impressão de proximidade, mas frequentemente carece da profundidade e da intimidade que as interações face a face oferecem.


As plataformas digitais foram projetadas para facilitar a comunicação. No entanto, elas também criam um paradoxo: quanto mais conectados estamos, mais distantes nos sentimos. Essa distância é acentuada por uma cultura que valoriza a quantidade de interações em detrimento da qualidade. O culto ao "like" e à validação instantânea pode nos fazer sentir populares, mas isso não substitui a conexão genuína que experimentamos em um diálogo real, onde expressões faciais e tons de voz desempenham papéis cruciais na comunicação.


Estudos demonstram que o uso excessivo de redes sociais está associado a altos níveis de ansiedade e depressão. Ao nos compararmos constantemente com as vidas aparentemente perfeitas dos outros, corremos o risco de alimentar a sensação de inadequação e solidão. A comparação social, amplificada pelo fluxo incessante de imagens e histórias nas redes, pode se tornar uma armadilha emocional que nos afasta ainda mais de nós mesmos e dos outros.


Além disso, a cultura digital muitas vezes promove um tipo de interação superficial. Conversas em grupos de WhatsApp ou comentários em postagens podem ser mais frequentes, mas muitas vezes são menos satisfatórios. Esse cenário nos leva a questionar: estamos trocando interações significativas por um consumo rápido de informações? A falta de profundidade nas relações digitais pode nos deixar com um sentimento persistente de que algo está faltando.


Mas é possível encontrar um caminho que respeite a conexão digital, ao mesmo tempo em que buscamos interações mais significativas. A chave pode estar em como escolhemos usar essas ferramentas. Criar limites saudáveis em relação ao tempo que passamos online e priorizar interações que nutrem nossas almas pode ser um passo vital. Em vez de simplesmente consumir conteúdo, podemos buscar participar ativamente de comunidades que compartilham nossos interesses e valores, promovendo um senso de pertencimento.


A cultura pop também reflete essa realidade. Séries e filmes frequentemente retratam a solidão contemporânea, como exemplificado em "Black Mirror", que aborda as consequências da dependência da tecnologia em um tom muitas vezes sombrio. Essas narrativas nos forçam a confrontar a verdade da condição humana em um mundo cada vez mais digitalizado. Elas nos mostram que, apesar das promessas de conexão, a solidão persiste como um dos maiores desafios da era moderna.


Portanto, enquanto navegamos por este mar de interações digitais, é crucial manter um olhar crítico sobre a qualidade das relações que cultivamos. A solidão na era digital não é apenas uma questão individual, mas uma preocupação coletiva que merece ser discutida. Que possamos, assim, utilizar a tecnologia como um meio de promover conexões autênticas e profundas, ao invés de meras interações superficiais.


Refletir sobre nossas experiências digitais pode ser o primeiro passo para reavaliar nossas relações e buscar formas mais saudáveis de nos conectar. A solidão, embora uma experiência difícil, pode nos conduzir a um entendimento mais profundo de nós mesmos e de como desejamos nos relacionar com o mundo ao nosso redor. Ao priorizar a qualidade sobre a quantidade, podemos transformar a solidão em uma oportunidade de crescimento e autoconhecimento, encontrando um equilíbrio que nos permita prosperar na era digital.


Essa reflexão sobre a solidão na era digital é mais do que uma análise crítica; é um convite para reavaliar nossas práticas e interações. Afinal, a busca por conexão verdadeira deve ser uma jornada que todos nós, como indivíduos e sociedade, devemos valorizar e perseguir.

Por Ana Luiza Faria

A influência da luz natural no humor

A luz que recebemos diariamente, embora pareça apenas um elemento corriqueiro do nosso ambiente, desempenha um papel crucial na forma como nos sentimos e nos comportamos. A relação entre a exposição à claridade e o bem-estar não é apenas uma questão física; há um impacto profundo sobre a mente, moldando tanto o nosso humor quanto nossos estados emocionais. Mas como essa conexão acontece e por que a presença ou ausência de luminosidade pode transformar nosso estado mental?


Quando nos expomos à luz, especialmente pela manhã, o corpo inicia uma série de processos biológicos que regulam o ciclo circadiano, o relógio interno que organiza o sono e o despertar. A claridade age como um sinal para o cérebro, indicando que é hora de se manter alerta e ativo. Além disso, a produção de serotonina, um neurotransmissor associado à sensação de bem-estar, é diretamente estimulada. Esse aumento na serotonina ajuda a manter o humor estável ao longo do dia, melhorando nossa disposição e capacidade de lidar com desafios cotidianos.


Por outro lado, a falta de luminosidade adequada, especialmente em períodos de inverno ou em ambientes fechados, pode afetar profundamente o humor. A privação de claridade reduz a produção de serotonina e eleva os níveis de melatonina, um hormônio responsável pelo sono. É por isso que muitas pessoas relatam sentir-se mais desanimadas, cansadas ou até mesmo deprimidas durante os dias mais nublados ou em locais com pouca luz. Esse fenômeno, chamado Transtorno Afetivo Sazonal (TAS), ilustra como a ausência de luz afeta diretamente nosso estado emocional, provocando um ciclo de fadiga e melancolia.


Essa influência luminosa pode ser conectada a processos psicológicos mais profundos. Na perspectiva psicanalítica, a luz pode ser vista como um símbolo de vitalidade e energia psíquica. A claridade que entra em nossa vida cotidiana representa a capacidade de nos movimentarmos no mundo de maneira ativa, criativa, o que nos permite sair do estado de apatia. Assim como o inconsciente psicanalítico trabalha com forças ocultas que emergem à consciência, a exposição ao brilho externo poderia ser interpretada como uma abertura para o "novo", para o despertar de forças internas que nos impulsionam.


Essa visão reforça como o ambiente influencia os processos mentais inconscientes. Ambientes sombrios, com pouca claridade, podem facilitar a introspecção, mas, em excesso, podem também aprisionar a mente em estados de melancolia ou paralisia emocional. O equilíbrio, então, torna-se essencial: períodos de luminosidade, que nos energizam, e momentos de introspecção, que nos conectam com nosso mundo interno.


Para aqueles que buscam melhorar o bem-estar mental, pequenos ajustes na rotina podem fazer uma diferença significativa. Incorporar mais momentos ao ar livre, mesmo em dias nublados, é uma maneira eficaz de equilibrar o humor. No trabalho, por exemplo, estar perto de janelas ou aproveitar pausas para sair em ambientes abertos pode trazer mais disposição e clareza mental. Além disso, refletir sobre como passamos nossos dias sob a luz ou no escuro nos ajuda a entender os momentos em que nossa mente necessita de descanso ou de estímulo.


Em última análise, o impacto da luminosidade no nosso humor vai além da simples física de luz e sombra. O contato diário com ambientes bem iluminados nos recorda da importância de cultivar espaços internos e externos que promovam o nosso bem-estar. Da mesma forma que cuidamos de nossa alimentação ou sono, manter uma relação saudável com a claridade ao nosso redor pode ser uma maneira simples e eficiente de melhorar nossa saúde mental e qualidade de vida.


A vida moderna, repleta de compromissos e ambientes fechados, muitas vezes nos afasta de algo tão essencial quanto o brilho do dia. Mas ao trazermos mais momentos de luminosidade para o cotidiano, encontramos um caminho simples, mas poderoso, para equilibrar a mente e o corpo. Afinal, a luz que recebemos reflete diretamente no que sentimos – é um convite diário para despertar para a vitalidade que está ao nosso redor e dentro de nós.

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