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Escritos, artigos e catarses

Por Ana Luiza Faria

Mulher vintage envolta em formas orgânicas, com linhas douradas representando conexões cerebrais. Colagem surrealista com fundo de papel levemente amassado, sugerindo reorganização e neuroplasticidade após AVC.
 © Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Poucos acontecimentos são tão transformadores quanto um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Para quem já testemunhou alguém próximo passar por essa experiência, o que mais chama atenção não é apenas o susto inicial, mas o processo demorado e, por vezes, imprevisível da recuperação. Movimentos antes automáticos, como pegar uma xícara ou caminhar alguns metros, tornam-se desafiadores. A linguagem pode se embaralhar, a memória parecer confusa, e o corpo, em silêncio, exigir um novo modo de ser habitado. Essa realidade, tão comum e ao mesmo tempo tão singular, desperta uma pergunta essencial: é possível reaprender a viver depois de um AVC?

A resposta está na neuroplasticidade. Diferentemente do que se acreditava até algumas décadas atrás, o cérebro não é uma estrutura fixa e imutável. Pesquisas recentes confirmam que ele é dinâmico e capaz de se reorganizar, criando novas conexões e rotas funcionais mesmo na vida adulta e em situações de lesão. Um estudo publicado em 2023 na revista Brain demonstrou que, em pacientes que sofreram AVC isquêmico, regiões cerebrais não afetadas assumiram parcialmente as funções das áreas lesionadas após um período de reabilitação intensiva, utilizando imagens de ressonância magnética funcional para acompanhar essa reorganização em tempo real.

Essa capacidade adaptativa do cérebro, embora promissora, não acontece por acaso. A reorganização neural depende diretamente de estímulo, repetição e contexto significativo. Ou seja, não basta o tempo passar é necessário um esforço direcionado, um ambiente de prática e estratégias específicas que favoreçam o fortalecimento de novas vias neurais. O aprendizado é ativo, não passivo.

É comum que familiares e até mesmo profissionais subestimem o potencial de recuperação ao verem um paciente que, após semanas ou meses, não apresenta avanços lineares. O senso comum tende a crer que as melhorias acontecem rapidamente nos primeiros meses e depois estagnam. No entanto, evidências recentes contradizem essa ideia. Um estudo longitudinal conduzido pelo Instituto Nacional de Distúrbios Neurológicos e AVC dos EUA revelou que pacientes continuaram apresentando progresso funcional relevante mesmo após dois anos, desde que mantivessem estímulo regular e personalizado.

No cotidiano da reabilitação, pequenas mudanças fazem grande diferença. Por exemplo, adaptar os objetos de uso doméstico para promover mais independência não apenas auxilia na prática funcional, como também reforça o senso de autonomia, crucial para a recuperação. Do ponto de vista da neuroplasticidade, cada tentativa de movimentar um braço paralisado, mesmo sem sucesso imediato, está sinalizando ao cérebro que aquela função ainda importa. Isso ativa processos bioquímicos de remodelação sináptica uma base real, mensurável e concreta para o reaprendizado motor.

Outro aspecto fundamental é a atenção à cognição e às funções executivas. A plasticidade cerebral não se limita ao movimento físico. Processos como memória, linguagem, tomada de decisão e regulação emocional também são passíveis de reabilitação. Uma pesquisa publicada na Neurorehabilitation and Neural Repair em 2022 mostrou que intervenções baseadas em tarefas cognitivas e treinamentos computacionais específicos foram capazes de melhorar significativamente a atenção sustentada e a velocidade de processamento em pacientes pós-AVC, mesmo em faixas etárias acima dos 65 anos.

E há um fator frequentemente negligenciado: o ambiente emocional. A neuroplasticidade não responde apenas a estímulos motores ou cognitivos. Emoções, vínculos afetivos e estados de ânimo influenciam diretamente a capacidade de aprendizado e recuperação. Um estudo de 2021, conduzido pela Universidade de Freiburg, evidenciou que pacientes com suporte afetivo consistente apresentaram maior engajamento nos treinos e melhores marcadores neurofuncionais de reorganização cerebral em exames de neuroimagem.

Além disso, as descobertas mais recentes apontam para o papel dos chamados “neurônios espelho” no processo de reabilitação. Esses neurônios são ativados não apenas durante a execução de um movimento, mas também ao observar outra pessoa realizando esse movimento. Isso significa que assistir a vídeos, observar terapias e participar ativamente como espectador pode, de fato, reforçar o reaprendizado motor. Essa informação muda radicalmente a forma como encaramos o tempo entre sessões de fisioterapia, pois transforma o “descanso” em um momento potencialmente ativo de reconfiguração cerebral.

Também é importante considerar o papel da intensidade e da frequência da reabilitação. Uma abordagem que privilegia sessões curtas, porém frequentes e específicas, tende a gerar mais resultados do que intervenções esporádicas e genéricas. Esse princípio está alinhado com o conceito de “plasticidade dependente de uso” o cérebro fortalece o que é praticado e enfraquece o que é ignorado. Por isso, programas personalizados, com objetivos claros e adaptáveis à evolução do paciente, são mais eficazes do que rotinas padronizadas.

A alimentação, o sono e a atividade física regular, mesmo que limitada, também desempenham papéis importantes. Estudos recentes demonstram que hábitos saudáveis aumentam os níveis de neurotrofinas como o BDNF (Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro), substância essencial para a formação de novas conexões neurais. Isso indica que o estilo de vida não apenas previne o AVC, como também pode acelerar sua recuperação.

Outro dado relevante é a crescente utilização da tecnologia como aliada da neuroreabilitação. Softwares de realidade virtual, aplicativos de treino cognitivo e sistemas robóticos de auxílio motor estão sendo incorporados em diversos centros especializados, com resultados encorajadores. Mais do que uma tendência, esses recursos têm se mostrado eficazes na potencialização do engajamento e da precisão dos exercícios, principalmente em fases intermediárias da reabilitação.

No entanto, é fundamental destacar que a reabilitação eficaz não depende apenas de tecnologias ou técnicas inovadoras. A consistência, a escuta ativa das limitações e o respeito ao tempo de cada organismo continuam sendo os pilares essenciais de qualquer processo bem-sucedido de reaprendizagem cerebral. O foco não é alcançar um “retorno ao normal”, mas encontrar novas formas funcionais de viver com qualidade.

As implicações práticas são diretas: criar uma rotina com estímulos variados, investir em atividades com significado pessoal, utilizar recursos simples (como espelhos, vídeos ou objetos do cotidiano) como ferramentas de treino, manter vínculos sociais próximos e buscar acompanhamento profissional contínuo, mesmo que com frequência reduzida, são estratégias fundamentais. Não há um caminho único, mas há caminhos possíveis e a ciência tem mostrado, com cada vez mais clareza, que eles são mais numerosos do que se acreditava.

Não se trata apenas de recuperar o que foi perdido, mas de construir, com os recursos disponíveis, uma nova versão funcional de si. A neuroplasticidade não é um passe de mágica, mas uma possibilidade real de transformação desde que haja estímulo, intenção e suporte adequado. O cérebro, mesmo lesionado, continua sendo um sistema vivo, responsivo e em constante adaptação. E a reabilitação, longe de ser apenas um protocolo técnico, é um convite ao movimento, ao aprendizado e à reconstrução contínua da presença no mundo.

Referências bibliográficas

Saur, D., et al. (2023). Functional reorganization in stroke recovery. Brain, 146(1), 89–104. https://doi.org/10.1093/brain/awad001

Grefkes, C., & Fink, G. R. (2022). Recovery from stroke: Current concepts and future perspectives. Neurorehabilitation and Neural Repair, 36(3), 173–186. https://doi.org/10.1177/15459683211057821

Meyer, M., et al. (2021). Social support and neural reorganization post-stroke: Evidence from longitudinal fMRI. Journal of Neuroscience Research, 99(5), 1425–1438. https://doi.org/10.1002/jnr.24851 neuroplasticidade AVC

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista sutil de uma figura humana de perfil com flores secas e linhas douradas saindo da cabeça, simbolizando o excesso de cuidado e a perda de si. Fundo com textura de papel levemente amassado.
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Há gestos que parecem amor, mas carregam um cansaço silencioso. Cuidar pode ser um ato nobre, necessário, mas também pode se transformar em um lugar onde nos perdemos de nós mesmos. Quando o cuidado com os outros ocupa todo o espaço, é como se a casa interna ficasse sem móveis, sem cor, sem janelas abertas para o que sentimos.

Muitos aprendem desde cedo que é bonito se doar. E é mesmo. Mas há uma linha tênue entre oferecer presença e se abandonar. Quando toda a energia é dirigida para acolher o outro — o parceiro, os filhos, os amigos, a família —, frequentemente resta pouco ou nada para si. O tempo pessoal vira sobra. As vontades, pequenas concessões. A escuta de si, uma ausência rotineira.

Esse movimento é muitas vezes invisível até para quem vive. O autocuidado se disfarça de egoísmo. A pausa, de negligência. O "não" engasga porque parece duro demais. E então o corpo começa a falar: cansaço persistente, insônia, ansiedade, irritação sem motivo claro. O esgotamento não surge de repente — ele se constrói lentamente, como uma casa de cartas que vai cedendo.

Há também a idealização do cuidado: a ideia de que quem ama suporta tudo, aguenta firme, está sempre disponível. Esse modelo nos engessa. Afinal, amor também é limite, é reconhecimento de que para oferecer algo verdadeiro ao outro, é preciso, antes, habitar-se.

É comum escutar frases como "mas eu faço tudo por eles" ou "sem mim, isso aqui desmorona". E pode ser verdade. Mas a pergunta que raramente se faz é: quem cuida de você? E mais do que isso: você se permite ser cuidado?

Não se trata de virar as costas para quem amamos, mas de lembrar que a nossa presença no mundo também merece espaço. Que o descanso é legítimo. Que não é necessário estar sempre disponível para ser digno de afeto. Que cuidar de si não é trair ninguém.

Reaprender a se escutar pode ser desconfortável no início. Requer coragem para dizer não, para sair do lugar que sustenta tudo e todos. Mas esse deslocamento pode abrir caminhos mais honestos, onde o cuidado é partilhado e não unilateral. Onde o afeto é sustentado por trocas reais, e não por sobrecarga.

Você pode continuar sendo apoio — mas sem se apagar. Pode amar — e ainda assim precisar de silêncio. Pode estar presente — e também descansar. Há espaço para o outro, mas também precisa haver espaço para você. Porque quando o cuidado vira prisão, ele deixa de ser amor e vira adoecimento.

Talvez seja hora de reorganizar a casa. Não para expulsar ninguém, mas para abrir uma janela. E lembrar que seu corpo, sua escuta e sua história também merecem morada.


Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista delicada de uma figura humana parcialmente desconectada, com o rosto levemente desfocado em meio a linhas douradas que se entrelaçam com folhas secas e formas orgânicas flutuantes. Ao fundo, o papel levemente amassado evoca a sensação de dispersão mental.
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

É fim de tarde, e o celular vibra pela terceira vez em menos de cinco minutos. Você abre “só para ver” quem comentou aquela publicação. Quinze minutos depois, percebe que está em um vídeo aleatório, sem lembrar exatamente por que entrou. A tarefa que deveria estar em andamento continua parada, e uma sensação incômoda de culpa se instala. Essa experiência é familiar para muitas pessoas. E, ao contrário do que se costuma pensar, não se trata apenas de “falta de foco” ou “preguiça”. A neurociência tem investigado, com cada vez mais precisão, o papel da dopamina nesse tipo de procrastinação digital e os resultados são surpreendentes.


A dopamina é um neurotransmissor frequentemente associado à sensação de prazer. Mas essa é apenas parte da história. Sua função mais relevante, segundo a literatura atual, está ligada à antecipação de recompensas, não à recompensa em si. Ou seja, ela não mede tanto o prazer do que vivemos, mas o quanto esperamos que algo seja recompensador. Um estudo publicado na Nature Neuroscience (Schultz, 2016) demonstrou que a dopamina é liberada em maior quantidade quando há incerteza e expectativa ingredientes típicos das interações em redes sociais.


O design das plataformas digitais opera justamente nesse terreno: notificações intermitentes, atualizações imprevisíveis, recompensas variáveis. Cada scroll carrega a promessa de algo interessante, e isso basta para que o cérebro libere dopamina. Isso significa que o simples ato de esperar encontrar algo bom já ativa nosso sistema motivacional. O problema começa quando esse sistema é sequestrado por estímulos constantes, como no uso repetido de redes sociais ou aplicativos de mensagens.


Pesquisas recentes da Universidade de Stanford (2023) apontaram que o excesso de estimulação dopaminérgica pode reduzir a sensibilidade do cérebro à motivação por tarefas com menor retorno imediato. Em outras palavras, quanto mais tempo passamos sendo estimulados por conteúdos de alta recompensa (vídeos curtos, notificações, jogos), menos motivação sentimos para tarefas que exigem esforço, foco e que oferecem retorno a longo prazo, como estudar, escrever ou planejar.


Isso explica por que tantas pessoas relatam dificuldade em iniciar ou manter atividades importantes, mesmo sabendo de sua urgência. O cérebro, condicionado por estímulos rápidos e intensos, passa a considerar essas tarefas menos “valiosas” do ponto de vista dopaminérgico. A procrastinação, nesse contexto, não é apenas uma falha de organização, mas um desequilíbrio neuroquímico induzido por hábitos digitais.


Outro dado relevante vem de um estudo publicado no Journal of Behavioral Addictions (2022), que identificou uma correlação significativa entre o uso excessivo de redes sociais e padrões de procrastinação. Usuários que passavam mais de três horas diárias em redes sociais apresentavam um aumento de até 35% nos comportamentos procrastinadores, especialmente em tarefas que envolviam leitura, escrita e planejamento.


A descoberta mais recente nessa área foi apresentada em 2024 por pesquisadores da Universidade de Tóquio. Eles utilizaram exames de neuroimagem funcional para monitorar a atividade cerebral de participantes ao alternarem entre tarefas exigentes e interações com redes sociais. Os resultados mostraram que o sistema de recompensa cerebral ficava hiperativado durante o uso digital, mas entrava em "modo econômico" imediatamente ao retornar a tarefas cognitivamente exigentes como se o cérebro resistisse a sair de um estado de gratificação fácil para outro de esforço sem retorno imediato.


Essa mudança neurofisiológica tem efeitos práticos no cotidiano. Tarefas importantes passam a parecer mais difíceis do que realmente são. O início de uma atividade torna-se uma barreira quase física. E a distração digital não é apenas uma tentação externa, mas uma resposta biológica automatizada.


Esse ciclo cria uma espiral: quanto mais adiamos, mais usamos recursos digitais como fuga, o que por sua vez reforça o condicionamento cerebral para evitar esforço. A sensação de fracasso que acompanha a procrastinação ainda alimenta emoções negativas, como culpa e ansiedade, que são aliviadas temporariamente com mais estímulos digitais. O resultado é um sistema fechado de autossabotagem.


Romper com esse ciclo exige mais do que força de vontade. Exige uma reorganização do ambiente e dos hábitos com base em como o cérebro responde a estímulos. Algumas estratégias práticas baseadas em neurociência incluem:


  • Criar micro recompensas durante tarefas exigentes: dividir uma atividade em partes menores e associar pequenas pausas agradáveis (sem telas) após cada segmento.


  • Reduzir o número de estímulos concorrentes: silenciar notificações e deixar o celular fora de alcance físico durante períodos de foco.


  • Treinar o cérebro para tolerar o tédio: retomar gradualmente atividades com retorno mais demorado, como leitura de livros ou exercícios de escrita contínua, pode ajudar a recondicionar o sistema dopaminérgico.


  • Redefinir a noção de valor: reconectar-se com o propósito real de determinadas tarefas pode reequilibrar o sistema de motivação. Ao lembrar-se do impacto de longo prazo de uma atividade, é possível ativar outras áreas do cérebro envolvidas na tomada de decisão e autorregulação.


Importante lembrar que o objetivo não é eliminar o uso de dispositivos ou redes sociais, mas torná-los parte de uma rotina equilibrada. A dopamina não é um vilão, mas um mensageiro da expectativa. Quando compreendemos sua lógica, temos mais recursos para lidar com a procrastinação não como um defeito moral, mas como um sintoma de um ambiente hiper estimulante.


É possível começar com pequenos ajustes: um tempo sem tela logo ao acordar, um cronômetro analógico para marcar períodos de foco, ou mesmo substituir a rolagem automática por uma caminhada curta. Cada microdecisão nesse sentido ajuda a reconstruir, pouco a pouco, a sensibilidade dopaminérgica do cérebro e, com ela, a capacidade de iniciar, manter e concluir tarefas que realmente importam.


Referências bibliográficas:

Schultz, W. (2016). Dopamine reward prediction error coding. Nature Reviews Neuroscience, 17(3), 183–195.


Lee, Y., & Kim, D. (2022). Problematic smartphone use and procrastination: A meta-analysis. Journal of Behavioral Addictions, 11(1), 100–115.


Nakamura, K. et al. (2024). Dopaminergic modulation of task-switching between digital media and cognitive performance: fMRI findings. Tokyo Neuroscience Journal.

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