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Escritos, artigos e catarses

Por Ana Luiza Faria

É que Narciso acha feio o que não é espelho ...

Em "Sampa", Caetano Veloso captura o desconcerto diante do novo através de um verso revelador: "Narciso acha feio o que não é espelho". A frase sintetiza uma tendência humana profunda a rejeição do que não se assemelha a nós. Mas ela também nos desafia: será possível enxergar o outro sem exigir que ele seja um reflexo nosso? O encontro com a diferença é sempre um confronto. Seja com uma pessoa, uma ideia ou uma cultura distante, o primeiro impulso é buscar familiaridade. Quando não a encontramos, surge o estranhamento uma reação natural, mas que revela mais sobre nós do que sobre o outro. Afinal, a identidade não é estática; ela se constrói justamente no diálogo com aquilo que nos escapa, que nos força a sair do conhecido.


Desde a infância, buscamos referências que validem nossa visão de mundo. O que se assemelha a nós conforta; o que diverge, inquieta. Esse mecanismo, porém, limita nossa capacidade de compreensão. Se só aceitamos o que já reconhecemos, fechamo-nos à riqueza do diverso. Aqui reside um paradoxo: o outro não precisa ser assimilado para ser entendido. Não é necessário que uma ideia se ajuste ao nosso repertório para que tenha valor, nem que uma pessoa se torne "como nós" para merecer respeito. A verdadeira abertura exige que abandonemos a necessidade de domínio que olhemos sem a pretensão de decifrar, categorizar ou reduzir.


Se Narciso só vê beleza no que reflete sua imagem, ele condena-se à solidão do autorreconhecimento. A identidade, no entanto, não se fortalece na repetição, mas na transformação. Cada encontro com o diferente seja ele harmonioso ou conflituoso — é uma chance de expandir quem somos. O estranhamento, portanto, não deveria ser um obstáculo, mas um convite. Quando nos deparamos com algo que não compreendemos imediatamente, temos duas escolhas: rejeitá-lo por não caber em nossos moldes ou permitir que ele nos questione. A segunda opção é mais difícil, mas também mais fértil.


Aceitar o outro em sua diferença exige desprendimento. Significa abrir mão da segurança do previsível e encarar o desconhecido sem a ânsia de controlá-lo. Esse movimento é desestabilizador mas é também o que nos permite crescer. Caetano, ao retratar São Paulo como um labirinto de contrastes, celebra justamente isso: a cidade que não se deixa decifrar, que resiste à simplificação. Da mesma forma, o outro (seja uma pessoa, uma cultura ou uma perspectiva) não existe para nos confirmar, mas para nos desafiar.


Diante do que não é espelho, como reagimos? Insistimos em buscar nosso próprio reflexo, ou estamos dispostos a enxergar o mundo e a nós mesmos com novos olhos? A resposta define não apenas nossas relações, mas a profundidade da nossa existência.

Por Ana Luiza Faria

Como o estilo de apego influencia os relacionamentos amorosos

Nos relacionamentos amorosos, há uma força invisível que molda a forma como nos conectamos, reagimos e interpretamos as interações com o outro. Essa força tem raízes profundas na história emocional e corporal de cada indivíduo e se manifesta no modo como regulamos nossas emoções, nos envolvemos nas dinâmicas de poder e repetimos padrões de comportamento ao longo da vida.


Desde os primeiros vínculos, o corpo aprende a responder ao contato, à ausência, à previsibilidade ou à instabilidade da presença do outro. Essas experiências não são apenas armazenadas como memórias, mas incorporadas em padrões somáticos que influenciam a forma como regulamos o afeto e a proximidade. O impacto do estilo de apego não se resume a crenças ou expectativas conscientes sobre os relacionamentos; ele se estrutura na própria organização neurobiológica do indivíduo, afetando a maneira como o sistema nervoso se ajusta ao contato e à separação.


A regulação somática e emocional em um vínculo afetivo reflete a qualidade das primeiras interações vividas. Corpos que se habituaram a um ambiente responsivo aprendem a modular a excitação e a confiança no contato. Por outro lado, quando a previsibilidade do outro é incerta ou marcada por inconsistências, o organismo internaliza respostas que oscilam entre hipervigilância e fechamento. Essas configurações iniciais tornam-se referenciais para as futuras interações amorosas, influenciando a forma como lidamos com a intimidade, a perda e a autonomia dentro de uma relação.


Nas dinâmicas de poder nos relacionamentos, os padrões de apego estabelecem como os parceiros negociam presença e ausência, segurança e liberdade. Há aqueles que tendem a buscar constantemente a validação do outro, enquanto outros sustentam uma independência defensiva que dificulta o envolvimento emocional profundo. Essas disposições não são apenas escolhas racionais, mas expressões de um modelo interno que o corpo aprendeu a reconhecer como seguro ou ameaçador. Assim, cada vínculo amoroso se torna um campo de tensão entre a necessidade de proximidade e a proteção contra o medo da perda ou do desamparo.


Padrões de comportamento recorrentes nos relacionamentos também são expressões dessa organização primária. A repetição de determinados conflitos, dificuldades em confiar ou se entregar, reações intensificadas ao afastamento e a busca incessante por sinais de estabilidade podem ser compreendidas como formas automáticas do organismo tentar restabelecer um equilíbrio aprendido na infância. No entanto, esse equilíbrio nem sempre favorece relações satisfatórias; muitas vezes, ele apenas reforça um ciclo previsível de expectativa e frustração.


Neurocientificamente, a base dessas experiências está nas redes que regulam o estresse e a recompensa, como o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e os circuitos de dopamina e ocitocina. A qualidade dos primeiros vínculos impacta diretamente esses sistemas, influenciando a forma como o corpo reage à proximidade ou ao distanciamento. Do ponto de vista epigenético, estudos demonstram que a responsividade e a sensibilidade do ambiente nos primeiros anos podem modular a expressão de genes ligados à resposta ao estresse, o que significa que o impacto do apego ultrapassa a esfera psicológica e se inscreve na própria biologia do indivíduo.


A percepção fenomenológica dos relacionamentos amorosos também passa pelo corpo e sua história de interação. Não se trata apenas do que se deseja conscientemente em um parceiro, mas de como o corpo reconhece e responde ao outro. A familiaridade de certas dinâmicas, mesmo quando disfuncionais, pode gerar uma sensação de previsibilidade que mantém o indivíduo preso a relações que reproduzem padrões antigos. Romper esse ciclo exige um trabalho de sensibilização e reorganização, permitindo novas formas de se relacionar que não estejam rigidamente moldadas pelas respostas aprendidas no passado.


Compreender o impacto do estilo de apego nos relacionamentos amorosos não significa apenas identificar tendências comportamentais, mas reconhecer como cada experiência afetiva está inscrita no corpo e influencia a forma como se constrói e se sustenta um vínculo. O processo de transformação não passa por uma mera mudança cognitiva, mas por um realinhamento entre percepção, emoção e organização somática, permitindo que novas formas de conexão possam emergir.

Por Ana Luiza Faria

A relação entre pensamento crítico e saúde mental

A relação entre pensamento crítico e saúde mental é fundamental para entender como lidamos com nossas emoções e pensamentos. Ter um olhar crítico sobre o que sentimos e pensamos nos ajuda a questionar crenças que podem estar nos prejudicando, tornando mais fácil enfrentar desafios emocionais e desenvolver maior equilíbrio psicológico.


Pensar criticamente não significa apenas analisar tudo de forma racional ou ser cético. Trata-se de perceber se estamos reagindo de forma automática ou se realmente estamos refletindo sobre nossas experiências. Muitas vezes, nossas emoções e vivências passadas influenciam a maneira como enxergamos o mundo. Quando não temos essa consciência, podemos acabar presos a crenças negativas que aumentam a ansiedade, o pessimismo e a dificuldade de tomar decisões.


A saúde mental depende dessa capacidade de olhar para dentro e entender os padrões que guiam nossos pensamentos e emoções. Quando conseguimos diferenciar sentimentos passageiros de questões mais profundas, ganhamos mais clareza sobre nós mesmos. Se não desenvolvemos essa habilidade, corremos o risco de repetir os mesmos comportamentos e ficar presos em ciclos de sofrimento emocional.


Nossa capacidade de regular as emoções melhora quando conseguimos interpretar melhor o que sentimos. Se reagimos automaticamente às situações sem questioná-las, podemos nos tornar reféns de impulsos e emoções intensas, o que gera mais angústia. Além disso, se não questionamos nossas próprias crenças, podemos reforçar padrões pessimistas que impactam nossa estabilidade emocional.


O pensamento crítico também nos permite perceber a influência do meio em nossas percepções e decisões. Muitas vezes, adotamos opiniões e comportamentos sem perceber que são reflexos de influências externas. Quando essa percepção se torna mais clara, conseguimos filtrar informações e construir uma visão mais independente da realidade. Isso reduz a tendência de se deixar levar por discursos alarmistas, crenças limitantes ou padrões de pensamento automáticos que geram sofrimento.


Outro aspecto importante dessa relação está na capacidade de adaptação às mudanças. A rigidez mental, caracterizada pela dificuldade em aceitar novas perspectivas e rever crenças, pode gerar um impacto negativo na saúde emocional. Pessoas que não desenvolvem o pensamento crítico podem sentir-se presas a uma única forma de enxergar o mundo, o que leva à frustração quando a realidade não corresponde às suas expectativas. A flexibilidade cognitiva, fortalecida pelo pensamento crítico, nos ajuda a lidar melhor com incertezas e desafios da vida.


No contexto das dificuldades em tomar decisões, a falta de pensamento crítico pode nos fazer sentir paralisados. A insegurança de não saber se estamos escolhendo certo pode nos levar a um estado de hesitação constante, aumentando o sofrimento. Desenvolver um olhar mais atento sobre nossos critérios e influências nos ajuda a tomar decisões mais alinhadas com o que realmente queremos.


Além disso, a ausência de um pensamento crítico pode contribuir para a internalização de discursos autodestrutivos. Muitas pessoas adotam crenças negativas sobre si mesmas, como "não sou bom o suficiente" ou "nunca conseguirei mudar", sem questionar a origem desses pensamentos. Esse tipo de raciocínio automático pode reforçar estados emocionais negativos, dificultando o desenvolvimento de uma relação mais saudável consigo mesmo.


Por isso, a relação entre pensamento crítico e saúde mental está na capacidade de refletir antes de reagir, questionar crenças que nos limitam e entender melhor nossas emoções. Esse processo não significa ignorar o que sentimos, mas sim compreender de forma mais profunda para agir de maneira mais consciente e equilibrada. Quando aprendemos a observar nossos próprios pensamentos de forma mais crítica, ganhamos autonomia emocional, fortalecemos nossa resiliência e nos tornamos mais capazes de lidar com os desafios internos e externos.

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