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Escritos, artigos e catarses

Por Ana Luiza Faria

A relação entre pensamento crítico e saúde mental

A relação entre pensamento crítico e saúde mental é fundamental para entender como lidamos com nossas emoções e pensamentos. Ter um olhar crítico sobre o que sentimos e pensamos nos ajuda a questionar crenças que podem estar nos prejudicando, tornando mais fácil enfrentar desafios emocionais e desenvolver maior equilíbrio psicológico.


Pensar criticamente não significa apenas analisar tudo de forma racional ou ser cético. Trata-se de perceber se estamos reagindo de forma automática ou se realmente estamos refletindo sobre nossas experiências. Muitas vezes, nossas emoções e vivências passadas influenciam a maneira como enxergamos o mundo. Quando não temos essa consciência, podemos acabar presos a crenças negativas que aumentam a ansiedade, o pessimismo e a dificuldade de tomar decisões.


A saúde mental depende dessa capacidade de olhar para dentro e entender os padrões que guiam nossos pensamentos e emoções. Quando conseguimos diferenciar sentimentos passageiros de questões mais profundas, ganhamos mais clareza sobre nós mesmos. Se não desenvolvemos essa habilidade, corremos o risco de repetir os mesmos comportamentos e ficar presos em ciclos de sofrimento emocional.


Nossa capacidade de regular as emoções melhora quando conseguimos interpretar melhor o que sentimos. Se reagimos automaticamente às situações sem questioná-las, podemos nos tornar reféns de impulsos e emoções intensas, o que gera mais angústia. Além disso, se não questionamos nossas próprias crenças, podemos reforçar padrões pessimistas que impactam nossa estabilidade emocional.


O pensamento crítico também nos permite perceber a influência do meio em nossas percepções e decisões. Muitas vezes, adotamos opiniões e comportamentos sem perceber que são reflexos de influências externas. Quando essa percepção se torna mais clara, conseguimos filtrar informações e construir uma visão mais independente da realidade. Isso reduz a tendência de se deixar levar por discursos alarmistas, crenças limitantes ou padrões de pensamento automáticos que geram sofrimento.


Outro aspecto importante dessa relação está na capacidade de adaptação às mudanças. A rigidez mental, caracterizada pela dificuldade em aceitar novas perspectivas e rever crenças, pode gerar um impacto negativo na saúde emocional. Pessoas que não desenvolvem o pensamento crítico podem sentir-se presas a uma única forma de enxergar o mundo, o que leva à frustração quando a realidade não corresponde às suas expectativas. A flexibilidade cognitiva, fortalecida pelo pensamento crítico, nos ajuda a lidar melhor com incertezas e desafios da vida.


No contexto das dificuldades em tomar decisões, a falta de pensamento crítico pode nos fazer sentir paralisados. A insegurança de não saber se estamos escolhendo certo pode nos levar a um estado de hesitação constante, aumentando o sofrimento. Desenvolver um olhar mais atento sobre nossos critérios e influências nos ajuda a tomar decisões mais alinhadas com o que realmente queremos.


Além disso, a ausência de um pensamento crítico pode contribuir para a internalização de discursos autodestrutivos. Muitas pessoas adotam crenças negativas sobre si mesmas, como "não sou bom o suficiente" ou "nunca conseguirei mudar", sem questionar a origem desses pensamentos. Esse tipo de raciocínio automático pode reforçar estados emocionais negativos, dificultando o desenvolvimento de uma relação mais saudável consigo mesmo.


Por isso, a relação entre pensamento crítico e saúde mental está na capacidade de refletir antes de reagir, questionar crenças que nos limitam e entender melhor nossas emoções. Esse processo não significa ignorar o que sentimos, mas sim compreender de forma mais profunda para agir de maneira mais consciente e equilibrada. Quando aprendemos a observar nossos próprios pensamentos de forma mais crítica, ganhamos autonomia emocional, fortalecemos nossa resiliência e nos tornamos mais capazes de lidar com os desafios internos e externos.

Por Ana Luiza Faria

A Percepção como criação do mundo: filosofia Tolteca e fenomenologia

O que você percebe agora realmente existe, ou é fruto da forma como seu corpo se organiza no mundo? Ao olhar ao redor, vemos cores, formas, sons e movimentos. Sentimos o ar, a pele sendo tocada, e a diversidade de sons ao nosso redor. Mas o que realmente sabemos sobre o que está à nossa frente? Nossa percepção não é um reflexo direto do mundo, mas uma construção dinâmica, resultado da interação do corpo com o ambiente.


Tanto a filosofia Tolteca quanto a fenomenologia da percepção nos convidam a refletir sobre algo profundo: o que chamamos de realidade não é algo fixo e imutável, mas um campo dinâmico, constantemente moldado pela experiência vivida. Para os Toltecas, a percepção não é passiva, mas um ato de criação, influenciado pelas histórias internas que contamos e pelos símbolos que carregamos. Na fenomenologia de Merleau-Ponty, a percepção é vista como um elo entre o corpo e o mundo, onde cada movimento e cada olhar trazem consigo um significado que emerge dessa relação.


Se tudo o que percebemos passa pelo corpo, pela memória e pela história pessoal, onde o mundo termina e onde começamos nós? Os Toltecas falam sobre a “domesticação” da percepção a ideia de que, desde a infância, aprendemos a ver o mundo através de uma lente moldada pela cultura e pela linguagem. Um conceito semelhante pode ser encontrado na fenomenologia: a percepção nunca é simples ou objetiva, mas está sempre filtrada pelo corpo, pelo tempo e pela experiência.


A percepção não é um dado fixo, mas um processo que acontece. O que sentimos, interpretamos e damos significado não vem apenas dos sentidos, mas de um ser inteiro, que se relaciona com o mundo. Para os Toltecas, a consciência desse processo é o primeiro passo para a liberdade. Para Merleau-Ponty, compreender a percepção como enraizada no corpo é um convite a desafiar a visão mecanicista da experiência humana.


Se percebemos o mundo a partir de nossas lentes pessoais, será que alguma vez realmente vemos algo pela primeira vez? Quando olhamos para o céu, para um rosto familiar ou até mesmo para nossas próprias mãos, não há ali uma memória impregnada, um significado carregado por camadas invisíveis de experiência? Os Toltecas falam de um “sonho” construído por nós, através da linguagem e dos acordos com o mundo. Esse sonho é profundamente real, pois molda o que percebemos e o que deixamos de perceber. Na fenomenologia, encontramos algo semelhante: nossa percepção é sempre filtrada por nossa história e pelo nosso corpo, e nunca tocamos o mundo sem ser tocados, ao mesmo tempo, por ele.


E o que acontece quando queremos mudar nossa percepção? Se o que vemos é um reflexo do que aprendemos, será que podemos desaprender? Os Toltecas nos ensinam que o primeiro passo para transformar nossa existência é perceber as estruturas invisíveis que nos habitam. Não basta querer mudar a forma como vemos o mundo; é preciso reorganizar o corpo e a mente para olhar de forma diferente. Merleau-Ponty nos diz que a percepção não é apenas um ato intelectual, mas algo que envolve todo o corpo, e que a verdadeira transformação requer uma mudança sentida, e não apenas pensada.


O corpo não é apenas um receptáculo para a mente, mas o próprio lugar onde a realidade se forma. Ele está imerso no mundo e, simultaneamente, transforma o mundo ao seu redor. Para os Toltecas, essa relação não é apenas uma condição da experiência, mas uma ferramenta para a transformação. Se o que percebemos é moldado pelas nossas histórias internas, mudar a percepção é, de certa forma, mudar a nós mesmos. Mas como fazer isso? Como expandir a nossa capacidade de ver, sentir e entender?


Na tradição Tolteca, o processo de transformação envolve desfazer crenças limitantes, dissolver as narrativas que nos restringem e abrir espaço para uma percepção mais silenciosa e aberta. Na fenomenologia, isso significa retornar à experiência direta, sem os filtros da linguagem e dos conceitos. Quando permitimos que a percepção aconteça sem pressa para entender ou categorizar, uma nova forma de ver pode surgir. Não se trata de apagar o passado, mas de perceber que ele não define o futuro da nossa percepção.


E se, por um momento, olhássemos o mundo como se fosse pela primeira vez? Sem rótulos automáticos, sem pressa para compreender, apenas experimentando como o corpo encontra o espaço, como a luz nos toca, como o som nos atravessa? Talvez, nesse instante, percebêssemos que a realidade não é uma estrutura rígida, mas algo que se cria. E que a percepção não é uma cópia do mundo, mas uma forma de nos relacionarmos com ele de maneira renovada.


Por Ana Luiza Faria

A influência do inconsciente nas escolhas de vida

Quando pensamos em decisões importantes da vida como escolher uma carreira, um parceiro ou até mesmo o que comer no café da manhã tendemos a acreditar que estamos no controle total dessas escolhas. No entanto, muitos estudos na área da psicologia sugerem que grande parte das nossas decisões é influenciada por algo que nem sempre percebemos: o inconsciente. O conceito de inconsciente foi amplamente desenvolvido por Sigmund Freud no início do século XX. Para Freud, o inconsciente é uma parte da mente que armazena desejos, memórias e emoções que não estão disponíveis para a nossa consciência imediata. Esses conteúdos podem ser reprimidos porque são considerados inaceitáveis ou dolorosos, mas continuam a influenciar nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos de maneira indireta.


Esse entendimento foi posteriormente expandido por Jacques Lacan, que enfatizou o papel da linguagem e dos símbolos no funcionamento do inconsciente. Para Lacan, o inconsciente é estruturado como uma linguagem, e muitas de nossas escolhas são guiadas por significados que nem sempre compreendemos conscientemente. Embora essas teorias tenham surgido há décadas, elas continuam relevantes hoje, especialmente à luz de estudos recentes em neurociência e psicologia. Pesquisas confirmam que grande parte do nosso processamento mental ocorre abaixo do nível da consciência, influenciando desde nossas preferências diárias até interações sociais mais complexas. (Bargh & Chartrand, 1999).


Essa influência do inconsciente pode ser observada em situações cotidianas, como quando escolhemos determinada marca de café ou preferimos certos tipos de música. Muitas dessas escolhas aparentemente triviais são moldadas por hábitos enraizados ao longo do tempo, frequentemente originados em experiências passadas que foram internalizadas de forma inconsciente. Além disso, nossas preferências emocionais também desempenham um papel importante. Certos alimentos, cheiros ou sons podem evocar memórias ou emoções que não estão claras para nós, mas que guiam nossas decisões de maneira automática. Outro fator a considerar são os vieses cognitivos, que operam de forma inconsciente e nos levam, por exemplo, a confiar mais em pessoas que se parecem conosco, mesmo sem percebermos essa tendência.


Além dessas manifestações cotidianas, o inconsciente também desempenha um papel crucial em padrões de comportamento mais profundos, muitas vezes relacionados a traumas infantis. Uma das contribuições mais significativas de Freud foi a ideia de que traumas da infância podem deixar marcas profundas no inconsciente, influenciando comportamentos na vida adulta. Ele chamou isso de "repetição compulsiva" a tendência de reviver situações traumáticas ou problemáticas, mesmo quando isso nos causa sofrimento. Por exemplo, alguém que cresceu em um ambiente familiar instável pode inconscientemente buscar relacionamentos turbulentos na vida adulta, reproduzindo o padrão de instabilidade. Da mesma forma, uma pessoa que foi criticada excessivamente na infância pode desenvolver uma autoestima baixa e, sem perceber, sabotar suas próprias realizações para evitar críticas. Esses padrões repetitivos são frequentemente difíceis de identificar porque estão enraizados no inconsciente, mas trazê-los à tona pode ser o primeiro passo para transformá-los.


Outra forma de acessar o inconsciente é através dos sonhos, que Freud considerava "a via régia para o inconsciente". Ele acreditava que, enquanto dormimos, o inconsciente tem mais liberdade para expressar desejos e conflitos reprimidos. Embora nem todos os sonhos tenham significados profundos, alguns podem oferecer insights valiosos sobre questões emocionais não resolvidas. Lacan, por outro lado, enfatizava o papel dos símbolos nos sonhos, argumentando que eles são uma forma de linguagem que precisa ser interpretada. Por exemplo, sonhar repetidamente com quedas pode simbolizar medo de perder o controle em algum aspecto da vida. Explorar os sonhos pode ser uma ferramenta útil para acessar o inconsciente, especialmente em contextos terapêuticos, ajudando-nos a refletir sobre os temas e símbolos presentes neles e identificar áreas da vida que precisam de atenção.


Esses conflitos internos também podem se manifestar de maneira mais sutil, como autossabotagem, frustrando nossos esforços conscientes para alcançar objetivos. Isso acontece porque o inconsciente pode abrigar crenças limitantes ou conflitos internos que contradizem nossas intenções conscientes. Por exemplo, alguém que deseja emagrecer pode inconscientemente associar comida a conforto emocional, sabotando seus esforços para adotar hábitos saudáveis. Da mesma forma, um profissional que busca promoção no trabalho pode inconscientemente temer o aumento de responsabilidades, levando-o a procrastinar ou evitar oportunidades. Essa autossabotagem é frequentemente resultado de conflitos entre o que queremos conscientemente e o que o inconsciente "acha" que é melhor para nós. Trabalhar esses conflitos em terapia pode ajudar a alinhar nossas intenções conscientes com nossas motivações inconscientes, promovendo maior coerência em nossas escolhas.


O inconsciente, portanto, é uma força poderosa que molda nossas escolhas de maneiras sutis e complexas. Desde pequenas decisões diárias até padrões de comportamento mais amplos, ele influencia como vivemos nossas vidas sem que muitas vezes nos demos conta disso. Compreender seu funcionamento pode nos ajudar a tomar decisões mais conscientes e a superar obstáculos internos que nos impedem de alcançar nossos objetivos. Ao refletir sobre os exemplos apresentados neste artigo, você pode começar a identificar como o inconsciente impacta aspectos importantes da sua trajetória pessoal. Para quem deseja explorar essas questões em maior profundidade, a psicoterapia oferece um caminho valioso. Ela permite acessar camadas mais profundas da mente, revelando influências ocultas e ajudando a transformar padrões que já não contribuem para o bem-estar. Reconhecer essas dinâmicas internas é o primeiro passo para construir uma vida mais autêntica e alinhada com seus verdadeiros desejos e valores.


Referências:

Bandura, A. (2007). Autoeficácia: O Sentido de Eficácia Pessoal . Tradução de José Fernando Perez. Editora Pearson.


Bargh, J. A., & Chartrand, T. L. (1999). The unbearable automaticity of being. American Psychologist, 54 (7), 462–479.


Beck, A. T. (2015). Terapia Cognitiva: Teoria e Prática . Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Editora Artmed.


Freud, S. (2010). A Interpretação dos Sonhos . Tradução de Paulo César de Souza. Editora Companhia das Letras.


Freud, S. (2011). Além do Princípio do Prazer . Tradução de Paulo César de Souza. Editora Companhia das Letras.


Lacan, J. (2008). Escritos . Tradução de Vera Ribeiro. Editora Zahar.

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