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Escritos, artigos e catarses

Por Ana Luiza Faria

O impacto do consumo de notícias negativas "doomscrolling" na saúde mental

Vivemos em um mundo saturado de informações. A todo momento, notificações surgem nas telas, carregando manchetes que frequentemente destacam tragédias, crises sociais e incertezas globais. Esse cenário favorece o chamado doomscrolling, um comportamento compulsivo em que rolamos incessantemente as telas em busca de mais informações, quase sempre negativas. Embora possa parecer uma tentativa legítima de se manter informado, essa prática carrega consequências significativas para a saúde mental e física, muitas vezes despercebidas.


Ao consumirmos constantemente notícias negativas, o impacto não se restringe ao campo mental. Nosso corpo reage diretamente a esse conteúdo, entrando em um estado de alerta constante. A exposição repetida a informações alarmantes ativa o sistema de resposta ao estresse, desencadeando alterações como o aumento da frequência cardíaca, contrações musculares involuntárias e mudanças na respiração. Essas respostas não são meras reações automáticas; elas criam padrões emocionais e corporais que moldam nossa postura, percepção e interação com o mundo.


No doomscrolling, a busca incessante por novas informações aciona os circuitos de recompensa do cérebro. A cada nova atualização, mesmo que carregada de angústia, o cérebro libera pequenas doses de dopamina, criando um ciclo paradoxal: o desconforto gerado pelas notícias leva à busca por mais conteúdo, reforçando a sensação de ansiedade e a dependência da repetição. Com o tempo, essa dinâmica intensifica os níveis de estresse, potencializando impactos duradouros no bem-estar mental e físico.


O consumo constante de notícias negativas também pode ter implicações epigenéticas. Estudos indicam que o estresse crônico altera a expressão dos genes, aumentando a vulnerabilidade a inflamações, problemas imunológicos e envelhecimento precoce. Essas mudanças biológicas não são isoladas, mas se manifestam em aspectos da saúde que vão desde distúrbios de sono até transtornos de humor, como ansiedade e depressão.


Para além do impacto fisiológico, há também um efeito mais sutil e profundo: a maneira como percebemos e nos relacionamos com o mundo é diretamente influenciada pelo que consumimos. Notícias negativas não apenas informam, mas modelam nossa compreensão da realidade. Com o tempo, podem criar uma visão mais pessimista e limitada da vida, dificultando a capacidade de encontrar significado, esperança ou possibilidades de ação.


Reconhecer os efeitos do consumo de notícias negativas no corpo e na mente é um passo essencial para romper esse ciclo. Observar conscientemente como o corpo reage a cada notícia — se a respiração se altera, se há tensão nos ombros ou aperto no peito — pode revelar como estamos internalizando essas informações. Essa atenção não é apenas uma prática de cuidado, mas também uma forma de identificar e reorganizar padrões emocionais e físicos que perpetuam o estresse.


Práticas simples podem ajudar a mitigar os impactos desse consumo constante. Estabelecer limites claros para o acesso às notícias, como horários definidos para se informar, permite que o sistema nervoso encontre intervalos de descanso. Criar momentos de pausa, como respirar profundamente ou caminhar ao ar livre, ajuda o corpo a recuperar seu equilíbrio natural. Além disso, refletir sobre a qualidade e a intenção das informações consumidas — perguntando-se se elas realmente agregam algo significativo — pode auxiliar na construção de uma relação mais saudável com a informação.


Embora as soluções práticas ofereçam alívio, o desafio maior está em cultivar uma percepção mais ampla e consciente do impacto das notícias negativas na saúde mental e no bem-estar. Essa consciência é o ponto de partida para recuperar a capacidade de navegar pelo mundo de forma mais equilibrada, sem ser arrastado pelo fluxo incessante de informações.


O consumo de notícias é inevitável, mas a forma como nos relacionamos com elas é uma escolha. Ao adotar uma postura mais atenta e criteriosa, podemos transformar essa relação, protegendo nossa saúde mental e física enquanto buscamos um entendimento mais profundo e humano sobre o mundo ao nosso redor.


Tags: notícias negativas doomscrolling

Por Ana Luiza Faria

A importância de saber ouvir as próprias necessidades emocionais

No ritmo acelerado da vida contemporânea, a conexão com as próprias necessidades emocionais muitas vezes é relegada ao segundo plano. No entanto, entender e atender essas necessidades é um componente essencial para o bem-estar emocional e físico. Essa habilidade envolve mais do que introspecção; trata-se de reconhecer os sinais que corpo e mente oferecem, interpretá-los com atenção e responder de maneira alinhada ao que favorece o equilíbrio interno.


As emoções desempenham um papel vital no modo como percebemos e interagimos com o mundo. Elas não apenas moldam nossas reações, mas também influenciam a maneira como tomamos decisões, estabelecemos relacionamentos e cuidamos de nós mesmos. Saber ouvi-las é um processo que requer uma abordagem consciente e deliberada. A identificação das próprias necessidades emocionais, longe de ser algo inato, é construída ao longo do tempo, com base em experiências, contextos culturais e até mesmo fatores biológicos.


Um ponto central nesse entendimento é que as emoções não se limitam à esfera da mente. Elas têm manifestações físicas que podem ser observadas, como tensão muscular, alterações na respiração ou batimentos cardíacos acelerados. A ciência nos mostra que essas respostas são reguladas por mecanismos neurobiológicos, como o sistema nervoso autônomo, que conecta o corpo e a mente em uma relação simbiótica. Por meio dessa conexão, o corpo se torna um mediador essencial para compreender e regular estados emocionais.


Por outro lado, estudos em epigenética destacam como fatores emocionais podem influenciar a expressão genética ao longo do tempo. Experiências de stress crônico, por exemplo, podem impactar a maneira como os genes se expressam, influenciando a saúde física e mental. Isso reforça a importância de cultivar práticas que favoreçam a autorregulação emocional. Ouvir e atender às necessidades emocionais não é apenas um ato de cuidado individual; é também uma forma de promover resiliência em nível biológico.


Na prática, aprender a ouvir as próprias necessidades emocionais exige atenção aos sinais que o corpo emite no dia a dia. Isso pode incluir:


  • Identificar os gatilhos emocionais: Refletir sobre situações que despertam emoções intensas pode ajudar a compreender padrões de comportamento e reação.


  • Observar as respostas corporais: Ficar atento às manifestações físicas das emoções, como tensão ou cansaço, pode oferecer pistas valiosas sobre necessidades que estão sendo negligenciadas.


  • Refletir antes de agir: Reservar um momento para interpretar as emoções antes de reagir impulsivamente cria espaço para uma resposta mais alinhada às necessidades reais.


Mais do que nunca, entender e acolher nossas emoções se torna uma prática essencial para navegar os desafios de uma sociedade que frequentemente desvaloriza o aspecto subjetivo da experiência humana. Ouvir as próprias necessidades emocionais é uma forma de autocuidado que transcende o individual, abrindo caminho para relações mais saudáveis e para um viver mais integrado e consciente.


O processo de atender a essas demandas requer esforço, mas os benefícios se estendem para todos os aspectos da vida, fortalecendo não apenas a saúde mental, mas também as conexões sociais e o bem-estar físico. Afinal, é na escuta atenta e na resposta às nossas próprias emoções que encontramos o caminho para uma existência mais equilibrada.

Por Ana Luiza Faria

O corpo humano, é frequentemente ignorado como um agente ativo no reconhecimento de padrões emocionais, no entanto ele desempenha um papel central na maneira como processamos, compreendemos e reagimos às emoções. As emoções não são apenas uma experiência mental ou subjetiva, mas se manifestam profundamente nas reações corporais. Essa interligação entre o corpo e as emoções é um campo de estudo que tem se desenvolvido ao longo das últimas décadas, sendo reforçado por pesquisas científicas contemporâneas.


Quando sentimos raiva, tristeza ou felicidade, nossos corpos não permanecem passivos. Ao contrário, eles revelam, muitas vezes de forma involuntária, a intensidade e a natureza de nossas experiências emocionais. A tensão nos músculos, a aceleração do ritmo cardíaco ou a forma como o corpo se posiciona frente a uma situação podem ser pistas cruciais para reconhecer o que estamos sentindo. Esse reconhecimento, no entanto, vai além de um simples reflexo biológico. O corpo não apenas reage a estímulos emocionais, mas participa ativamente na construção do sentido das emoções.


Pesquisas científicas recentes indicam que o corpo e o cérebro trabalham juntos em um processo de feedback contínuo. Estudos de neurociência mostram que a percepção das emoções começa no corpo, muito antes de se tornar uma experiência consciente. Isso acontece por meio do sistema nervoso autônomo, que regula funções corporais involuntárias, como batimento cardíaco, respiração e pressão arterial. A interação entre o sistema nervoso e as reações físicas que percebemos – como o estômago embrulhado ou o peito apertado – proporciona uma "leitura" inicial das emoções.


Esse processamento emocional corporal não é apenas uma reação, mas também uma forma de auto interpretação e adaptação. Ao longo da vida, nossos corpos "aprendem" a reagir a diferentes emoções com base em experiências passadas, criando padrões de resposta que se tornam quase automáticos. Esse aprendizado corporal é um reflexo das interações que tivemos com o mundo e com outras pessoas, e a cada novo evento emocional, o corpo é chamado a reorganizar essas respostas, ajustando-se de maneira sutil, mas constante.


Dentro desse contexto, a percepção do corpo assume um papel crucial. Ela não é apenas uma função física, mas um processo dinâmico que se entrelaça com a nossa própria experiência emocional. O reconhecimento de padrões emocionais no corpo não ocorre em um espaço isolado, mas em uma relação contínua entre o corpo, a mente e o ambiente. Quando nos deparamos com situações emocionais complexas, o corpo se torna o primeiro lugar onde podemos identificar o que está em jogo. As sensações corporais oferecem uma base primária para o reconhecimento de sentimentos, permitindo-nos interpretá-los antes mesmo que a mente esteja totalmente consciente deles.


A relação entre corpo e emoção se torna ainda mais evidente quando analisamos como o corpo influencia a maneira como interpretamos os eventos emocionais. Cada reação corporal tem o poder de reforçar ou modificar a forma como experimentamos uma emoção. Por exemplo, um aumento no ritmo cardíaco pode tanto sinalizar medo quanto excitação, e a diferença entre essas duas emoções pode ser interpretada com base no contexto ou na história pessoal de cada um. A percepção dessas sensações corporais, portanto, não é apenas uma questão de reconhecer que algo está acontecendo, mas também de interpretar e dar significado a essas sensações, uma interpretação que está profundamente conectada à nossa vivência e aos nossos aprendizados emocionais passados.


O estudo das emoções, quando considerado sob a lente do corpo, também abre uma discussão importante sobre a plasticidade emocional. Nosso corpo não apenas reage, mas também se adapta às experiências emocionais, criando novos padrões de resposta à medida que somos expostos a novos estímulos. Isso é particularmente relevante quando pensamos na reestruturação emocional em processos terapêuticos. Ao tomar consciência dos padrões emocionais registrados no corpo, é possível iniciar um processo de reorganização dessas respostas, permitindo um novo aprendizado emocional que se reflete nas reações físicas.


Esse ponto de vista também desafia as tradicionais concepções de que o corpo e a mente operam como sistemas separados. Em vez disso, cada um depende do outro para uma compreensão plena e eficiente das emoções. O corpo não apenas serve como um reflexo de estados emocionais internos, mas também atua como uma base fundamental para o reconhecimento e o processamento das emoções. Com isso, podemos entender que reconhecer e trabalhar com os padrões emocionais no corpo não é apenas uma questão de identificar sensações físicas, mas de refletir sobre como essas sensações estão intimamente ligadas ao nosso bem-estar psicológico e à nossa adaptação emocional.


Assim, entender o papel do corpo no reconhecimento dos padrões emocionais é mais do que uma questão de fisiologia. Trata-se de uma rede complexa onde corpo e mente se comunicam, se influenciam e se reorganizam constantemente. À medida que avançamos na compreensão dessa interdependência, novas abordagens terapêuticas podem surgir, possibilitando um maior aprofundamento no reconhecimento e no tratamento das emoções por meio da percepção corporal. Esse campo continua a ser explorado e, à medida que novas descobertas são feitas, a compreensão de como o corpo processa e reconhece emoções se expande, oferecendo ferramentas mais eficazes para aqueles que buscam entender e transformar suas experiências emocionais.

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