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Escritos, artigos e catarses

Por Ana Luiza Faria

A ideia de felicidade para diferentes filósofos – colagem surrealista com mulher e flores secas
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

A felicidade sempre foi uma das maiores inquietações do pensamento humano. Desde a Antiguidade, filósofos têm buscado compreender o que significa ser feliz, se a felicidade é uma conquista interior, um estado passageiro ou uma construção ética e social. Essa busca atravessa os séculos, assumindo formas diversas conforme o tempo, a cultura e a concepção de homem e mundo. A felicidade, portanto, é uma ideia plural, espelhando os modos de viver e pensar de cada época.


Para Aristóteles, a felicidade ou eudaimonia era o fim último da existência humana, o bem supremo que orienta todas as ações. Em sua obra Ética a Nicômaco, ele afirma que todos os homens desejam ser felizes, mas que a verdadeira felicidade não se encontra no prazer ou na riqueza, e sim na prática da virtude. Viver de acordo com a razão e alcançar o equilíbrio entre os excessos é o caminho para a realização plena da natureza humana. Aristóteles via a felicidade como uma atividade da alma conforme a virtude, algo que se constrói no cotidiano, na relação com os outros e com o próprio caráter. Assim, ser feliz não é um estado de prazer constante, mas a harmonia entre o agir moral e a razão prática (phronesis).


Em contraponto, os estoicos, como Sêneca e Epicteto, acreditavam que a felicidade depende do domínio sobre si mesmo e da aceitação serena daquilo que não se pode controlar. A felicidade, nesse sentido, não está nas circunstâncias externas, mas na tranquilidade interior que nasce da sabedoria e da virtude. Sêneca, em suas Cartas a Lucílio, ensina que o sábio é aquele que se basta a si mesmo, que não é escravo das paixões nem se abala diante da adversidade. Para ele, a felicidade é liberdade interior um estado de espírito que floresce quando a alma está em paz consigo e com o destino. Essa visão ecoa profundamente no pensamento contemporâneo, onde o controle emocional e a serenidade se tornam antídotos contra o caos da vida moderna.


Já Epicuro, em sua Carta a Meneceu, propôs que a felicidade está no prazer, mas não no prazer desmedido e efêmero, e sim na ausência de dor e perturbação o ataraxia. Para ele, o prazer mais elevado é o da moderação, da amizade e da reflexão. Ao contrário da imagem vulgar de um hedonista, Epicuro defendia uma vida simples, guiada pelo equilíbrio e pela razão. O prazer, para ele, não era um convite ao excesso, mas ao contentamento: aprender a desejar menos é o segredo de uma alma tranquila. Assim, a felicidade é uma forma de liberdade interior, não a soma de experiências prazerosas.


Séculos depois, na modernidade, Immanuel Kant deslocou a discussão da felicidade para o campo da moralidade. Para ele, o ser humano não deve agir em busca da felicidade, mas por dever conforme o imperativo categórico. A moralidade, e não o prazer, é o verdadeiro norte da vida ética. Contudo, Kant reconhece que a felicidade é um desejo natural do homem, ainda que sua realização dependa de fatores fora de seu controle. O que importa, para ele, é agir corretamente, ainda que o resultado não traga prazer ou realização pessoal. A felicidade kantiana, portanto, é uma consequência indireta de uma vida ética, não seu objetivo direto.


Por outro lado, Friedrich Nietzsche subverteu as concepções tradicionais de felicidade ao afirmar que o homem deve criar seus próprios valores e afirmar a vida em toda a sua intensidade inclusive na dor. Em obras como Assim Falou Zaratustra, Nietzsche denuncia a busca pela felicidade como fuga do real, uma tentativa de negar a tragédia inerente à existência. Para ele, o homem forte é aquele que diz “sim” à vida, mesmo diante do sofrimento. A felicidade, nesse sentido, não é um repouso, mas uma expansão da força vital o gozo de afirmar o próprio destino, de viver sem ressentimento.


Na contemporaneidade, autores como Michel Foucault e Byung-Chul Han trazem novas leituras sobre o tema. Foucault, ao analisar as práticas de si na Antiguidade, mostra como a felicidade estava ligada ao cuidado de si e à estética da existência viver como uma obra de arte. Já Han, em A Sociedade do Cansaço, denuncia a busca moderna pela produtividade e desempenho como uma nova forma de infelicidade. Para ele, o homem contemporâneo vive exausto, prisioneiro de um ideal de felicidade baseado em performance e visibilidade. A felicidade, nesse contexto, perde sua dimensão ética e se transforma em mercadoria um produto a ser exibido, não vivido.


Ao percorrermos essas diferentes visões, percebemos que a felicidade nunca teve um único rosto. Para uns, é virtude; para outros, prazer; para outros ainda, resistência. Talvez, no fundo, o que une todos esses pensamentos seja a consciência de que a felicidade é inseparável da condição humana e que buscá-la é, também, buscar compreender a si mesmo. Viver filosoficamente é, portanto, um exercício de olhar para a vida com lucidez, sabendo que a felicidade pode não ser um destino, mas o próprio caminho que escolhemos trilhar com sentido e autenticidade.


Referências bibliográficas A ideia de felicidade para diferentes filósofos

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. São Paulo: Abril Cultural, 1973.


EPICURO. Carta a Meneceu. Tradução de José Cavalcante de Souza. São Paulo: Abril Cultural, 1973.


KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Tradução de Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 2007.


NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra. Tradução de Mário da Silva. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.


SÊNECA. Cartas a Lucílio. Tradução de Lúcio Cardoso. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.


FOUCAULT, Michel. A Hermenêutica do Sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2006.


HAN, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista delicada de uma mulher entre flores secas e linhas douradas representando tristeza e esperança
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Há dias em que a tristeza se acomoda dentro de nós como uma visita inesperada. Chega devagar, muda o ritmo do dia, e às vezes, insiste em ficar. É um sentimento comum, parte inevitável da experiência de viver. A tristeza aparece quando perdemos algo, quando algo nos fere, ou simplesmente quando o corpo e a mente pedem pausa. É um sinal de que algo precisa ser olhado com mais cuidado, não necessariamente curado porque nem tudo o que dói precisa ser apagado.


Mas há momentos em que o que antes era uma presença passageira se transforma em um peso contínuo, que retira o brilho das horas, que altera o sono, o apetite e até a percepção do tempo. Quando o cansaço emocional deixa de ser oscilante e passa a ocupar todos os espaços, o que antes era tristeza pode se transformar em um quadro mais complexo, que ultrapassa o campo das reações naturais às perdas e frustrações. A diferença entre esses estados não está apenas na intensidade, mas na permanência e na capacidade de interferir na vida cotidiana.


A tristeza, por mais desconfortável que seja, costuma manter uma forma de movimento. Mesmo quando o dia está nublado, há uma lembrança de que o sol existe. Já a depressão altera o olhar sobre o próprio futuro, distorce as cores do mundo e produz um vazio persistente, como se o corpo continuasse ali, mas sem força para desejar. É uma condição que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2023), afeta mais de 280 milhões de pessoas no mundo, e está relacionada a fatores biológicos, psicológicos e sociais que ultrapassam a simples presença de um sentimento.


Reconhecer essa diferença é essencial, não para medir quem sofre mais, mas para compreender que cada estado tem um papel. A tristeza é uma resposta natural à vida; ela ensina, reorganiza e, com o tempo, abre espaço para novos significados. A depressão, por outro lado, não ensina ela paralisa. É uma presença que não se dissolve com o tempo ou com o consolo. Requer cuidado especializado, escuta atenta e suporte adequado.


É importante não confundir o direito de sentir com a obrigação de suportar. Vivemos em uma cultura que tenta esconder o que é incômodo, transformando o sofrimento em algo a ser rapidamente consertado. Mas a tristeza não é um erro, nem um sinal de fraqueza. Ela é o que permite reconhecer o que importa. O perigo está em ignorar quando o sofrimento deixa de ser movimento e se torna prisão silenciosa.


Aprender a diferenciar a tristeza de um estado depressivo não é apenas um exercício de compreensão, mas também um gesto de cuidado. Saber nomear o que se sente é uma forma de encontrar sentido, de se permitir buscar ajuda quando necessário, e de acolher a si mesmo com a mesma delicadeza com que se acolheria um amigo que sofre.


Ambas importam porque sentir é o que nos conecta ao que somos, mas cuidar do sofrimento é o que permite continuar. A tristeza pode ser o solo fértil de uma transformação, mas a depressão é o chamado para não caminhar sozinho.


Referência Bibliográfica: Por que tristeza não é depressão, mas ambas importam

Organização Mundial da Saúde (OMS). Depression. Geneva: World Health Organization, 2023. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/depression

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista de uma mulher caminhando em piloto automático com flores e folhas secas em fundo de papel amassado
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Há momentos em que os dias parecem se repetir sem que percebamos. Acordamos, seguimos uma rotina, cumprimos tarefas, passamos pelas mesmas ruas, realizamos conversas habituais. Mas, quando olhamos para trás, muitas vezes não conseguimos lembrar com clareza de como ocupamos cada instante. Essa sensação de estar apenas reagindo aos acontecimentos, em vez de estar realmente presente, é um dos sinais de que podemos estar vivendo no chamado piloto automático.


Viver dessa forma não significa apenas manter hábitos. O automatismo se instala quando a repetição se transforma em ausência de atenção. É como se estivéssemos presentes fisicamente, mas a mente vagasse em outro lugar. Um exemplo comum acontece em trajetos conhecidos: dirigir ou caminhar por uma rua e, ao chegar ao destino, perceber que não se recorda dos detalhes do percurso. O corpo esteve ali, mas a experiência passou despercebida.


Esse mecanismo pode ser compreendido como uma economia de energia do cérebro. Pesquisas apontam que grande parte das nossas ações diárias é realizada de forma automática, justamente para poupar esforço cognitivo (Bargh & Chartrand, 1999). O problema não está em utilizar essa função ela é necessária. O risco surge quando a maior parte da vida se resume a esse estado, sem espaço para a consciência dos próprios sentimentos, escolhas e experiências.


Identificar esse modo de funcionamento exige certa pausa. Um indício é perceber quando as conversas se tornam superficiais, repetitivas, sem uma escuta real do outro. Outro sinal está na dificuldade de lembrar de pequenos detalhes do dia: o sabor do café, a expressão de alguém querido, o caminho do vento pela janela. A ausência dessas memórias pode mostrar que os instantes passaram sem que fossem vividos de fato.


Outro aspecto importante é notar a desconexão entre o que se faz e o que se sente. Há quem realize diversas atividades, mas com a sensação constante de vazio, como se nada tivesse real valor. Essa lacuna revela que, mesmo em movimento, não há uma presença genuína. A vida se torna uma sequência de compromissos que preenche o tempo, mas não necessariamente gera sentido.


Sair desse estado não acontece por meio de grandes transformações imediatas. Muitas vezes começa por pequenos gestos de atenção. Perceber a respiração por alguns segundos, observar as cores ao redor, prestar atenção nas palavras durante uma conversa. Esses instantes breves interrompem o fluxo automático e criam frestas de consciência.


Estar atento ao fato de que é possível viver em piloto automático já é um passo importante. Reconhecer esse funcionamento abre espaço para escolhas mais conscientes, em que a vida deixa de ser apenas uma repetição e ganha novamente textura, profundidade e presença.


Referência Bibliográfica Como identificar quando você está vivendo no piloto automático


BARGH, J. A.; CHARTRAND, T. L. The Unbearable Automaticity of Being. American Psychologist, v. 54, n. 7, p. 462–479, 1999.


Como identificar quando você está vivendo no piloto automático

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