top of page
Escritos, artigos e catarses

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista delicada de um homem vintage entre linhas douradas e pretas com flores e folhas secas, simbolizando como as expectativas afetam nossos relacionamentos
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Desde cedo aprendemos a projetar imagens sobre o que esperar dos outros. Criamos ideias sobre como alguém deve se comportar, falar, demonstrar afeto ou responder aos nossos gestos. Essas projeções silenciosas, muitas vezes invisíveis até para nós mesmos, tornam-se guias ocultos que direcionam a forma como nos aproximamos e convivemos.


As expectativas funcionam como molduras: delimitam o espaço onde o outro poderia se mover e, ao mesmo tempo, reduzem a possibilidade de percebermos aquilo que escapa do esperado. Quando a pessoa não corresponde ao que idealizamos, surge a frustração, um vazio que muitas vezes não está no que o outro fez ou deixou de fazer, mas no abismo entre o que criamos mentalmente e a realidade que se apresenta.


Essa distância pode se tornar fonte de conflito. Quantas vezes nos decepcionamos não porque houve uma falha objetiva, mas porque o gesto recebido não correspondeu à forma como imaginávamos que deveria ser? O silêncio de um amigo pode ser interpretado como indiferença, quando, na verdade, pode ser apenas um modo diferente de lidar com o próprio tempo. A ausência de uma palavra de carinho pode soar como desamor, quando pode simplesmente significar que o outro expressa cuidado de formas diversas.


As expectativas não são apenas individuais; elas também são alimentadas por modelos sociais, culturais e familiares. Esperamos de um parceiro que aja de determinada maneira porque aprendemos que essa seria a “forma correta” de demonstrar amor. Criamos imagens sobre o que um filho “deveria” realizar ou sobre como os pais “deveriam” se portar. Esse imaginário compartilhado é transmitido de geração em geração, e muitas vezes pesa sobre nós como se fosse natural, quando, na realidade, trata-se de construções.


Ao mesmo tempo, as expectativas têm um papel ambíguo: podem impulsionar vínculos ou sufocá-los. Quando equilibradas, ajudam a dar direção às relações, favorecendo acordos e compreensão mútua. No entanto, quando se tornam rígidas, transformam-se em exigências silenciosas que o outro não sabe que precisa cumprir. É nesse ponto que muitos vínculos se desgastam, pois ninguém consegue sustentar por muito tempo o peso de ocupar o lugar idealizado pelo outro.


Refletir sobre esse processo não significa abandonar toda e qualquer expectativa, mas reconhecê-las como parte do encontro com o outro. Ao perceber que elas existem, ganhamos a chance de transformá-las em algo menos rígido, abrindo espaço para acolher a singularidade de quem está diante de nós. É nesse espaço de abertura que os relacionamentos encontram maior liberdade para florescer.


Afinal, quando reduzimos a necessidade de que tudo corresponda ao que imaginamos, surge a possibilidade de nos surpreendermos. O inesperado, nesse contexto, não precisa ser ameaça, mas pode ser convite para descobrir modos diferentes de estar junto, mais próximos da realidade do que da projeção.


Como as expectativas afetam nossos relacionamentos

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista de um homem reflexivo com flores secas, linhas douradas e pretas sobre fundo de papel amassado
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Há um paradoxo curioso, desejamos profundamente alcançar algo seja reconhecimento, estabilidade, realização pessoal ou profissional e, quando a meta parece ao alcance das mãos, frequentemente criamos obstáculos invisíveis, recuos inesperados, formas sutis de autossabotagem. Por que, quando estamos próximos do sucesso, surge esse impulso quase contraditório de interromper o movimento que nós mesmos iniciamos?


A filosofia sempre se preocupou com a tensão entre desejo e medo. Kierkegaard, ao falar da “angústia da liberdade”, apontava que não é apenas o fracasso que nos ameaça, mas a própria possibilidade de realizar o que tanto desejamos. Estar diante daquilo que pode se concretizar nos coloca frente ao abismo da responsabilidade. Realizar é assumir que não há mais desculpas, que o peso da escolha recai sobre nós. O sucesso, portanto, carrega consigo um fardo: o de nos revelar sem máscaras.


Nietzsche, por sua vez, nos alerta para a resistência que temos ao crescimento. Em sua concepção, viver é um ato de superação constante, mas nem todos suportam o desafio de se tornarem quem são. A autossabotagem pode ser lida como um sintoma dessa dificuldade: quando nos aproximamos de um novo patamar de existência, preferimos o refúgio do conhecido, ainda que nos limite, a atravessar a dor transformadora da superação.


Freud, com sua teoria do inconsciente, também nos ajuda a compreender esse fenômeno. Muitas vezes, os desejos conscientes entram em conflito com pulsões inconscientes que buscam preservar uma identidade já consolidada. O sucesso ameaça desestabilizar a imagem que construímos de nós mesmos. Há quem precise fracassar para se manter em um lugar familiar, ainda que sofrido, pois o novo exige reorganizar tudo aquilo que acreditávamos ser.


Em termos existenciais, autossabotar-se é recusar o peso da autenticidade. Sartre lembrava que estamos condenados à liberdade, e isso significa que não há justificativa externa capaz de nos absolver de nossas escolhas. Estar perto do sucesso é estar perto de assumir que fomos, sim, responsáveis por ter chegado até ali. Mas assumir o êxito é também assumir que, dali em diante, não há desculpas possíveis: será preciso sustentar o que conquistamos.


O sucesso, nesse sentido, não é apenas uma conquista externa, mas uma revelação interna. Ele mostra que somos mais capazes do que imaginávamos, mas também nos obriga a lidar com a instabilidade que essa nova potência traz. Sabotar-se, paradoxalmente, é buscar refúgio na estabilidade do fracasso, que já conhecemos e, por isso, nos parece menos ameaçadora do que a imprevisibilidade do êxito.


Se nos sabotamos diante do sucesso é porque, no fundo, tememos o preço de nos tornarmos plenos. É mais fácil viver na promessa do que no cumprimento, no “quase” do que no “já é”. Filosoficamente, é nesse movimento que revelamos uma das faces mais complexas da liberdade humana: não somos apenas ameaçados pelo fracasso, mas também e talvez ainda mais pelo triunfo.


Por que nos sabotamos quando estamos próximos do sucesso

Por Ana Luiza Faria

Mulher contemplativa em colagem surrealista com flores, folhas secas e linhas douradas, simbolizando o que as estações do ano podem nos ensinar sobre os ciclos da vida
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

A vida, em sua essência, nunca é estática. Tudo nela pulsa, se transforma e retorna em novas formas, como se o tempo fosse um grande caminho entre o início e o fim, entre o brotar e o recolher. O movimento das estações nos lembra disso de maneira silenciosa. Ao observarmos o que acontece na natureza, podemos perceber que não há permanência absoluta: há fluxos, pausas e retomadas, que se repetem e nos convidam a refletir sobre nossa própria caminhada. O começo da primavera, que nos inspira a pensar sobre flores e renascimentos, traz consigo a memória de que só existe renascimento porque antes houve quietude, recolhimento e, em algum momento, também perdas. É esse entrelaçar de fases que nos faz perceber como a vida é cíclica e como cada etapa tem seu valor próprio.


Assim como a terra passa pelo despertar das flores, pelo amadurecimento dos frutos, pela queda das folhas e pela dormência do inverno, também nós atravessamos ciclos de expansão, colheita, desprendimento e silêncio interior. Há momentos em que nos sentimos plenos, em que projetos florescem e ideias ganham cor, como se fosse um tempo de brotar. Mas também enfrentamos épocas de deixar ir, de abrir espaço para o novo, ainda que isso signifique lidar com a ausência ou o vazio. Em seguida, vem a pausa, aquela fase em que a vida parece desacelerar, em que não há tantas novidades à vista, mas em que dentro de nós sementes invisíveis estão sendo gestadas. Por fim, o ciclo se reinicia: o que parecia perdido encontra outra forma de existir, o que parecia o fim se revela apenas um intervalo.


A beleza de compreender a vida como cíclica é que aprendemos a não lutar contra o tempo, mas a fluir com ele. Resistir ao movimento natural é como querer que uma árvore floresça em pleno inverno: é uma expectativa que gera frustração. Quando aceitamos que há épocas de florescer e épocas de recolher, compreendemos que nada é definitivo. Isso traz serenidade diante das perdas e humildade diante das conquistas, pois tudo está inserido em um mesmo fluxo maior. Os ciclos nos recordam de que a existência não é uma linha reta, mas um círculo contínuo em que cada fim prepara um começo e cada começo já contém em si a promessa de transformação.


Refletir sobre os ciclos nos ajuda também a olhar para a vida com mais paciência. Muitas vezes, desejamos resultados imediatos, esquecendo que a natureza não apressa seu próprio ritmo. Uma semente precisa de tempo para se tornar raiz, caule, folha e flor. Do mesmo modo, nossos processos internos pedem maturação. Há dores que só o tempo cura, há sonhos que só se concretizam depois de muitas tentativas, há aprendizados que só chegam após passarmos por fases de silêncio ou aparente esterilidade. Se não houvesse ciclos, a vida se tornaria repetitiva e sem graça. É justamente a alternância entre plenitude e vazio, movimento e pausa, que nos dá profundidade e sentido.


O ciclo da vida, assim como as estações, é também uma oportunidade de nos reconectar com a esperança. A certeza de que depois da noite sempre virá o dia, de que depois do frio sempre haverá calor, de que após a queda das folhas haverá novos brotos, sustenta nossa confiança diante das dificuldades. Nada permanece para sempre, nem mesmo a dor. Por isso, ao acolhermos cada etapa sem pressa, sem resistência, aprendemos a encontrar beleza até nos momentos mais difíceis. Há poesia em cada fase, mesmo quando não conseguimos percebê-la imediatamente.


Nesse sentido, o início da primavera é mais do que um marco de mudança do clima: é um convite simbólico a recordarmos que a vida sempre se renova. É a lembrança de que a transformação é inevitável, mas também é possibilidade. Cada estação nos ensina, sem precisar de palavras, que não estamos presos ao que já foi e que sempre haverá um espaço aberto para o que virá. E é exatamente esse movimento contínuo, esse fluxo natural, que dá à vida profundidade e graça.


O que as estações do ano podem nos ensinar sobre os ciclos da vida

Site criado e administrado por: Ana Luiza Faria | Ponto Psi
Since: ©2022

bottom of page