Além do “Bem” ou “Mal”: a complexidade do sentir
- Ana Luiza Faria
- há 5 dias
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Por Ana Luiza Faria

Há momentos em que o que se sente não cabe em uma palavra só. Não é apenas tristeza, nem exatamente alegria. Às vezes é cansaço misturado com alívio, culpa junto de desejo, medo atravessado por curiosidade. Essa mistura costuma causar confusão porque aprendemos, desde cedo, a classificar sentimentos como bons ou ruins, certos ou errados. Quando algo foge desse esquema, surge a impressão de que há algo errado conosco, quando na verdade o que existe é complexidade.
Sentimentos não surgem isolados. Eles são respostas a experiências, lembranças, expectativas e vínculos. Uma decisão importante, por exemplo, pode trazer entusiasmo e medo ao mesmo tempo. Uma perda pode gerar dor, mas também um tipo de descanso. Relações que fazem sentido podem provocar afeto e irritação lado a lado. Nada disso é sinal de falha. É sinal de que a experiência está sendo vivida em profundidade.
O problema começa quando tentamos eliminar uma parte do que sentimos para nos sentirmos mais “coerentes”. Ao rejeitar certos sentimentos, criamos um conflito interno que aumenta a angústia. Não é a mistura que machuca, mas a tentativa de forçar uma clareza que ainda não é possível. Sentir coisas opostas ao mesmo tempo não significa indecisão ou fragilidade; muitas vezes significa que algo importante está em jogo.
Para quem não consegue nomear o que sente, a confusão pode virar silêncio ou incômodo constante. Surge uma inquietação difícil de explicar, como se algo estivesse fora do lugar, mas sem saber exatamente o quê. Nesse ponto, compreender que sentimentos misturados fazem parte da experiência psíquica pode trazer alívio. Nem tudo precisa ser resolvido imediatamente ou transformado em decisão. Algumas vivências pedem tempo para se organizarem por dentro.
Em vez de perguntar “o que eu deveria sentir?”, talvez a pergunta mais honesta seja “o que está se encontrando aqui dentro agora?”. Essa mudança tira o foco do julgamento e abre espaço para a escuta. Quando sentimentos são reconhecidos, mesmo que ainda confusos, eles tendem a perder a força de pressão e ganham contorno. Aos poucos, o que parecia um emaranhado começa a se diferenciar.
Explorar o que se sente não é buscar respostas rápidas, mas permitir compreensão. Há experiências que só fazem sentido quando aceitamos que não são simples. Entre o “bem” e o “mal”, existe um território vasto, silencioso e legítimo, onde muitas pessoas vivem sem saber que não estão sozinhas. É nesse espaço que o sentir deixa de ser um problema a ser corrigido e passa a ser algo a ser compreendido.
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