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Litorais do corpo e o mapa psicossomático

  • Foto do escritor: Ana Luiza Faria
    Ana Luiza Faria
  • 8 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista sobre litorais do corpo e o mapa psicossomático com mulher, formas orgânicas, linhas douradas e flores secas

A relação entre mente e corpo se revela nos pequenos movimentos que fazemos sem perceber, nos apertos silenciosos que surgem antes mesmo de entendermos o que sentimos. A psicossomática nasce desse ponto de encontro: onde afetos ainda sem forma ganham expressão física e onde a pulsão busca passagem quando a palavra não alcança. O corpo registra antes que a consciência organize; responde antes que a razão compreenda. Cada tensão que se repete, cada dor que aparece em momentos específicos, cada alteração súbita de ritmo compõe um mapa que fala sobre histórias internas que ainda procuram desfecho. Escutá-lo não é apenas interpretar sinais, mas reconhecer que existe um território inteiro que pede tradução e cuidado.


Viver dentro do próprio corpo é conviver com uma linguagem contínua que antecede qualquer narrativa. A experiência se inscreve na musculatura, na respiração, na forma como lidamos com presença, ausência, contato e retirada. Corporeidade é essa tradução permanente, feita tanto de memórias quanto de expectativas. A pulsão, como força viva que atravessa cada expressão, molda direções e cria tensões quando sua circulação é interrompida. Não existe neutralidade nesse processo: tudo o que sentimos, evitamos, adiamos ou enfrentamos encontra uma forma de se manifestar. A psicossomática observa exatamente essa articulação silenciosa, buscando compreender como impulsos e afetos se convertem em sinais corporais persistentes.


Somatizar não é um erro ou fraqueza; é uma tentativa de autorregulação. Quando emoções ultrapassam o que conseguimos simbolizar, o corpo entra em ação, criando saídas próprias para equilibrar excessos e amortecer impactos. A doença deixa de ser vista como inimiga e passa a ser compreendida como mensagem. Nenhum sintoma surge isolado. Cada dor recorrente denuncia uma sobrecarga; cada desconforto aponta para algo que pediu atenção e não foi atendido; cada alteração funcional revela um conflito que se prolongou. Curar é reorganizar a circulação interna dessas forças, permitindo que a pulsão encontre vias mais adequadas para expressão, sem precisar retornar como tensão acumulada.


Mapear padrões corporais significa reconhecer o que se repete e identificar a lógica interna dessas repetições. O corpo não produz sinais aleatórios; ele responde de forma coerente ao que aprendeu ao longo da vida. Uma dor que aparece sempre que limites são ultrapassados, uma tensão que surge diante de exigências específicas, uma rigidez que se instala ao antecipar rejeição — tudo isso compõe um mapa emocional que se tornou físico. Observar esse território exige escuta, sinceridade e disponibilidade para notar nuances que antes passavam despercebidas. Ao decifrar esses trajetos, começamos a entender como antigas estratégias continuam ativas, mesmo quando já não fazem sentido no presente.


Intervir nesses padrões é criar novas possibilidades de existência. Não se trata de silenciar sintomas, mas de compreender o que os sustenta. O processo psicoterapêutico oferece espaço para elaborar afetos represados, dar nome ao que antes era apenas sensação e transformar tensões em movimento. Pequenas mudanças — no ritmo, no modo de respirar, nas escolhas corporais do dia a dia — reorganizam circuitos internos. Quando mente e corpo deixam de operar como se fossem territórios separados, surge um modo mais integrado de estar no mundo, no qual a pulsão deixa de ser ameaça e se torna força criativa. Esse novo arranjo não elimina o conflito, mas amplia a capacidade de lidar com ele sem que o corpo precise assumir sozinho o peso de expressá-lo.

Referências bibliográficas

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MARTY, Pierre. A psicossomática do adulto. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1990.

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REICH, Wilhelm. A função do orgasmo. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

WINNICOTT, Donald W. Natureza da experiência. Porto Alegre: Artes Médicas, 1988.


Litorais do corpo e o mapa psicossomático

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