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Nostalgia: Quando lembrar é escuta, não fuga.

  • 28 de mai.
  • 3 min de leitura

Por Ana Luiza Faria

Nostalgia: Quando lembrar é escuta, não fuga.
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Tem uma sensação muito particular em lembrar de algo bom que já passou. Uma mistura que é difícil de nomear, parte doçura, parte aperto. A nostalgia vive nesse lugar estranho entre o afeto e a saudade, entre o que foi e o que não volta. E, talvez por isso mesmo, valha a pena olhar para ela com mais atenção: o que estamos fazendo quando nos refugiamos no passado? Estamos fugindo de algo, ou estamos tentando nos encontrar?


A resposta, como quase tudo que diz respeito ao ser humano, raramente é simples.

Há momentos em que a nostalgia funciona como uma saída de emergência. Quando o presente está pesado demais, quando o futuro parece incerto ou ameaçador, o passado oferece algo que o agora não consegue: a sensação de que já estivemos bem. E o cérebro, que é muito mais sábio do que costumamos dar crédito, às vezes busca esse refúgio como forma de regulação. Lembrar de um tempo mais leve é, em certa medida, uma forma de se acalmar.


O problema começa quando esse refúgio vira endereço fixo. Quando passamos a viver mais no que foi do que no que é, idealizando o passado, comparando o presente com uma versão romantizada de outro tempo, usando a memória como argumento de que tudo era melhor e, portanto, qualquer movimento agora é inútil ou arriscado. Nesse modo, a nostalgia nos paralisa. Ela não nos conecta com o que vivemos: nos afasta dele.


E o corpo sente isso também. Existe uma qualidade física diferente entre lembrar com afeto e lembrar com apego. No primeiro caso, há algo que aquece. No segundo, há um peso, uma contração, como se a gente estivesse tentando segurar o que já escorreu pelos dedos. Não é só sentimento, é tensão, é postura, é uma forma de estar no mundo que se organiza em torno da perda.


Mas a nostalgia tem outro lado, e esse lado é poderoso quando sabemos usá-lo. Às vezes, aquilo que nos move no passado não é o passado em si, é o que ele revela sobre o que importa para nós. Quando sentimos saudade de uma época em que nos sentíamos mais livres, mais criativos, mais conectados, mais simples, o que essa saudade está dizendo sobre o presente? O que está faltando agora que tinha antes? O que, talvez, seja possível resgatar de uma forma diferente, adequada a quem somos hoje?


Usada assim, a nostalgia deixa de ser fuga e se torna bússola. Ela aponta na direção de algo que ainda tem valor, um jeito de se relacionar, um tipo de experiência, uma qualidade de presença. Não para voltar, porque isso não é possível, mas para trazer algo dessa lembrança para o agora. Para deixar que o passado informe o presente, em vez de substituí-lo.


Essa distinção exige uma certa honestidade consigo mesmo. Perguntar: estou lembrando porque preciso me aquecer, ou porque preciso me esquivar? Estou usando esse passado para entender o que quero, ou para evitar olhar para o que está acontecendo agora? Não há resposta errada, há, no máximo, uma resposta mais ou menos honesta.


A nostalgia, como quase toda emoção, não é boa nem má. É informação. E como toda informação, o que fazemos com ela é o que define se ela nos serve ou nos prende. A questão não é parar de lembrar, é aprender a escutar o que a memória está tentando nos dizer. Às vezes, o passado nos visita não para nos prender a ele, mas para nos lembrar de algo que ainda vale ser vivido.


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