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Quando o sofrimento vira identidade

  • Foto do escritor: Ana Luiza Faria
    Ana Luiza Faria
  • há 7 minutos
  • 3 min de leitura

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista com figura feminina integrada a formas orgânicas e flores secas, atravessada por linhas douradas e pretas, em fundo de papel amassado, sugerindo o sofrimento como eixo estruturante da identidade.
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Há uma crença difundida de que reconhecer o sofrimento, nomeá-lo e explicá-lo já constitui um passo decisivo em direção à mudança. Na prática clínica, essa equivalência raramente se sustenta. O sofrimento pode ser compreendido com precisão, narrado com consistência e ainda assim permanecer intocado no plano da experiência. Em alguns casos, quanto mais elaborado o discurso sobre a própria dor, mais sólida se torna a posição subjetiva que a organiza.


O que se observa com frequência não é apenas alguém que sofre, mas alguém que passa a existir a partir desse sofrimento. Ele deixa de ser um acontecimento e assume a função de eixo organizador. Histórias, relações e escolhas passam a gravitar em torno dessa referência estável. A dor oferece coerência, continuidade e até reconhecimento. Nesse arranjo, abrir mão do sofrimento não representa alívio imediato, mas perda de identidade. O custo psíquico da mudança se mostra maior do que o custo de permanecer.


A compreensão intelectual costuma ser confundida com transformação. Há sujeitos que dominam com rigor as origens do que vivem, descrevem dinâmicas familiares, reconhecem repetições e identificam conflitos. Nada disso garante deslocamento subjetivo. Saber por que algo ocorre não implica deixar de precisar que ocorra. O entendimento pode funcionar como um recurso de estabilização, não como força de ruptura. Ele organiza o relato, mas não altera a posição ocupada no enredo.


Nesse contexto, o sofrimento cumpre uma função defensiva clara. Ele protege contra o risco inerente à mudança, que envolve perda de referências, reconfiguração de vínculos e exposição ao desconhecido. Manter a dor preserva uma forma de pertencimento, ainda que precária, e evita o confronto com desejos que exigiriam escolhas mais delimitadas. A queixa constante pode operar como barreira contra a responsabilização, não no sentido moral, mas no sentido psíquico de assumir consequências.


Há um paradoxo clínico recorrente: quando o sofrimento começa a ceder, surge um aumento de angústia. A melhora, longe de ser tranquilizadora, desorganiza. Aquilo que parecia desejado revela-se ameaçador. A ausência da dor deixa um vazio que não é imediatamente habitável. O sujeito se vê sem o argumento que sustentava suas relações e sem o lugar que ocupava a partir dele. Nesses momentos, não é incomum observar uma intensificação dos sintomas ou a reconstrução de narrativas que reinstalem o sofrimento em nova forma.


Outra crença associada a esse tema é a ideia de que sofrer confere profundidade ou legitimidade à experiência. Na clínica, essa associação aparece como resistência silenciosa. A dor passa a funcionar como prova de seriedade, como se a renúncia a ela implicasse superficialidade ou negação. Essa lógica mantém o sujeito preso a um pacto implícito: sofrer para existir de modo reconhecível.


Nada disso se resolve pela via do esclarecimento adicional. O problema não está na falta de informação, mas no lugar que o sofrimento ocupa na economia psíquica. Quando ele se torna identidade, deixa de ser apenas algo a ser compreendido e passa a ser algo a ser preservado. A desmontagem desse arranjo não segue uma progressão linear nem oferece garantias de substituição imediata. O que se perde é claro; o que se forma, não. É nesse intervalo instável que a clínica frequentemente se detém, sem fechar sentido e sem oferecer abrigo fácil.




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