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Escritos, artigos e catarses

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista de homem contemplativo com flores secas e linhas douradas representando a Síndrome de Charles Bonnet: alucinações visuais em cegos
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

A síndrome de Charles Bonnet (SCB) é um fenômeno neuropsicológico intrigante, caracterizado pela presença de alucinações visuais complexas em indivíduos com perda parcial ou total da visão, mas que preservam funções cognitivas e insight sobre sua condição. Embora seja descrita desde o século XVIII, ainda hoje permanece cercada de estigmas e confusões clínicas, sendo muitas vezes interpretada como sinal de psicose, demência ou sofrimento psiquiátrico primário. No entanto, a SCB não está relacionada a um transtorno mental, mas sim a mecanismos neurobiológicos e perceptivos ligados à atividade cerebral em contexto de privação sensorial.

Do ponto de vista neuropsicológico, a síndrome pode ser compreendida como uma consequência da chamada teoria da liberação cortical. Quando há diminuição ou ausência de estímulos visuais provenientes da retina ou do nervo óptico, regiões corticais responsáveis pelo processamento visual especialmente no córtex occipital e áreas associativas permanecem metabolicamente ativas. A ausência de entrada sensorial adequada gera um processo de desinibição e hiperexcitabilidade neuronal, resultando em percepções autogeradas pelo próprio sistema nervoso. Nesse sentido, a SCB pode ser comparada a um “ruído interno” que se manifesta em forma de imagens, padrões geométricos, pessoas, animais ou cenários inteiros.

Estudos de neuroimagem corroboram essa hipótese ao demonstrarem aumento da atividade em áreas visuais primárias e secundárias durante os episódios alucinatórios, mesmo sem estímulo externo. Esse fenômeno se conecta à teoria da neuroplasticidade mal-adaptativa, que sugere que, diante da privação sensorial prolongada, o cérebro reorganiza suas redes de forma a preencher a lacuna perceptiva, ainda que isso resulte em experiências distorcidas ou irreais. A plasticidade, nesse caso, não se traduz em benefício funcional, mas em uma adaptação imperfeita que produz experiências vívidas, porém descontextualizadas.

Outro ponto relevante é a relação entre a SCB e a teoria da predição perceptiva. De acordo com esse modelo, o cérebro não apenas recebe estímulos, mas também antecipa padrões do mundo externo, preenchendo lacunas quando a informação é insuficiente. Em indivíduos com deficiência visual, o sistema de predição continua ativo, mas, sem feedback sensorial adequado, as previsões se transformam em alucinações. Assim, a SCB evidencia de maneira clara a natureza construtiva da percepção humana: não vemos apenas com os olhos, mas com o cérebro que interpreta, completa e recria o mundo.

Clinicamente, é fundamental diferenciar a SCB de quadros psicóticos, já que os pacientes mantêm consciência crítica sabem que as visões não são reais, ainda que sejam intensas e detalhadas. Essa preservação do insight é um dos elementos centrais para o diagnóstico diferencial. Além disso, compreender o fenômeno tem relevância terapêutica: ao reconhecer a origem neuropsicológica e não psiquiátrica, é possível reduzir o sofrimento emocional associado ao medo de “estar enlouquecendo”, comum entre os pacientes.

Do ponto de vista da reabilitação, intervenções que ampliam a estimulação sensorial residual, como técnicas de treino visual, iluminação adequada e apoio psicoterapêutico, podem contribuir para a diminuição da frequência das alucinações. Isso se alinha à concepção neuropsicológica de que a percepção é um processo dinâmico, modulado tanto por inputs externos quanto pela atividade intrínseca das redes cerebrais.

A síndrome de Charles Bonnet, portanto, revela aspectos fundamentais da neuropsicologia contemporânea: a plasticidade cerebral, os limites da percepção preditiva e a relação entre ausência de estímulo e hiperatividade cortical. Mais do que uma curiosidade clínica, trata-se de uma janela para compreender como o cérebro constrói a realidade e como essa construção pode persistir mesmo diante da ausência dos sentidos. Referências bibliográficas

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  • SCHULTZ, G.; MELZACK, R.; RANSOHOFF, J. The Charles Bonnet syndrome: “Phantom visual images.” Perception, v. 20, n. 6, p. 809–825, 1991. https://doi.org/10.1068/p200809


  • TEUNISSE, R. J.; CRUYSBERG, J. R.; VERBEEK, A.; ZITMAN, F. G. The Charles Bonnet Syndrome: A large prospective study in the Netherlands. British Journal of Psychiatry, v. 166, n. 2, p. 254–257, 1995. https://doi.org/10.1192/bjp.166.2.254


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  • BURKE, W. The neural basis of Charles Bonnet hallucinations: A hypothesis. Journal of Neurology, Neurosurgery & Psychiatry, v. 73, n. 5, p. 535–541, 2002. https://doi.org/10.1136/jnnp.73.5.535


  • COLLERTON, D.; PERRY, E.; MCKEITH, I. Why people see things that are not there: A novel Perception and Attention Deficit model for recurrent complex visual hallucinations. Behavioral and Brain Sciences, v. 28, n. 6, p. 737–757, 2005. https://doi.org/10.1017/S0140525X05000130


  • SCHADLU, A. P.; SCHADLU, R.; SHEPHERD, J. B. Charles Bonnet syndrome: A review. Current Opinion in Ophthalmology, v. 20, n. 3, p. 219–222, 2009. https://doi.org/10.1097/ICU.0b013e32832b86fa



Síndrome de Charles Bonnet: alucinações visuais em cegos

Por Ana Luiza Faria

Mulher contemplativa em colagem surrealista com flores e folhas secas, refletindo sobre as lições das diferentes fases da vida
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

A vida se apresenta como um fluxo contínuo, em que cada momento carrega em si uma experiência única. Não se trata apenas de marcar o tempo em anos, mas de perceber como a existência nos coloca diante de situações que nos convidam a olhar para nós mesmos de maneiras diferentes. Há aprendizados que surgem da espera, da frustração, da alegria intensa ou do silêncio que nos envolve.

O que muda ao longo da vida não é apenas o corpo ou o entorno, mas a nossa percepção do mundo. Experiências que antes nos pareciam pequenas podem se revelar fundamentais para compreendermos a complexidade de nossos sentimentos. E, da mesma forma, desafios que nos parecem insuportáveis podem, com o tempo, tornar-se fontes de compreensão e até de gratidão.

É interessante notar que a vida nos ensina por contraste. Sentir perda e perda de controle nos permite valorizar momentos de serenidade; experimentar frustração nos torna mais atentos às pequenas vitórias; conviver com a incerteza nos ajuda a perceber que a rigidez de expectativas pode ser um obstáculo para o crescimento. Esses aprendizados não estão atrelados a idades específicas, mas à maneira como nos relacionamos com o que acontece.

Refletir sobre a vida sob essa perspectiva ajuda a perceber que cada instante, cada fase, tem seu significado. Nenhum momento é isolado; todos estão interconectados, formando um tecido complexo de experiências que nos moldam. O que importa não é apenas atravessar o tempo, mas observar como cada experiência nos transforma e nos aproxima de um entendimento mais profundo sobre nós mesmos.

O convite, portanto, não é controlar ou acelerar a vida, mas perceber suas lições em cada gesto, em cada pausa, em cada emoção. Ao compreender que cada fase tem sua própria riqueza de aprendizado, podemos olhar para a trajetória pessoal com mais aceitação e curiosidade, reconhecendo que a vida é uma série de convites ao autoconhecimento e à reflexão.


Como diferentes fases da vida têm suas próprias lições

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista de formas orgânicas, linhas douradas e pretas, figura introspectiva com flores secas
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Há em nós uma região silenciosa, invisível aos olhos do cotidiano, mas que move cada gesto com a força de um enigma. Chamamos de inconsciente, como se nomear fosse suficiente para contê-lo. No entanto, quanto mais o tentamos definir, mais ele escapa, mais revela seus paradoxos. É nesse território onde o oculto se mistura com o evidente, onde o reprimido encontra maneiras criativas de emergir, que a existência se revela complexa.


O inconsciente carrega memórias que juramos ter esquecido. Ele não esquece. Um cheiro súbito pode trazer de volta uma cena inteira, com cores, sensações e até mesmo lágrimas que já pareciam dissolvidas no tempo. O paradoxo está aí: o que tentamos calar, retorna, não como repetição mecânica, mas como um fragmento que insiste em se inscrever na vida presente.


Também é no inconsciente que o desejo se esconde, mas nunca adormece. Muitas vezes acreditamos que sabemos o que queremos, quando na verdade seguimos guiados por forças que não passam pelo crivo da razão. O desejo inconsciente não é linear, não é lógico e é justamente essa desordem que nos mantém em movimento. Ele nos leva a escolhas inesperadas, a quedas inexplicáveis, a paixões improváveis. A racionalidade, sozinha, não dá conta de explicar por que certos caminhos nos atraem mais que outros.


Outro paradoxo: o inconsciente revela a verdade disfarçada em mentira, e a mentira embutida em uma aparente verdade. O sonho, por exemplo, inventa narrativas absurdas que, no entanto, dizem mais sobre nós do que gostaríamos de admitir. O lapso, o ato falho, a palavra atravessada são pequenas brechas por onde ele se anuncia. Tentamos manter o controle, mas ele se infiltra nas fissuras da linguagem, lembrando-nos de que somos mais vastos do que aquilo que conseguimos enunciar.


Viver, então, é lidar com essa zona de sombra que insiste em nos habitar. Não se trata de eliminá-la, mas de escutá-la. Os paradoxos do inconsciente nos lembram que não somos donos absolutos de nós mesmos, e talvez seja justamente nesse descontrole que se encontre a possibilidade de criação, de liberdade e de reinvenção.


O inconsciente nos desconcerta, mas também nos oferece profundidade. Nos coloca diante de uma pergunta essencial: será que precisamos mesmo compreender tudo para viver plenamente? Ou talvez a vida se sustente nesse equilíbrio instável, onde razão e mistério se entrelaçam sem jamais se dissolver por completo.

O inconsciente e seus paradoxos

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