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Escritos, artigos e catarses

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista com figura humana vintage cercada por flores secas, linhas douradas e pretas, simbolizando o ato de viver e colecionar versões de si
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Envelhecer não acontece de repente, como um clarão que muda tudo de uma só vez. É antes um processo quase invisível, feito de detalhes sutis que se acumulam até se tornarem inegáveis. Um fio de cabelo que insiste em ficar prateado, uma cicatriz que nunca some, o silêncio que começa a se tornar mais confortável do que certas conversas.


Há quem veja nisso uma perda, como se a juventude fosse a única fase legítima da vida. Mas talvez envelhecer seja justamente o contrário: ganhar camadas. Como uma árvore que carrega em seus anéis o registro das chuvas, das secas, dos ventos que a atravessaram, nós também nos tornamos mais densos com o tempo.


O corpo muda, é verdade, e às vezes nos cobra a conta dos excessos ou descuidos. Mas a mente aprende a olhar com outra lente. Certas urgências desaparecem, como quem finalmente entende que não é preciso correr para todos os lugares ao mesmo tempo. Envelhecer é perceber que nem toda batalha precisa ser travada, nem toda palavra precisa ser dita, nem todo olhar precisa de resposta.


Não se trata de resignação, mas de lucidez. Descobre-se que amadurecer é também escolher com mais clareza o que se come, com quem se gasta energia, quais lembranças se decide cultivar. E nesse exercício, a vida, que parecia tão extensa, se mostra breve e ao mesmo tempo infinita em possibilidades.


Talvez o significado de envelhecer não esteja em contar quantos anos já se passaram, mas em perceber quantas versões de nós mesmos já fomos capazes de abrigar. O tempo não rouba, ele nos multiplica. O que chamamos de envelhecer pode ser apenas o ato de colecionar vidas dentro da mesma vida. Viver é colecionar versões de si



Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista de uma mulher de perfil. Metade do corpo é formada por flores secas e folhas, a outra metade é fumaça translúcida. Elementos flutuantes ao redor simbolizam memórias e decisões não tomadas. Linhas finas pretas e douradas conectam os elementos, sobre fundo de papel levemente amassado.
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Há momentos na vida em que nos pegamos repetindo mentalmente uma cena do passado. Uma palavra que não dissemos, uma escolha que não fizemos, um gesto que não tivemos coragem de dar. Esses instantes se tornam registros insistentes, quase como cicatrizes invisíveis, que chamamos de arrependimento. Embora possam doer, não precisam ser apenas peso: podem se transformar em fonte de aprendizado e amadurecimento.


Essa sensação de ter falhado ou de ter deixado algo passar, em sua essência, mostra que algo em nós mudou. Se antes acreditávamos que determinada decisão era a melhor, o desconforto posterior revela que crescemos, que nossa visão de mundo se ampliou. Esse reconhecimento é um sinal de evolução: só percebe essa transformação quem já não é mais a mesma pessoa que agiu no passado. Nesse sentido, a experiência nos lembra que somos seres em constante movimento.


Mas como fazer com que esse sentimento não nos aprisione? O primeiro passo é acolher o que sentimos sem julgamento excessivo. Em vez de nos culparmos, é possível perguntar: “O que posso aprender com isso agora?”. Essa mudança de perspectiva nos tira da posição de vítimas do passado e nos coloca no papel de autores da própria história. Assim, o que antes pesava se converte em sabedoria prática.


Outra forma de ressignificar é perceber que errar é inevitável em qualquer processo de crescimento. Ninguém amadurece sem tropeçar. Quando entendemos que cada escolha carrega riscos e que não existe vida sem falhas, nos tornamos mais compassivos conosco. Essa compaixão abre espaço para que possamos olhar para trás com gentileza e para frente com coragem renovada.


Essas experiências também nos ensinam a valorizar a responsabilidade pelas próprias decisões. Elas apontam para aquilo que, de alguma forma, deixamos de viver. Ao reconhecermos isso, ganhamos clareza para agir de forma mais consciente no presente. A lembrança do que não foi feito pode se transformar em impulso para não deixar passar novas oportunidades, para falar aquilo que antes calamos, para viver com mais autenticidade.


Dar um novo sentido ao vivido não significa esquecer o que aconteceu, mas permitir que ele nos oriente. Em vez de carregar a marca da falta, podemos usá-la como bússola. Cada episódio do passado pode se tornar um lembrete silencioso: “da próxima vez, escolha de outro jeito”. É nesse movimento que o ontem deixa de ser prisão e se torna fonte de liberdade.


A vida não é feita apenas de acertos. Os equívocos, por mais desconfortáveis que sejam, são parte do caminho que nos forma. Quando conseguimos olhar para eles com respeito, transformamos o que parecia ser apenas um fardo em algo que nos fortalece. Afinal, a sabedoria não nasce apenas do que fizemos bem, mas também do que aprendemos a fazer diferente.


Assim, o convite é claro: não negue os arrependimentos ou os momentos de falha ou de hesitação, mas também não permita que definam quem você é. Reconheça-os, acolha-os e pergunte-se o que cada um tem a lhe ensinar. Dessa forma, a vida deixa de ser uma coleção de erros e passa a ser uma jornada de aprendizado contínuo, onde até mesmo as experiências difíceis guardam a delicadeza de nos mostrar quem ainda podemos nos tornar.

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista em fundo de papel levemente amassado, com navio vintage e figura de Teseu integrados, linhas douradas náuticas, flores secas e formas orgânicas sutis, simbolizando identidade e transformação.
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização."

Imagine um navio que, ao longo dos anos, tem cada uma de suas peças substituídas: a madeira gasta, os mastros quebrados, as velas rasgadas. Depois de décadas, nenhuma parte original permanece. Surge então a pergunta: aquele navio ainda é o mesmo? Essa é a famosa parábola conhecida como “O navio de Teseu”, que atravessa séculos como um convite a pensar sobre o que é identidade diante da inevitável transformação.


Essa questão não é apenas filosófica, mas também profundamente humana. Afinal, quantos de nós já nos perguntamos, em silêncio, se somos os mesmos de anos atrás? Mudamos de ideias, de corpo, de relações, de papéis sociais. As experiências, os afetos e até mesmo o tempo deixam marcas. No entanto, ainda assim, insistimos em nos reconhecer como uma continuidade de quem fomos.


A metáfora do navio de Teseu nos leva a refletir sobre dois pontos centrais: o que faz de algo ou alguém o que é, e como as mudanças moldam essa permanência. Se cada peça que compõe a embarcação é trocada, sua identidade está no conjunto das partes ou na história que ela carrega? Da mesma forma, será que somos definidos pela soma de nossas células, pelas lembranças que guardamos ou pela narrativa que construímos sobre nós mesmos?


A ciência nos mostra que, biologicamente, não somos os mesmos. Nossas células se renovam constantemente, nosso corpo é quase outro a cada década. A psicologia aponta que nossa mente também se reorganiza: memórias se transformam, crenças se revisam, desejos se reinventam. E, no entanto, sentimos uma linha invisível que nos une à criança que fomos um dia, ao adolescente cheio de descobertas, à pessoa que ontem ainda se perguntava quem queria ser.


Talvez a identidade não esteja na fixidez, mas justamente na capacidade de integrar mudanças. Somos como um rio, que nunca é feito da mesma água, mas mantém o leito que o orienta. A continuidade pode estar na narrativa: carregamos as histórias vividas, mesmo que elas mudem de sentido ao longo do tempo. Essa é a nossa maneira de manter coeso aquilo que é, em essência, instável.


Ao olhar para o navio de Teseu, podemos enxergar um espelho de nossas próprias jornadas. A cada mudança, por mais sutil ou profunda, algo de nós se transforma. O que permanece é o fio que nos permite dizer: “eu sou eu”, ainda que esse “eu” nunca seja exatamente o mesmo. O paradoxo está em aceitar que identidade e mudança não se excluem elas se sustentam mutuamente.


Isso nos convida a uma reflexão terapêutica e existencial: ao invés de buscar uma versão definitiva de nós mesmos, talvez seja mais sábio abraçar a fluidez. Reconhecer que mudar não é perder a essência, mas expressá-la de formas diferentes ao longo do tempo. Assim, não precisamos temer a passagem das fases, dos ciclos, dos vínculos. Podemos compreender que somos continuação e reinvenção ao mesmo tempo.


O navio de Teseu, ao final, nos ensina que não há resposta única. O que existe é o convite para observar como lidamos com o tempo, com as trocas e com a ideia de permanência. Se o navio ainda pode navegar, talvez seja essa a sua verdade. Se ainda podemos seguir, apesar das mudanças que nos atravessam, talvez seja essa a nossa.


A pergunta, mais do que uma dúvida filosófica, é uma abertura: como cada um de nós escolhe narrar a própria história diante da impermanência?

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