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Escritos, artigos e catarses

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista analógica com fundo de papel levemente amassado, formas orgânicas abstratas e recortes vintage. Figura feminina integrada ao centro, com linhas finas douradas e pretas conectando elementos, flores e folhas secas, evocando memória corporal, impulso e reação automática antes do pensamento racional.
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Muitas vezes, temos a sensação de que nossas escolhas nascem exclusivamente de um pensamento lógico, como se a mente fosse um tribunal isolado do resto do mundo, decidindo o que é melhor com base apenas em fatos. No entanto, quem nunca sentiu um aperto no peito antes de dar uma resposta ríspida, ou uma inquietação nas mãos que pareceu conduzir a uma compra desnecessária? Existe um diálogo silencioso e constante entre as nossas entranhas e as nossas ações, e entender essa conversa é o primeiro passo para compreender por que, em tantos momentos, agimos de forma imediata, sem passar pelo filtro da razão. O corpo não é apenas o veículo que executa nossas ordens; ele é, na verdade, o conselheiro mais rápido que possuímos, reagindo a estímulos muito antes de a consciência conseguir formular uma frase.


Quando nos deparamos com uma situação de estresse ou um desejo súbito, ocorre uma cascata de eventos físicos que moldam a nossa percepção. O coração acelera, a respiração se torna superficial e os músculos se retesam. Essas sensações não são apenas sintomas de uma emoção; elas são a própria base da impulsividade. Em um estado de agitação física, o campo de visão da nossa mente se estreita. O foco passa a ser o alívio imediato daquele desconforto ou a busca urgente por uma gratificação que acalme a tempestade interna. É como se o sistema nervoso tomasse as rédeas, priorizando a sobrevivência emocional em detrimento do planejamento a longo prazo. Para muitas pessoas, a impulsividade é sentida como um "vazio" que precisa ser preenchido ou uma "pressão" que precisa ser liberada, e essa linguagem física é tão poderosa que silencia qualquer argumento lógico que tente nos convencer a esperar.


Ao longo da vida, acumulamos uma espécie de biblioteca de sensações. O corpo guarda registros de situações passadas e, diante de algo novo, ele consulta esse arquivo em milésimos de segundo. Se uma situação gera uma memória de desconforto, a reação impulsiva de afastamento ou defesa surge como um reflexo automático. Da mesma forma, a busca por prazer imediato muitas vezes é uma tentativa biológica de equilibrar um estado de esgotamento ou tristeza que se manifesta como um peso nos ombros ou uma fadiga persistente. Reconhecer que o ímpeto de agir sem pensar tem raízes em como estamos nos sentindo fisicamente permite olhar para as nossas falhas com menos julgamento e mais curiosidade. Não se trata de falta de vontade, mas de uma resposta a um estado interno que clama por atenção.


Aprender a ler esses sinais é um exercício de paciência e observação. Perceber a temperatura da pele mudar ou o estômago dar um nó diante de uma provocação pode ser o intervalo necessário entre o sentir e o reagir. Quando começamos a identificar que a pressa para decidir é, na verdade, uma manifestação de uma ansiedade que mora nos tecidos e nos órgãos, ganhamos a oportunidade de respirar e devolver ao pensamento o seu lugar de direito. Compreender esse fenômeno é entender que a mente e a carne são uma unidade indissociável. Ao acolher o que o físico diz, sem necessariamente obedecer aos seus primeiros comandos, passamos a navegar pela vida com uma consciência mais integrada, transformando o que era um impulso cego em uma escolha mais serena e conectada com quem realmente somos.




papel do corpo nas decisões impulsivas

Por Ana Luiza Faria

Colagem editorial surrealista em estilo vintage mostrando o perfil de uma mulher com o torso substituído por uma ilustração estilizada de pulmões rosados, sobre fundo de papel levemente amassado. Formas orgânicas em tons neutros, linhas finas pretas e douradas onduladas e flores secas compõem a imagem, sugerindo o ritmo da respiração e estados internos relacionados à ansiedade.
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Quando a ansiedade se aproxima, muitas vezes algo muda no corpo antes que seja possível compreender o que está acontecendo. A respiração, que costuma seguir silenciosa, começa a se alterar sem aviso. Fica mais curta, acelerada ou irregular, como se o ar não alcançasse o fundo do peito. Surge um desconforto difícil de nomear, um aperto, uma sensação de urgência ou de que algo está fora do lugar, mesmo sem um motivo claro.


Essas mudanças costumam aparecer em períodos de preocupação constante, excesso de pensamentos, pressões internas ou situações vividas como ameaçadoras. Mesmo sem um perigo concreto, o corpo reage como se precisasse se preparar para enfrentar algo difícil. A respiração acompanha esse estado de alerta e se torna mais superficial, concentrada na parte alta do peito. Em muitos casos, isso acontece de forma automática, sem que se perceba conscientemente essa mudança no ritmo respiratório.


Com o tempo, esse padrão pode se tornar habitual. Respira-se de forma curta e tensa, como se esse fosse o modo natural de funcionar. O corpo se adapta e a alteração deixa de chamar atenção. É nesse ponto que começam a surgir sinais mais claros: tontura leve, sensação de cabeça vazia, formigamento, aperto no peito, cansaço constante ou dificuldade para relaxar mesmo em momentos de pausa. Esses sinais não aparecem isolados, mas como parte de um estado de tensão que se prolonga no dia a dia.


Nem sempre a ansiedade se manifesta como nervosismo evidente. Muitas vezes ela se apresenta de forma silenciosa, como irritação frequente, dificuldade para descansar, sensação de estar sempre atento ou uma inquietação que não se dissipa. A respiração acompanha esse funcionamento, permanecendo presa, contida, como se o corpo estivesse sempre em prontidão. Por ser um comportamento automático, a mudança respiratória costuma passar despercebida, e o reconhecimento desse estado acontece mais pelas consequências do que pela respiração em si.


Alguns sinais ajudam a perceber esse padrão: a dificuldade de encher completamente os pulmões, a sensação de suspirar com frequência, o hábito de prender o ar sem perceber ou a impressão de que o corpo nunca está totalmente relaxado. Pequenos momentos de pausa, em que se observa como o corpo está respirando em situações comuns do dia, podem trazer mais clareza sobre esse funcionamento. Não como um exercício técnico, mas como uma forma de escuta do próprio ritmo interno.


Quando esse estado de alerta se mantém por longos períodos, interfere no sono, no bem-estar e na relação com o próprio corpo. Nesses casos, buscar ajuda não significa que algo esteja fora de controle, mas que existe uma sobrecarga que precisa ser compreendida com cuidado. A escuta profissional oferece um espaço para entender como esse padrão se formou e por que o corpo passou a reagir dessa maneira. Reconhecer esses sinais é um passo importante para que a respiração deixe de ser apenas um sintoma estranho e passe a ser entendida como uma resposta a experiências que pedem atenção e acolhimento.

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista editorial com figuras humanas vintage e elementos botânicos secos, representando visualmente a diferença entre estresse normal e estresse crônico, em composição equilibrada, tons neutros e atmosfera acolhedora.
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

O estresse costuma ser entendido como algo negativo, mas essa visão simplificada não ajuda a compreender sua função nem seus impactos reais. O estresse normal faz parte da vida e surge como uma resposta do organismo diante de situações que exigem adaptação, atenção ou ação. Ele aparece em momentos de mudança, decisões importantes, prazos, imprevistos ou desafios cotidianos. Nesses contextos, o corpo mobiliza energia, aumenta o foco e prepara a mente para lidar com a demanda apresentada. Após a resolução da situação, tende a ocorrer uma recuperação gradual, com retorno ao equilíbrio físico e emocional.


Esse tipo de estresse é geralmente pontual e proporcional ao evento que o desencadeia. Ele tem começo, meio e fim, mesmo que cause cansaço ou desconforto temporário. A sensação de alívio depois que a situação passa é um sinal de que o sistema conseguiu se reorganizar. O problema não está na ativação do estresse em si, mas na permanência desse estado ao longo do tempo.


O estresse crônico se instala quando as pressões deixam de ser episódicas e passam a compor o cenário diário, sem intervalos suficientes para descanso e recuperação. Nessa condição, o organismo permanece em alerta constante, como se estivesse sempre diante de uma ameaça, mesmo quando ela não é imediata ou claramente identificável. Pequenas demandas passam a ser percebidas como excessivas, e a sensação de sobrecarga se torna frequente.


Com o tempo, esse estado prolongado afeta o corpo e a mente de forma mais profunda. Alterações no sono, na concentração, na memória e no humor podem surgir de maneira gradual, muitas vezes sendo interpretadas apenas como “cansaço” ou “fase difícil”. O estresse crônico não costuma chamar atenção de forma abrupta; ele se infiltra na rotina, reduzindo a capacidade de sentir prazer, de relaxar e de se envolver com atividades que antes eram significativas.


Uma diferença importante entre o estresse normal e o estresse crônico está na relação com o tempo e com a percepção de controle. No estresse normal, há a expectativa de que a situação se resolva ou mude. No estresse crônico, prevalece a sensação de continuidade, como se não houvesse uma pausa possível. Isso gera desgaste emocional e físico, além de uma adaptação forçada a um estado de tensão constante.


Compreender essa diferença é fundamental para não normalizar o sofrimento prolongado nem tratar o esgotamento como algo inevitável. Reconhecer os sinais do estresse crônico não significa fragilidade, mas consciência de que o corpo e a mente têm limites. A informação, nesse contexto, amplia a capacidade de perceber quando o estresse deixa de ser um mecanismo de adaptação e passa a se tornar um fator de adoecimento silencioso.

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