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Escritos, artigos e catarses

Por Ana Luiza Faria

traumas intergeracionais

Os traumas intergeracionais são fenômenos que afetam famílias, comunidades e até sociedades inteiras. Eles dizem respeito à transmissão de experiências traumáticas de uma geração para outra, influenciando comportamentos, emoções e padrões de vida, mesmo que os descendentes não tenham vivenciado diretamente os eventos traumáticos. Mas como isso ocorre? Quais são os mecanismos que perpetuam esses traumas, e como eles moldam o comportamento de gerações futuras? Vamos explorar esse tema, abordando tanto suas bases científicas quanto suas consequências práticas.


Traumas intergeracionais, também chamados de traumas transgeracionais, referem-se ao impacto psicológico que eventos traumáticos vividos por uma geração podem ter nas gerações subsequentes. Um exemplo marcante disso são os descendentes de sobreviventes do Holocausto, que muitas vezes exibem sintomas de ansiedade, medo e comportamentos de sobrevivência que se assemelham ao sofrimento de seus antecessores, mesmo sem terem vivido diretamente os horrores do genocídio. O trauma não precisa estar restrito a grandes catástrofes históricas. Ele pode surgir em nível familiar, como em casos de abuso, violência doméstica ou perda de membros queridos, que acabam moldando a maneira como os descendentes percebem o mundo, lidam com relacionamentos e enfrentam adversidades.


A transmissão intergeracional de traumas pode ocorrer por várias vias, que incluem fatores psicológicos, sociais e biológicos. Uma dessas vias é a epigenética, um campo que estuda como fatores ambientais, incluindo o estresse e o trauma, podem alterar a expressão genética sem modificar a sequência de DNA. Essas alterações podem ser transmitidas para os descendentes, predispondo-os a problemas emocionais e comportamentais. Por exemplo, estudos com ratos demonstraram que mães que sofreram altos níveis de estresse durante a gestação produziram filhotes mais propensos à ansiedade e comportamentos defensivos. Isso sugere que o ambiente traumático pode deixar "marcas" em certos genes que são herdados pelas próximas gerações. Em humanos, pesquisas sobre sobreviventes de guerras e traumas graves mostram padrões semelhantes: filhos de pessoas que passaram por eventos estressantes significativos frequentemente demonstram maior sensibilidade ao estresse e dificuldades emocionais.


Além disso, há a transmissão através do comportamento familiar. Crianças que crescem em lares onde o trauma não é discutido abertamente, mas se manifesta em comportamentos ansiosos, explosões emocionais ou uma incapacidade de lidar com situações difíceis, acabam aprendendo a replicar esses padrões. Elas podem absorver, de maneira inconsciente, o medo e a insegurança que seus pais ou avós carregam, perpetuando ciclos de comportamento que remontam a gerações anteriores.


Os efeitos dos traumas intergeracionais são visíveis em várias esferas do comportamento humano. O medo, a ansiedade e a desconfiança no mundo são algumas das manifestações mais comuns. As gerações subsequentes podem desenvolver padrões de comportamento voltados para a sobrevivência, como hiper vigilância, dificuldade de confiar em outras pessoas e tendência ao isolamento emocional. Por exemplo, em comunidades indígenas e afrodescendentes que enfrentaram séculos de colonização, escravidão e genocídio cultural, há uma prevalência maior de problemas de saúde mental, como depressão, abuso de substâncias e comportamentos autodestrutivos. Esses traumas históricos geraram cicatrizes profundas que continuam a moldar o comportamento das gerações mais jovens, muitas vezes sem que haja uma consciência clara de sua origem.


O impacto também pode se manifestar em dificuldades nas relações interpessoais. Filhos de pais que passaram por traumas significativos podem encontrar dificuldades para estabelecer relações saudáveis. Eles podem ter problemas com intimidade emocional, dificuldades em expressar sentimentos ou, inversamente, podem ser excessivamente protetores e controladores, como forma de tentar proteger seus entes queridos de qualquer potencial perigo.


Um estudo conduzido com descendentes de sobreviventes do genocídio armênio revelou que, mesmo gerações depois, as famílias carregam traços profundos de luto e trauma. Essas famílias, em muitos casos, continuavam a discutir o genocídio como um evento presente em suas vidas, mantendo o trauma "vivo" nas narrativas familiares, o que influenciava o modo como lidavam com eventos adversos e mantinham uma visão de mundo marcada por uma sensação de ameaça constante. Outro exemplo é o estudo com descendentes de africanos que viveram sob escravidão. Os descendentes de escravizados nos EUA, por exemplo, ainda apresentam taxas desproporcionais de doenças mentais, pobreza e violência, muitas das quais estão ligadas às consequências emocionais e sociais de séculos de opressão. A transmissão do trauma ocorre não só pela narrativa e pelo aprendizado comportamental, mas também pelos efeitos da exclusão social e econômica, perpetuados ao longo de gerações.


Entender os traumas intergeracionais é essencial para compreender muitos dos comportamentos e dinâmicas familiares que vemos hoje. Ainda que as pessoas afetadas por esses traumas não tenham vivido diretamente os eventos traumáticos, suas vidas são profundamente influenciadas por eles. A conscientização sobre esse fenômeno é o primeiro passo para quebrar o ciclo de transmissão e iniciar o processo de cura. Ao explorar como os traumas intergeracionais moldam o comportamento, podemos entender melhor por que alguns padrões de comportamento se repetem em famílias ou comunidades. A psicologia contemporânea, ao lado de estudos em epigenética e desenvolvimento humano, continua a investigar maneiras de amenizar o impacto desses traumas, ajudando as gerações futuras a viver de forma mais saudável e resiliente.


Fontes e Referências:

Yehuda, R., & Lehrner, A. (2018). Intergenerational transmission of trauma effects: putative role of epigenetic mechanisms. World Psychiatry, 17(3), 243-257.


Kirmayer, L. J., Gone, J. P., & Moses, J. (2014). Rethinking historical trauma. Transcultural Psychiatry, 51(3), 299-319.


Schwab, G. (2010). Haunting legacies: Violent histories and transgenerational trauma. Columbia University Press.

Por Ana Luiza Faria

linguagem e pensamento

A linguagem e o pensamento são temas centrais na psicanálise, especialmente na obra de Jacques Lacan, que reformulou muitas ideias freudianas ao destacar o papel da linguagem na constituição do sujeito. Para Lacan, a relação entre linguagem e pensamento é intrínseca, e compreender essa conexão é fundamental para quem busca entender como se formam as emoções, as crenças e os conflitos internos.


Lacan parte da ideia de que "o inconsciente é estruturado como uma linguagem". Essa afirmação resume a visão lacaniana de que o inconsciente não é apenas um repositório de conteúdos reprimidos, como originalmente propôs Freud, mas uma estrutura dinâmica que opera através de mecanismos similares aos da linguagem. Isso significa que o inconsciente "fala" por meio de signos, símbolos e narrativas, que não seguem uma lógica racional direta, mas sim a lógica do desejo e da falta.


O pensamento, por sua vez, não é independente da linguagem. Pelo contrário, ele emerge e é moldado por ela. Desde o momento em que nascemos, somos inseridos em um sistema de significados que já existia antes de nós — a linguagem. Ao aprender a falar, entramos nesse mundo simbólico e passamos a organizar nossas experiências internas e externas com base nele. Dessa forma, a linguagem oferece os termos e as estruturas pelos quais pensamos, sentimos e até mesmo fantasiamos.


Na teoria lacaniana, os processos mentais são divididos em três registros: o Simbólico, o Imaginário e o Real. Esses registros ajudam a entender como a linguagem influencia o pensamento e a percepção da realidade.


O Simbólico é o registro da linguagem propriamente dita. É o campo onde os significantes (as palavras, os sons e os símbolos) formam redes de sentido e organizam nosso mundo. Quando pensamos, fazemos isso a partir das categorias que a linguagem oferece. Sem a linguagem, não há pensamento como o conhecemos.


O Imaginário, por outro lado, está relacionado à formação das imagens mentais, à forma como percebemos o mundo e a nós mesmos. Lacan sugere que, antes de aprender a falar, a criança vive em um estágio predominantemente imaginário, no qual sua identidade e o mundo ainda não estão completamente diferenciados. O pensamento, nesse nível, é mais baseado em imagens e sensações do que em conceitos articulados.


O Real é o registro que escapa à linguagem, o que é impossível de ser simbolizado ou descrito completamente. Trata-se das experiências e dos traumas que não podem ser postos em palavras. No entanto, isso não significa que o Real não afete o pensamento; pelo contrário, ele surge como aquilo que sempre escapa à compreensão plena, mas que constantemente influencia nosso modo de pensar e agir.


Um dos conceitos mais importantes em Lacan é o do "significante". Para ele, o significante é a unidade básica da linguagem, mas seu significado não é fixo; ele depende da relação com outros significantes dentro de um sistema de linguagem. Isso se reflete no pensamento: muitas vezes, o que acreditamos pensar conscientemente é apenas uma tentativa de dar sentido aos significantes inconscientes que nos afetam.


Por exemplo, uma pessoa pode repetir certos padrões de pensamento ou comportamento sem entender o porquê. Na visão lacaniana, isso acontece porque esses pensamentos são guiados por significantes que remetem a desejos e conflitos inconscientes. A análise psicanalítica busca justamente desvelar esses significantes, ajudando o indivíduo a dar um novo sentido à sua experiência psíquica.


Na perspectiva lacaniana, o sujeito é "assujeitado" pela linguagem. Isso quer dizer que o "eu" que pensamos ser é, na verdade, uma construção a partir dos significantes que recebemos e interiorizamos. Desde o início da vida, começamos a nos identificar com nomes, categorias e papéis sociais que são dados pela linguagem. Esses elementos moldam nossa maneira de pensar sobre nós mesmos e sobre o mundo ao redor.


Quando uma pessoa fala, ela não expressa apenas pensamentos conscientes, mas também revela elementos de seu inconsciente. Esse é o papel central da fala na psicanálise: ela é o meio pelo qual o sujeito se posiciona e, ao mesmo tempo, se revela. A forma como escolhemos as palavras, as pausas que fazemos e até mesmo os erros de linguagem, como os "atos falhos", são pistas para o conteúdo inconsciente que orienta nossos pensamentos.


Outro ponto crucial na teoria lacaniana é a relação entre o pensamento e o desejo. Lacan defende que o pensamento é sempre orientado pelo desejo, mesmo que não estejamos conscientes disso. O desejo, na psicanálise, não é simplesmente a vontade de algo concreto, mas a busca por preencher uma falta que nunca pode ser completamente satisfeita.


A linguagem, nesse contexto, é o meio pelo qual expressamos e tentamos dar sentido a essa falta. O pensamento, por sua vez, é constantemente impulsionado por essa busca, mesmo que o objeto de desejo nunca seja completamente alcançado. Por isso, os pensamentos tendem a ser repetitivos, circulando em torno de questões que parecem nunca se resolver por completo.


Na clínica, a linguagem é a principal ferramenta para acessar o inconsciente e reorganizar o pensamento do sujeito. Durante as sessões, o psicanalista escuta atentamente o que é dito e, mais importante, como é dito. Os lapsos, as repetições e as associações livres revelam os caminhos do pensamento inconsciente.


Ao trazer esses conteúdos à superfície, o sujeito pode repensar sua relação com os significantes que o afetam, permitindo uma reorganização do seu pensamento e, em última análise, uma transformação emocional.


A relação entre linguagem e pensamento, à luz da psicanálise lacaniana, é uma via de mão dupla. A linguagem molda nosso pensamento, ao mesmo tempo em que nossos pensamentos são uma expressão dos significantes que nos constituem. Entender essa dinâmica é fundamental para compreender como funcionamos psicologicamente, como nos relacionamos com o mundo e, principalmente, como lidamos com nossos desejos e conflitos internos. Na terapia psicanalítica, explorar essa relação pode ser um caminho poderoso para a autocompreensão e o crescimento pessoal.

Por Ana Luiza Faria

Inconsciente

Muitas das decisões que tomamos diariamente parecem surgir de processos racionais e conscientes. No entanto, a psicanálise e as descobertas modernas da neurociência revelam que nossas escolhas são profundamente influenciadas por forças internas, muitas vezes invisíveis ao nosso olhar consciente: o inconsciente. Essa instância da mente, explorada por Freud no final do século XIX, continua a ser objeto de estudo e transformação nas ciências modernas, expandindo nossa compreensão de como somos moldados por experiências, desejos e medos que não conseguimos acessar diretamente.


Sigmund Freud, o fundador da psicanálise, foi um dos primeiros a teorizar sobre o inconsciente como uma parte essencial da psique humana. Para ele, a mente era dividida em três níveis: o consciente, o pré-consciente e o inconsciente. O inconsciente, nessa perspectiva, é o depósito de memórias reprimidas, desejos inaceitáveis e traumas que foram esquecidos ou nunca chegaram à nossa consciência plena, mas que influenciam nossas emoções e comportamentos.


Freud via o inconsciente como uma força motriz que direciona muitos dos nossos atos sem que tenhamos controle ou percepção sobre isso. O exemplo mais famoso de sua teoria é o conceito de "ato falho", onde um simples erro de fala pode revelar um desejo reprimido ou um conflito inconsciente. Apesar de parecerem ações inofensivas, esses pequenos deslizes podem ser manifestações de processos mais profundos que, na ausência de uma análise mais detalhada, passariam despercebidos.


Na psicanálise, os sonhos também desempenham um papel fundamental na revelação do inconsciente. Segundo Freud, os sonhos são a "via régia" para acessar o inconsciente, funcionando como um palco simbólico onde nossos desejos mais íntimos e reprimidos se manifestam. Embora esses conceitos tenham sido fundamentais para o desenvolvimento da psicologia, a ciência moderna também tem expandido nossa visão sobre a mente inconsciente através da neurociência.


Com os avanços tecnológicos, a neurociência trouxe uma nova perspectiva sobre como o cérebro processa informações de maneira inconsciente. Estudos demonstram que uma quantidade significativa de nossas decisões é tomada antes mesmo de nos darmos conta, ou seja, o cérebro já processa e toma ações antes que nos tornemos conscientes delas. Esse fenômeno é conhecido como "decisão inconsciente", e os estudos sobre a ativação neural durante essas escolhas oferecem evidências de que muitos dos nossos comportamentos são governados por padrões automáticos profundamente enraizados.


A neurociência, portanto, complementa a visão freudiana ao mostrar que o inconsciente não é apenas um repositório de desejos reprimidos, mas também um conjunto de processos automáticos e eficientes que ajudam o cérebro a lidar com a complexidade do mundo ao nosso redor. Essas escolhas inconscientes ocorrem frequentemente em momentos de sobrecarga cognitiva ou em situações de grande rapidez, onde o cérebro precisa reagir sem que haja tempo para uma deliberação consciente.


Pesquisas recentes, por exemplo, sugerem que até 95% de nossos pensamentos, emoções e decisões diárias são governados por processos inconscientes. O conceito de "viés implícito", amplamente estudado na psicologia social, é um exemplo claro de como as atitudes e decisões são influenciadas por crenças e estereótipos inconscientes que moldam nossa interação com o mundo sem que nos demos conta. Esses vieses são uma prova do quão entrelaçadas nossas percepções e julgamentos estão com as camadas mais profundas da mente.


Enquanto a psicanálise oferece uma janela para os conflitos emocionais e impulsos reprimidos, a neurociência revela o funcionamento biológico dessas forças inconscientes. Ambas as abordagens se complementam, sugerindo que o inconsciente é tanto um reservatório de experiências passadas quanto uma série de mecanismos automáticos do cérebro.


O ponto de convergência entre essas duas áreas está na maneira como elas abordam a ideia de comportamento automático. A psicanálise sugere que padrões inconscientes podem emergir da repressão de experiências traumáticas ou desejos inaceitáveis, ao passo que a neurociência aponta que o inconsciente é essencial para a eficiência da nossa vida cotidiana. Sem o inconsciente, seríamos incapazes de lidar com a imensa quantidade de informações que recebemos a todo momento.


Entender essa dinâmica nos ajuda a perceber que o que muitas vezes encaramos como uma escolha racional e deliberada é, na verdade, resultado de camadas de influências que começaram muito antes de nossa percepção consciente. As raízes dessas influências podem ser traçadas até a infância, nos primeiros anos de vida, onde começamos a internalizar valores, normas e comportamentos que permanecerão conosco de forma inconsciente ao longo da vida.


O estudo do inconsciente nos desafia a reconsiderar a noção de controle absoluto sobre nossas vidas. Ele nos lembra que somos seres complexos, influenciados por uma vasta rede de experiências passadas, predisposições biológicas e padrões culturais. Ao aceitar que o inconsciente desempenha um papel central em nossas escolhas, podemos começar a nos conhecer de maneira mais profunda, entendendo que, por trás de cada decisão, há um emaranhado de desejos, medos e lembranças que moldam o nosso caminho.


Refletir sobre o inconsciente é, portanto, um convite para observar nossas vidas com mais curiosidade e menos julgamento. Afinal, quanto mais nos dispomos a explorar essas forças ocultas, mais podemos assumir responsabilidade sobre elas e, eventualmente, agir de maneira mais consciente e alinhada com nossos verdadeiros desejos.


Essa jornada de autodescoberta é um lembrete de que nossas escolhas não são apenas o resultado de processos lógicos, mas a expressão de uma dança constante entre o visível e o invisível que habita dentro de nós.

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