top of page
Escritos, artigos e catarses

Por Ana Luiza Faria

O impacto da luz azul na saúde mental representado em colagem surrealista com formas orgânicas e elementos naturais
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Há algo na vida contemporânea que atua de forma silenciosa sobre o corpo e a mente, sem que muitas vezes seja reconhecido como um fator psicológico. Não se trata apenas do excesso de informações ou da velocidade das rotinas, mas da forma como o organismo passou a conviver com uma iluminação que não respeita mais a alternância natural entre dia e noite. O prolongamento artificial da claridade para dentro das horas de descanso cria um cenário em que o corpo recebe sinais confusos sobre quando é momento de estar desperto e quando deveria iniciar um processo de desaceleração.

O sistema nervoso humano foi organizado, ao longo da evolução, para responder à luz solar como um marcador de atividade e à escuridão como um convite ao repouso. Esse mecanismo orienta a liberação de substâncias, regula funções internas e influencia diretamente o equilíbrio emocional. Quando esse ciclo é preservado, o corpo transita com relativa harmonia entre estados de alerta e relaxamento. Porém, quando telas iluminadas passam a ocupar o final do dia e até a madrugada, esse sistema perde sua referência básica.

A exposição prolongada à iluminação emitida por dispositivos eletrônicos mantém o organismo em estado de ativação mesmo quando o ambiente externo já indica que o dia terminou. O corpo, enganado por esse estímulo, adia processos fundamentais de recuperação. Dormir torna-se mais difícil, o descanso se fragmenta e o despertar acontece sem a sensação de restauração. Não é apenas o número de horas na cama que importa, mas a qualidade do repouso que foi interrompida de forma repetida.

Com o tempo, esse funcionamento irregular começa a se manifestar no cotidiano de maneiras sutis. A mente parece sempre ligada, os pensamentos não encontram pausas naturais e o corpo permanece em alerta, como se estivesse constantemente aguardando algo. Pequenas preocupações ganham proporções maiores, a paciência diminui e surge uma inquietação difusa, difícil de nomear. Muitas pessoas não associam esse estado a alterações no funcionamento biológico, interpretando-o apenas como traço de personalidade ou excesso de preocupações.

Em adultos e idosos, esse processo tende a ser ainda mais sensível. Mudanças naturais do envelhecimento já tornam o sono menos profundo e mais vulnerável a interferências externas. Quando a rotina inclui longos períodos diante de telas no período noturno, o organismo encontra maior dificuldade para recuperar um ritmo estável. Isso pode se refletir em cansaço persistente, lapsos de atenção, irritabilidade e uma sensação de esgotamento emocional que não se explica apenas pelas demandas do dia.

Esse estado contínuo de ativação interna favorece o surgimento de respostas emocionais mais intensas. O corpo passa a reagir como se estivesse sob ameaça constante, mesmo em situações comuns. Há uma aceleração interna, uma dificuldade de relaxar e uma sensação de urgência que não encontra objeto claro. Esse funcionamento desgasta o sistema nervoso e cria um ciclo no qual o descanso insuficiente alimenta o mal-estar emocional, e o mal-estar, por sua vez, dificulta ainda mais o repouso.

Compreender esse fenômeno ajuda a deslocar a ideia de que esses estados são apenas resultado de fragilidade emocional ou falta de controle. Há um componente fisiológico importante envolvido, que dialoga diretamente com a forma como a vida moderna foi organizada. O organismo continua respondendo a sinais antigos, mesmo em um ambiente profundamente tecnológico. Ignorar essa dimensão é exigir do corpo uma adaptação infinita, sem considerar seus limites.

Quando se amplia o olhar para essa interação entre ambiente, corpo e mente, torna-se possível compreender o impacto da luz azul na saúde mental de forma mais profunda e menos simplificada. Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de reconhecer que certos estímulos, quando acumulados ao longo do tempo, alteram silenciosamente o equilíbrio interno. Esse entendimento não oferece soluções prontas, mas convida a uma relação mais consciente com os próprios ritmos, respeitando o fato de que o bem-estar emocional também depende de sinais que o corpo recebe todos os dias, muitas vezes sem que a mente perceba.


1


Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista sobre litorais do corpo e o mapa psicossomático com mulher, formas orgânicas, linhas douradas e flores secas

A relação entre mente e corpo se revela nos pequenos movimentos que fazemos sem perceber, nos apertos silenciosos que surgem antes mesmo de entendermos o que sentimos. A psicossomática nasce desse ponto de encontro: onde afetos ainda sem forma ganham expressão física e onde a pulsão busca passagem quando a palavra não alcança. O corpo registra antes que a consciência organize; responde antes que a razão compreenda. Cada tensão que se repete, cada dor que aparece em momentos específicos, cada alteração súbita de ritmo compõe um mapa que fala sobre histórias internas que ainda procuram desfecho. Escutá-lo não é apenas interpretar sinais, mas reconhecer que existe um território inteiro que pede tradução e cuidado.


Viver dentro do próprio corpo é conviver com uma linguagem contínua que antecede qualquer narrativa. A experiência se inscreve na musculatura, na respiração, na forma como lidamos com presença, ausência, contato e retirada. Corporeidade é essa tradução permanente, feita tanto de memórias quanto de expectativas. A pulsão, como força viva que atravessa cada expressão, molda direções e cria tensões quando sua circulação é interrompida. Não existe neutralidade nesse processo: tudo o que sentimos, evitamos, adiamos ou enfrentamos encontra uma forma de se manifestar. A psicossomática observa exatamente essa articulação silenciosa, buscando compreender como impulsos e afetos se convertem em sinais corporais persistentes.


Somatizar não é um erro ou fraqueza; é uma tentativa de autorregulação. Quando emoções ultrapassam o que conseguimos simbolizar, o corpo entra em ação, criando saídas próprias para equilibrar excessos e amortecer impactos. A doença deixa de ser vista como inimiga e passa a ser compreendida como mensagem. Nenhum sintoma surge isolado. Cada dor recorrente denuncia uma sobrecarga; cada desconforto aponta para algo que pediu atenção e não foi atendido; cada alteração funcional revela um conflito que se prolongou. Curar é reorganizar a circulação interna dessas forças, permitindo que a pulsão encontre vias mais adequadas para expressão, sem precisar retornar como tensão acumulada.


Mapear padrões corporais significa reconhecer o que se repete e identificar a lógica interna dessas repetições. O corpo não produz sinais aleatórios; ele responde de forma coerente ao que aprendeu ao longo da vida. Uma dor que aparece sempre que limites são ultrapassados, uma tensão que surge diante de exigências específicas, uma rigidez que se instala ao antecipar rejeição — tudo isso compõe um mapa emocional que se tornou físico. Observar esse território exige escuta, sinceridade e disponibilidade para notar nuances que antes passavam despercebidas. Ao decifrar esses trajetos, começamos a entender como antigas estratégias continuam ativas, mesmo quando já não fazem sentido no presente.


Intervir nesses padrões é criar novas possibilidades de existência. Não se trata de silenciar sintomas, mas de compreender o que os sustenta. O processo psicoterapêutico oferece espaço para elaborar afetos represados, dar nome ao que antes era apenas sensação e transformar tensões em movimento. Pequenas mudanças — no ritmo, no modo de respirar, nas escolhas corporais do dia a dia — reorganizam circuitos internos. Quando mente e corpo deixam de operar como se fossem territórios separados, surge um modo mais integrado de estar no mundo, no qual a pulsão deixa de ser ameaça e se torna força criativa. Esse novo arranjo não elimina o conflito, mas amplia a capacidade de lidar com ele sem que o corpo precise assumir sozinho o peso de expressá-lo.

Referências bibliográficas

ALEXANDER, Franz. Psychosomatic Medicine: Its Principles and Applications. New York: W. W. Norton, 1950.

DOLTO, Françoise. O corpo fala. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da Psicanálise. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1982.

MARTY, Pierre. A psicossomática do adulto. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1990.

MCDOUGALL, Joyce. Teatros do corpo. Rio de Janeiro: Imago, 1989.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1945.

REICH, Wilhelm. A função do orgasmo. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

WINNICOTT, Donald W. Natureza da experiência. Porto Alegre: Artes Médicas, 1988.


Litorais do corpo e o mapa psicossomático

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista sobre tempo, trabalho e bem estar com mulher, formas orgânicas e flores secas
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Organizar o cotidiano com mais clareza é um passo decisivo para lidar com o ritmo acelerado que muitas rotinas impõem. Esse movimento ajuda a observar como escolhas diárias influenciam a forma como lidamos com pressões, responsabilidades e limites pessoais. Em vez de tentar dar conta de tudo, torna-se mais produtivo reconhecer o que realmente exige atenção e o que apenas ocupa espaço mental. Essa distinção reduz desgaste e abre margem para que o dia faça mais sentido, sem a sensação constante de acúmulo.


O uso do tempo não é apenas uma questão de organização, mas de coerência com aquilo que tem relevância concreta. Quando a rotina profissional toma mais espaço do que deveria, surgem tensões que se espalham para outras áreas da vida. Estudos sobre carga de trabalho mostram que pequenas pausas, distribuição equilibrada de tarefas e clareza sobre prioridades favorecem decisões mais consistentes. Não é necessário esperar grandes conflitos para ajustar a rota; observar sinais diários já oferece material suficiente para mudanças viáveis.


Trabalhar melhor não significa aumentar produtividade a qualquer custo, e sim compreender que o desempenho depende de condições realistas. Pressões contínuas, reuniões excessivas, comunicação falha e metas pouco definidas afetam a forma como as tarefas são vividas. Quando há foco em processos mais organizados, o resultado costuma ser maior estabilidade. O trabalho deixa de ser apenas um campo de obrigações e passa a ser um espaço onde é possível sustentar escolhas que preservem a saúde emocional.


Ter mais equilíbrio não exige transformações radicais. Muitas vezes, pequenas decisões já ajustam o ambiente interno: estabelecer limites, reduzir interferências constantes, estruturar o início e o fim do dia de forma mais firme e abrir intervalos que realmente interrompam a tensão. Essas atitudes favorecem atenção, clareza e presença, permitindo que o cotidiano deixe de ser guiado apenas por urgências. O bem estar aparece quando existe espaço para respirar, pensar e agir sem atropelos.


Ao olhar para o tempo e para o trabalho com mais precisão, novas possibilidades surgem. A vida não precisa ser conduzida em modo de sobrevivência contínua. Processos mais estáveis oferecem espaço para descanso, relações mais cuidadosas e decisões mais sólidas. Não se trata de buscar uma rotina perfeita, e sim de reconhecer limites e ajustar formas de viver e trabalhar. Quando essa percepção se consolida, o dia tende a ganhar qualidade, e a experiência profissional deixa de drenar energia de forma contínua.



Viver melhor: Um olhar prático sobre o tempo, trabalho e bem estar

Site criado e administrado por: Ana Luiza Faria | Ponto Psi
Since: ©2022

bottom of page