top of page
Escritos, artigos e catarses

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista sobre compulsão por compras com mulher, formas orgânicas e fundo de papel
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

A busca imediata por estímulos pode levar a escolhas marcadas pela rapidez e pela pouca análise das consequências. Quando esse padrão aparece de forma repetida, o impulso passa a ocupar um espaço que interfere no cotidiano. Em vez de uma compra pensada, surgem ações movidas pela urgência, como se o ato de adquirir algo oferecesse um breve alívio. Essa mudança no modo de decidir indica um funcionamento em que o desejo de rapidez tende a se sobrepor à capacidade de avaliar riscos, abrindo espaço para comportamentos que podem gerar desgaste emocional e financeiro.


A dificuldade de frear esses impulsos costuma envolver fragilidades na capacidade de regular tensões internas. O processo de conter um ato que surge com força exige um manejo constante das próprias sensações, especialmente quando o ambiente reforça a lógica da pressa e da satisfação imediata. A compra funciona, então, como um meio rápido de compensação, criando a sensação de controle passageiro. O objeto adquirido deixa de ser apenas algo útil e se torna um caminho para atenuar incômodos que não foram elaborados, funcionando mais como resposta emocional do que como necessidade concreta.


Quando esse padrão se repete, o ato de comprar passa a ocupar uma função rígida, ganhando características de compulsão. A pessoa se vê envolvida em um ciclo que começa com tensão, segue com a impulsividade e termina com alívio momentâneo, logo substituído por culpa ou preocupação. O objeto perde relevância em pouco tempo, o que mostra que o centro da questão não está na coisa comprada, mas na tentativa de silenciar desconfortos internos por meio de um gesto rápido. Esse processo tende a gerar isolamento e dificuldades na organização financeira, afetando diferentes áreas da vida.


Na prática clínica, observa-se que a compreensão do papel simbólico do objeto é fundamental. Muitas vezes, ele representa expectativa, preenchimento, aprovação ou compensação. A análise desse significado ajuda a ampliar a percepção sobre o que sustenta o comportamento e a criar caminhos para que o impulso não conduza automaticamente à ação. O foco não está em eliminar o desejo de comprar, mas em construir meios de lidar com tensões antes que elas se convertam em atos repetitivos. O acompanhamento permite que o sujeito reconheça padrões, identifique gatilhos e perceba alternativas para lidar com o que sente.


Os manejos clínicos costumam envolver estratégias que favorecem a reflexão antes do ato, o fortalecimento da capacidade de adiar impulsos e o desenvolvimento de formas mais consistentes de lidar com tensões. Trabalhar a relação com o objeto e com o próprio impulso amplia a possibilidade de escolhas mais conscientes. Esse processo ajuda a reduzir a necessidade de recorrer à compra como resposta imediata, favorecendo uma vida mais organizada e menos atravessada por urgências que se repetem. A construção desse caminho exige constância, cuidado e espaço para que a pessoa possa compreender, aos poucos, o que sustenta sua compulsão.


Referências Bibliográficas


O’Guinn, T. C., & Faber, R. J. (1989). Compulsive Buying: A Phenomenological Exploration. Journal of Consumer Research.


Koran, L. M., Faber, R. J., Aboujaoude, E., Large, M. D., & Serpe, R. T. (2006). Estimated Prevalence of Compulsive Buying Behavior in the United States. American Journal of Psychiatry.


Müller, A., Mitchell, J. E., & de Zwaan, M. (2015). Compulsive Buying: Phenomenology, Aetiology, and Treatment. CNS Drugs.


Black, D. W. (2011). Compulsive Buying Disorder. CNS Spectrums.


Compulsão por compras

Por Ana Luiza Faria

Mulher contemplativa com flores e folhas secas representando o movimento pulsional e o equilíbrio financeiro
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Há momentos em que a vida parece se concentrar em uma única pergunta silenciosa: como cheguei até aqui? O desequilíbrio das contas, a sensação de que nada rende e que o futuro ficou pequeno demais criam uma tensão constante entre o que se deseja e o que se consegue sustentar. Esse conflito não nasce apenas de números ou planilhas; ele se alimenta de impulsos que tentam aliviar desconfortos mais profundos. Quando o dinheiro escapa pelas bordas, muitas vezes é a expressão de uma dinâmica interna que também transborda. O que chamamos de descontrole pode ser, na verdade, um pedido de atenção a algo que se movimenta por dentro e busca resposta.


A pulsão, em seu sentido mais direto, é um empurrão interno que procura descarga. Ela não negocia, não avalia consequências e raramente espera. Diante de pressões emocionais, ela tende a buscar saídas rápidas: compras por impulso, adiamentos, tentativas de anestesiar desconfortos imediatos. E, embora pareça contraditório, quanto mais o cenário financeiro aperta, mais essas descargas podem ocorrer como tentativas de produzir alívio instantâneo. É um movimento que escapa da lógica e que, muitas vezes, tenta preencher vazios que não têm relação direta com dinheiro, mas encontram no dinheiro um caminho para se expressar.


O buraco financeiro costuma ganhar profundidade quando a pulsão assume o volante e a consciência fica em segundo plano. Não porque falte conhecimento, organização ou boa vontade, mas porque existe uma força interna que pede satisfação imediata. Essa força não busca futuro; ela busca agora. E o agora, quando dominado pela angústia, tende a criar atalhos caros. Nessas horas, olhar apenas para a planilha não resolve. É preciso reconhecer o impacto desses movimentos internos, porque é neles que se encontra a origem de grande parte dos padrões que repetimos sem perceber. Entrar em contato com esses impulsos não significa reprimi-los, mas entendê-los para que possam ganhar direção e não apenas descarga.


Há um ponto decisivo nesse caminho: perceber que reorganizar a vida financeira não é apenas ajustar comportamentos, mas ajustar sentidos. Quando alguém começa a observar as próprias motivações, medos e expectativas, surge um espaço de escolha que antes não existia. A pulsão não desaparece, mas deixa de comandar sozinha. Ela pode ser reconhecida, nomeada e atravessada sem que cada desconforto gere uma ação automática. Esse movimento interno transforma a relação com o dinheiro, não porque cria uma disciplina artificial, mas porque devolve clareza. E a clareza, nesse contexto, é mais valiosa do que qualquer técnica isolada.


Chegar ao equilíbrio não é um feito repentino; é um processo que envolve atenção constante aos próprios limites e desejos. A saída do vermelho, então, vai além da matemática. Ela passa por compreender o que cada gasto tenta resolver, o que cada adiamento tenta evitar e qual sensação tenta encontrar uma rota mais rápida para escapar. Quando esse diálogo se estabelece, a vida deixa de ser guiada pelo impulso cego e começa a se organizar a partir de escolhas mais alinhadas com o que realmente importa. Nesse ponto, o caminho deixa de ser apenas uma tentativa de “arrumar as finanças” e se torna uma forma de ampliar consciência sobre o próprio modo de existir no mundo inclusive na relação com o dinheiro.


Referencias bibliográficas:

BLEGER, J. Temas de psicologia: entrevista, grupo e instituição. São Paulo: Martins Fontes, 1984.


BAUMAN, Z. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.


FREUD, S. Além do princípio do prazer (1920). In: FREUD, S. Obras completas. v. 14. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.


FREUD, S. Pulsões e seus destinos (1915). In: FREUD, S. Obras completas. v. 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.


GREEN, A. O discurso vivo: da pulsão ao discurso. São Paulo: Escuta, 1982.


AINSLIE, G. Breakdown of will. Cambridge: Cambridge University Press, 2001.


KAHNEMAN, D. Thinking, fast and slow. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2011.


ARIELY, D. Predictably irrational. New York: HarperCollins, 2008.


LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J.-B. Vocabulário da psicanálise. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1988.


LEDOUX, J. The emotional brain. New York: Simon & Schuster, 1996.

Sair do vermelho: Entre o buraco financeiro e o movimento pulsional




 Sair do vermelho: Entre o buraco financeiro e o movimento pulsional

Por Ana Luiza Faria

Capa da série

Existe algo profundamente inquietante em um mundo onde todas as pessoas parecem felizes demais. Em Pluribus, o sorriso constante não tranquiliza ele ameaça. A felicidade coletiva soa artificial, quase mecânica, como se não pertencesse ao corpo que a expressa. E é justamente nesse desconforto que a série se firma: ela não está falando de um vírus, mas de como a sociedade contemporânea molda emoções para caber em discursos de produtividade, leveza e positividade permanente. A série usa a ficção científica como lente para ampliar um fenômeno real: a pressão para parecer bem o tempo todo. O vírus, que transforma as pessoas em versões exageradamente felizes, funciona como metáfora de um positivismo tóxico que tem crescido silenciosamente. No mundo real, também existe a exigência de sorrir, de passar por cima da dor, de responder “estou bem” mesmo quando nada está bem. A felicidade se torna performática e é nessa performance que Pluribus constrói sua crítica.


Carol Sturka, imune ao vírus, não é apenas a protagonista; ela simboliza o indivíduo que ainda sente em profundidade num ambiente que recompensa apenas emoções “agradáveis”. Sua imunidade a coloca num lugar de risco, porque sentir demais num mundo que sente de menos é quase um ato subversivo. Psicologicamente, Carol representa aqueles que vivem a dissonância emocional: pessoas cuja vivência interna não acompanha o tom coletivo e que, por isso, passam a ocupar um lugar de estranheza. Carol não está desconectada por frieza, mas por honestidade emocional. Ela preserva algo que os outros perderam: o vínculo com a própria subjetividade.


O comportamento dos infectados, sempre uniformemente calmo, doce e previsível, revela algo ainda mais inquietante: quando as emoções desagradáveis são eliminadas, o indivíduo perde também grande parte da capacidade de questionamento. A ausência de conflito interior facilita o conformismo. É como se o vírus apagasse não só a dor, mas a própria identidade. Na psicologia social, sabemos que a massa homogênea é mais fácil de controlar. Pluribus dramatiza essa ideia ao mostrar que a felicidade compulsória cria um coletivo dócil, adaptável, pronto para obedecer. A uniformização emocional não é um efeito colateral é um mecanismo de controle.


A série aprofunda ainda mais a discussão ao sugerir que os infectados perdem acesso às lembranças dolorosas. E isso tem implicações diretas: sem dor, não há elaboração; sem elaboração, não há história; sem história, não existe identidade. O sofrimento, por mais incômodo que seja, participa ativamente da construção do self. Ele define limites, orienta decisões, cria sentido e profundidade. Quando Pluribus remove a dor das pessoas, remove também sua narrativa emocional. A felicidade vira ruído branco, incapaz de sustentar qualquer reflexão sobre a própria vida.


Esse processo de apagar emoções desagradáveis acompanha outra violência presente na série: a imposição silenciosa de que todos devem estar bem. Na vida real, muitas pessoas enfrentam essa cobrança: a de se manterem positivos, resilientes e leves, mesmo enquanto carregam cicatrizes internas. Pluribus transforma essa pressão social em epidemia. A felicidade exigida, constante e obrigatória é uma forma de agressão emocional, pois desautoriza qualquer sentimento que não se enquadre no padrão. A tristeza vira falha. A inquietação vira defeito. A melancolia vira patologia. E quando uma sociedade não tolera a dor, ela produz indivíduos que aprendem a esconder tudo o que os torna humanos.


Nesse cenário, o título da série Pluribus, “de muitos” soa irônico. Há muitas pessoas, mas pouca pluralidade. A protagonista é uma das únicas que permanece plural, capaz de sentir camadas, contradições, nuances. Carol ainda carrega aquilo que os outros perderam: a complexidade. Enquanto os infectados se transformam em versões diferentes de um mesmo molde, ela insiste em preservar seu self verdadeiro. É nesse contraste que a série revela seu ponto mais profundo: a autenticidade tem custo. Ser quem se é, num ambiente que deseja cópias, torna-se perigoso.


A pergunta que atravessa a narrativa, e que inevitavelmente atravessa quem assiste, é simples e devastadora: o que você estaria disposto a perder para nunca mais sofrer? A humanidade? A autenticidade? A consistência interna? A capacidade de se emocionar? A história que te trouxe até aqui? A série responde ao mostrar que uma vida sem dor não é uma vida, mas uma anestesia. Confortável, talvez. Segura, possivelmente. Mas vazia. Sem dor, não existe transformação; sem conflito, não há crescimento; sem vulnerabilidade, não há vínculo. A dor não é inimiga ela é parte da linguagem do corpo, um código que revela caminhos.


No fim, Pluribus não é apenas uma série sobre felicidade artificial. É um comentário sobre o risco de tentar domesticar emoções humanas em prol de uma existência sem turbulências. É um lembrete de que aquilo que nos torna vulneráveis é também aquilo que nos torna profundos. E, sobretudo, é uma afirmação silenciosa de que sentir mesmo quando dói é um ato de resistência num mundo que tenta transformar todos em versões idênticas de uma felicidade sem raiz. A série nos convida a pensar que talvez o perigo não esteja em sentir demais, mas em parar de sentir por completo.


Pluribus: uma análise psicológica da série que transforma felicidade em mecanismo de controle

Site criado e administrado por: Ana Luiza Faria | Ponto Psi
Since: ©2022

bottom of page