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Escritos, artigos e catarses

Por Ana Luiza Faria

Rostos interconectados através de analise de dados

A saúde mental no ambiente de trabalho tem emergido como uma preocupação crítica nas últimas décadas. O estresse relacionado ao trabalho, a pressão para alcançar metas e a falta de equilíbrio entre vida pessoal e profissional têm contribuído para o aumento das taxas de problemas de saúde mental entre os trabalhadores. Nesse contexto, surge uma ferramenta poderosa: o People Analytics, que se tornou uma aliada valiosa na transformação da saúde mental no ambiente de trabalho, especialmente para os psicólogos organizacionais.


People Analytics, ou análise de pessoas, é a aplicação de técnicas de coleta e análise de dados para entender o comportamento e as tendências dos funcionários dentro de uma organização. Essa abordagem é baseada em dados, e não em intuições, o que a torna particularmente eficaz na identificação de problemas de saúde mental no local de trabalho. Os psicólogos organizacionais podem utilizar esses dados para compreender melhor as necessidades dos funcionários e implementar estratégias de intervenção eficazes.


Uma das principais maneiras pelas quais o People Analytics pode ser útil para os psicólogos organizacionais é na identificação de fatores de risco. Por meio da análise de dados, é possível identificar quais departamentos ou equipes têm maiores índices de estresse, absenteísmo ou rotatividade. Isso permite que os psicólogos organizacionais concentrem seus esforços onde são mais necessários, desenvolvendo programas de apoio específicos para esses grupos.


Além disso, o People Analytics pode ajudar os psicólogos a entenderem melhor as causas subjacentes dos problemas de saúde mental no trabalho. Ao analisar dados relacionados ao ambiente de trabalho, como carga de trabalho, relacionamentos interpessoais e equilíbrio entre vida pessoal e profissional, os psicólogos podem identificar quais fatores estão contribuindo para o estresse e a insatisfação dos funcionários. Isso possibilita a criação de estratégias de intervenção mais direcionadas e eficazes.


Outra maneira pela qual o People Analytics pode ser valioso é na avaliação da eficácia das intervenções. Após a implementação de programas de apoio à saúde mental, os psicólogos organizacionais podem usar dados para medir o impacto dessas iniciativas. Isso permite ajustar as estratégias conforme necessário e garantir que estão tendo o efeito desejado na saúde mental dos funcionários.


Além disso, o People Analytics pode ser uma ferramenta proativa na prevenção de problemas de saúde mental. Ao analisar dados de forma contínua, os psicólogos organizacionais podem identificar tendências antes que se tornem crises. Isso possibilita a implementação de medidas preventivas, como treinamento de habilidades de enfrentamento do estresse ou a promoção de um ambiente de trabalho mais saudável, reduzindo assim a incidência de problemas de saúde mental.


No entanto, é importante destacar que o uso do People Analytics na gestão da saúde mental no trabalho requer atenção cuidadosa à ética e à privacidade dos funcionários. A coleta e análise de dados sensíveis devem ser realizadas de maneira transparente e respeitosa, com o consentimento dos funcionários sempre em mente.


Conclui-se que, o People Analytics está se tornando uma ferramenta indispensável na transformação da saúde mental no ambiente de trabalho. Os psicólogos organizacionais podem usar essa abordagem baseada em dados para identificar fatores de risco, compreender as causas subjacentes dos problemas de saúde mental, avaliar a eficácia das intervenções e prevenir crises. Com um uso ético e responsável, o People Analytics tem o potencial de melhorar significativamente o bem-estar dos funcionários e criar ambientes de trabalho mais saudáveis e produtivos.

Por Ana Luiza Faria

Mulher se desintegrando

A psicanálise, como disciplina que busca compreender os meandros da psique humana, encontra-se imersa em um complexo tecido de conceitos e fenômenos. Entre esses, destacam-se o excesso e a repetição, duas forças intrínsecas que tecem uma intrincada teia de significados dentro da prática psicanalítica. Aprofundar-se nesses temas é como adentrar uma espiral infindável, onde as camadas de significado se desdobram constantemente, revelando insights sobre a natureza do psiquismo humano.


O excesso, por si só, denota a presença de algo que ultrapassa uma medida considerada adequada. Na psicanálise, essa noção não se limita ao plano material, mas também abrange o campo psíquico. Freud, em seus estudos sobre o prazer e o princípio do prazer, identificou que os impulsos humanos muitas vezes buscam exceder os limites estabelecidos pela realidade. O id, regido pelo princípio do prazer, anseia por satisfação imediata e completa, sem considerar as restrições do mundo exterior.


No entanto, esse excesso é contrabalançado pelo ego e pelo superego. O ego age como mediador entre os impulsos do id e as demandas da realidade, buscando um equilíbrio que permita a satisfação, mas de maneira adaptativa. Já o superego, internalizando normas sociais e morais, impõe limites adicionais aos desejos do id, muitas vezes gerando conflitos internos. Essas batalhas entre impulsos desenfreados e restrições internas criam um terreno fértil para a emergência da repetição.


A repetição, por sua vez, transcende a simples reiteração de eventos ou comportamentos. Ela se manifesta como uma tentativa inconsciente de dar sentido a traumas não resolvidos ou a conflitos mal elaborados do passado. Através da repetição, o indivíduo tenta reelaborar emocionalmente situações passadas que, por não terem sido devidamente assimiladas, permanecem ativas na psique. Essa é uma das maneiras pelas quais o inconsciente busca encontrar uma saída para dilemas que parecem insolúveis.


Na clínica psicanalítica, a repetição muitas vezes se revela nos padrões de comportamento dos pacientes. Eles podem se encontrar repetindo situações semelhantes em suas vidas, escolhendo parceiros ou empregos que reproduzem dinâmicas passadas, mesmo que inconscientemente. Esses padrões repetitivos podem ser interpretados como uma forma de tentar resolver questões não resolvidas do passado, buscando um desfecho diferente ou uma resolução emocional.

A interação entre o excesso e a repetição na prática psicanalítica cria um campo rico para a exploração terapêutica. O analista, atento a esses padrões, pode ajudar o paciente a trazer à consciência os impulsos excessivos, os conflitos internos e as repetições inconscientes. Ao trazer à tona esses aspectos, o paciente tem a oportunidade de examinar sua história pessoal de maneira mais profunda e compreender como ela influencia sua vida presente.

No entanto, adentrar nessa espiral infindável de significados não é tarefa simples. A natureza do inconsciente e a complexidade das emoções humanas podem tornar o processo analítico desafiador. É um trabalho que exige paciência, sensibilidade e a capacidade de lidar com ambiguidades e contradições. Cada camada de significado desvelada muitas vezes revela outra camada, como se fossem os anéis de uma espiral que se expande.

Em última análise, a exploração do excesso e da repetição na prática psicanalítica não apenas enriquece nossa compreensão da psique humana, mas também oferece insights sobre a própria natureza da mudança e do desenvolvimento pessoal. A espiral infindável de reflexões sobre esses temas nos lembra que a jornada de autodescoberta é contínua, cheia de reviravoltas e oportunidades para crescimento. Assim como a espiral matematicamente infinita, a exploração psicanalítica nunca cessa, sempre revelando novos horizontes de compreensão.

Por Ana Luiza Faria

Ilustração aquarelada de uma menina com um olhar expressivo

No meio do turbilhão de pensamentos e percepções, nos deparamos com a ideia reconfortante de que "tudo ocorre por uma razão". Essa afirmação nos traz uma sensação de tranquilidade, como um abraço mental, enquanto enfrentamos as complexidades da existência. No entanto, é válido questionar se essa incessante busca por razões realmente nos traz serenidade ou se, na verdade, nos afunda ainda mais no labirinto de nossas próprias expectativas e conjecturas.


Ao questionarmos a suposta sensação de segurança proporcionada pela crença de que tudo tem uma razão, nos lançamos nas profundezas da reflexão. De fato, podemos sentir a pressão de acreditar que há uma lógica subjacente a cada acontecimento, a cada chuva, a cada sorriso e a cada obstáculo. Porém, precisamos considerar se isso é verdadeiramente uma fonte de conforto ou se é apenas uma muleta que nos afasta da verdadeira vivência da vida.


As palavras de Nietzsche ressoam de maneira impactante: "Não temos ouvidos para aquilo que não temos acesso por meio da experiência." O cerne dessa afirmação nos leva a uma compreensão fundamental: nossos sentidos são as portas que nos conectam ao mundo, e é através deles que construímos nossas percepções. Primeiramente, absorvemos a realidade, captando-a com nossos olhos, ouvidos, tato, paladar e olfato. Somente após essa conexão sensorial é que atribuímos nome e razão às coisas.


A sugestão audaciosa de inverter a premissa nos convida a uma reflexão intrigante. "Permita-se desapegar, nada ocorre por uma razão intrínseca, mas você pode atribuir a razão que preferir a cada situação." Aqui, emerge a liberdade de interpretar o mundo conforme nossa perspectiva, de atribuir motivos que estejam alinhados com nossa própria narrativa. Afinal, a razão é uma construção humana moldada por contextos históricos, geográficos e culturais. O que um dia foi aceito como incontestável em um lugar ou época, pode ser questionado e reformulado em outro contexto.


Essa perspectiva também nos leva a reconsiderar profundamente as abordagens terapêuticas da psicologia. A ideia de que nossos comportamentos são unicamente moldados pelo pensamento pode ser limitada. Desconsiderar a influência de nossos sentidos e das experiências subjetivas é negligenciar uma dimensão essencial de nossa compreensão do mundo. A jornada individual não se trata apenas de racionalidade, mas também de uma interação entre as sutilezas sensoriais e emocionais presentes em cada momento.


Temos o costume de nos agarrarmos a categorizações e conceitos pré-concebidos, buscando a segurança da previsibilidade. No entanto, essa busca por estabilidade pode nos impedir de enxergar as infinitas possibilidades diante de nós. Ao nos apegarmos rigidamente às nossas convicções, corremos o risco de sufocar a verdadeira essência da experiência, a novidade constante que nos aguarda.


Dessa forma, chegamos à conclusão com as palavras perspicazes de Nietzsche: "Convicções são mais prejudiciais à verdade do que mentiras." Na ânsia de encontrar explicações, podemos nos envolver em ilusões reconfortantes que obscurecem a verdadeira natureza do mundo. Que possamos, em vez disso, acolher a incerteza, abraçar o desconhecido e permitir que nossos sentidos, curiosidade e perspectivas frescas nos guiem pelo caleidoscópio das experiências, em busca de uma compreensão genuína e profunda.


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