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Escritos, artigos e catarses

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista de mulher serena com flores e folhas secas, linhas douradas e pretas representando emoções sutis
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

A intensidade com que cada pessoa sente e expressa suas emoções não é fruto do acaso. Existem fatores biológicos, psicológicos e sociais que contribuem para que uns vivam as experiências emocionais de forma mais intensa, enquanto outros parecem manter maior estabilidade diante das mesmas situações. Compreender esses aspectos pode ajudar não apenas a aceitar as diferenças individuais, mas também a refletir sobre como cada trajetória de vida molda o modo de sentir.


Do ponto de vista biológico, estudos mostram que o funcionamento do sistema nervoso central tem grande impacto na forma como respondemos ao mundo. Pesquisas em neurociência identificam que estruturas como a amígdala e o córtex pré-frontal regulam a intensidade das respostas emocionais. Pessoas com maior reatividade da amígdala, por exemplo, tendem a vivenciar sentimentos de forma mais marcante (Pessoa, 2017). Além disso, fatores genéticos influenciam a sensibilidade emocional. Uma revisão conduzida por Kret e Ploeger (2015) destaca que herdamos predisposições que podem nos tornar mais atentos e responsivos às mudanças do ambiente.


Mas a biologia não atua sozinha. A história de vida desempenha papel central. Indivíduos que cresceram em contextos de instabilidade emocional ou altos níveis de estresse podem desenvolver um padrão de maior vigilância e intensidade afetiva. Já aqueles que tiveram experiências de segurança e acolhimento podem internalizar modos mais regulados de lidar com sentimentos. Esse aspecto foi amplamente discutido pela teoria do apego, de John Bowlby, que mostrou como os vínculos iniciais deixam marcas profundas na forma de sentir e se relacionar.


Também não se pode ignorar a dimensão cultural. Sociedades diferentes ensinam, de modos explícitos ou sutis, como se deve expressar ou controlar emoções. Em alguns grupos, demonstrar sensibilidade é visto como sinal de autenticidade e conexão, enquanto em outros pode ser interpretado como fraqueza. Essa moldura cultural ajuda a explicar por que pessoas que vivem em ambientes distintos desenvolvem estilos emocionais variados. Pesquisas interculturais de Matsumoto (2006) demonstram que normas sociais determinam não apenas como reagimos internamente, mas principalmente o quanto mostramos ao mundo essas reações.


A psicologia contemporânea também destaca o papel da personalidade. O traço de "neuroticismo", descrito nos modelos dos Cinco Grandes Fatores, está associado a maior instabilidade emocional. Indivíduos com pontuação mais elevada nesse traço tendem a experimentar altos e baixos intensos, enquanto aqueles com níveis mais baixos mostram maior constância. Isso não significa defeito ou virtude, mas diferentes formas de perceber a vida.


É importante lembrar que a intensidade emocional pode trazer tanto desafios quanto potenciais. Pessoas que sentem mais profundamente podem enfrentar maior vulnerabilidade a estados de ansiedade ou tristeza, mas também apresentam elevada capacidade de empatia e sensibilidade estética. Já os que vivem emoções de maneira mais equilibrada podem ter facilidade em manter estabilidade e foco, mas podem se sentir menos mobilizados em certas experiências. Não se trata de estabelecer o que é melhor ou pior, mas de reconhecer a diversidade humana.


O que fica evidente é que ser mais ou menos emotivo resulta de uma complexa interação entre biologia, ambiente, cultura e escolhas pessoais. Refletir sobre isso nos ajuda a enxergar as diferenças sem julgamento, lembrando que cada modo de sentir é, em si, uma forma de existir no mundo.


Referências Bibliográficas


BOWLBY, John. A secure base: parent-child attachment and healthy human development. New York: Basic Books, 1988.


KRET, M. E.; PLOEGER, A. Emotion processing deficits: a liability spectrum providing insight into psychopathology. Frontiers in Psychology, Lausanne, v. 6, p. 981, 2015. DOI: https://doi.org/10.3389/fpsyg.2015.00981.



MATSUMOTO, D. Are cultural differences in emotion regulation mediated by personality traits? Journal of Cross-Cultural Psychology, Thousand Oaks, v. 37, n. 4, p. 421-437, 2006. DOI: https://doi.org/10.1177/0022022106288478.



PESSOA, Luiz. The cognitive-emotional brain: from interactions to integration. Cambridge: MIT Press, 2017.



Por que algumas pessoas são mais emotivas que outras?

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista de uma mulher com flores e folhas secas representando a filosofia da liberdade em Sartre
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

A noção de liberdade ocupa um lugar central no pensamento de Jean-Paul Sartre. Para o filósofo existencialista francês, o ser humano está condenado a ser livre, isto é, lançado em um mundo sem fundamentos transcendentes que determinem suas escolhas, resta-lhe apenas a responsabilidade de criar-se continuamente através de seus atos. Essa concepção de liberdade rompe com tradições filosóficas que buscavam ancorar a existência em essências pré-determinadas, como na metafísica aristotélica, ou em estruturas racionais universais, como em Kant.


Em O Ser e o Nada (1943), Sartre defende que a existência precede a essência, o que significa que o ser humano não nasce com um propósito fixo; ao contrário, constrói a si mesmo a cada decisão. O indivíduo é, antes de tudo, projeto. Assim, a liberdade não é apenas um direito ou uma possibilidade externa, mas uma condição ontológica do ser humano. “O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo” (SARTRE, 2015, p. 29).


Essa perspectiva coloca o sujeito em uma posição de responsabilidade radical. Diferente de correntes deterministas, que explicam a ação humana por meio de causas externas sejam elas sociais, biológicas ou divinas , Sartre enfatiza que sempre há escolha. Mesmo diante de circunstâncias limitantes, o indivíduo escolhe como responder a elas. É nesse ponto que surge a angústia existencial: a percepção de que não há justificativas externas para nossas escolhas, apenas a liberdade absoluta e o peso da responsabilidade.


A filosofia sartriana dialoga criticamente com Kant. Embora ambos reconheçam a autonomia como núcleo da liberdade, Kant a concebia a partir da lei moral universal, onde a razão confere legitimidade à ação. Já Sartre dissolve essa universalidade: não há lei racional prévia que dite o caminho; a cada ato, o homem inventa valores. Essa diferença evidencia o salto radical do existencialismo em direção a uma liberdade sem garantias transcendentes.


Se compararmos Sartre a Hegel, encontramos outra tensão. Para Hegel, a liberdade se realiza no movimento dialético da história, quando o espírito absoluto reconhece a si mesmo no mundo. Em Sartre, porém, não há uma teleologia histórica que assegure o destino da liberdade. Ela é vivida concretamente por cada sujeito, em suas escolhas cotidianas, em meio ao absurdo da existência.


Um dos aspectos mais provocativos da filosofia sartriana é a ideia de má-fé (mauvaise foi). Trata-se da tentativa do indivíduo de escapar de sua liberdade, assumindo papéis sociais ou crenças rígidas como se fossem essências definitivas. Quando alguém se esconde atrás de justificativas “sou apenas assim”, “não tive escolha”, cai na má-fé. O oposto da má-fé é a autenticidade, isto é, o reconhecimento da liberdade como condição inevitável e a assunção plena da responsabilidade pelos próprios atos.


Ao aproximarmos Sartre de Nietzsche, encontramos afinidades na crítica às essências fixas e ao peso da moral tradicional. Nietzsche fala do Übermensch como aquele que cria valores em um mundo sem garantias divinas; Sartre, por sua vez, insiste que o homem inventa a si mesmo em um processo contínuo de escolhas. Ambos, cada qual a seu modo, apontam para a coragem de viver em um universo desprovido de fundamentos absolutos.


A liberdade, para Sartre, não é apenas possibilidade abstrata, mas está sempre enraizada em situações concretas. Essa ideia foi aprofundada em sua obra posterior, Crítica da Razão Dialética (1960), onde introduz o conceito de liberdade situada. Aqui, Sartre reconhece que fatores históricos e sociais impõem condições objetivas, mas, mesmo nelas, o sujeito continua responsável por suas escolhas. A liberdade, portanto, nunca é absoluta no sentido prático, mas continua ontologicamente inescapável.


Ao refletirmos sobre a filosofia da liberdade em Sartre, percebemos um convite ao enfrentamento da vida em sua inteireza. A existência humana não está garantida por essências, leis morais ou teleologias históricas. Ela é, antes, o campo aberto da criação de si. Essa responsabilidade radical pode parecer angustiante, mas é também aquilo que confere sentido à vida: a liberdade é, em última instância, o destino do homem.


Referências Bibliográficas

HEGEL, G. W. F. Fenomenologia do Espírito. Petrópolis: Vozes, 2012.

KANT, I. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

NIETZSCHE, F. Assim Falou Zaratustra. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

SARTRE, J.-P. O Ser e o Nada. Petrópolis: Vozes, 2015.

SARTRE, J.-P. Crítica da Razão Dialética. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista delicada de nostalgia, ruas italianas, Belle Époque e músicas francesas
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Desde criança carrego comigo uma sensação estranha: o encanto profundo por lugares que jamais pisei, por épocas que apenas surgem nos meus sonhos e por músicas que parecem me reconhecer antes mesmo de eu existir. Cresci ouvindo melodias de Edith Piaf, sentindo cada palavra em francês como se meu coração entendesse algo que minha mente ainda não decifrava. Há algo de fascinante no que não foi vivido, naquilo que só se percebe no eco das imagens que nos perseguem, sutil e constante.

Penso em ruas estreitas de cidades italianas, com suas fachadas amareladas, varandas de ferro forjado e portas gastas pelo tempo. Imagino o aroma de café recém-passado misturado ao perfume das flores que alguém deixou em um vaso, no canto da janela. Cada pedra antiga parece carregar histórias que eu nunca vivi, mas que reconheço, como se meus passos pudessem, algum dia, se encaixar nos contornos de uma memória emprestada.

A Belle Époque me chama com sua elegância discreta, os vestidos longos, os chapéus ornamentados, o brilho das luzes de gás que iluminam as praças e cafés onde artistas discutem ideias que moldaram o mundo. Sinto uma estranha familiaridade com essa época, como se cada gesto, cada riso e cada olhar fossem ecos de uma vida que nunca foi minha, mas que me pertence de forma invisível.

E então estão as canções. Piaf canta uma dor que transcende o tempo, uma saudade que atravessa fronteiras e séculos. Suas palavras se tornam pontes para lugares que não visitei, para encontros que nunca aconteceram, para histórias que jamais escrevi. Sinto-me envolta por um sentimento que mistura admiração e melancolia, um fio invisível que liga meu presente a algo que só existe na memória alheia.

Talvez essa sensação seja a forma que encontrei de viver múltiplas vidas ao mesmo tempo: a minha, e todas aquelas que me visitam nos gestos de pessoas que caminharam antes de mim. Um café tomado sob o sol do fim da tarde em uma praça italiana, um acorde francês que parece sussurrar histórias antigas, o vento que move cortinas de linho em prédios que jamais fotografei, mas que minha mente insiste em decorar. É uma presença que não pesa, mas que deixa marcas delicadas, como as linhas finas de ouro que contornam uma página antiga de um livro esquecido.

E assim sigo, marcado por essa estranha familiaridade. Caminho por ruas que nunca pisei, ouço canções de outras gerações, sinto a brisa de mares que não conheci. Ainda assim, tudo isso é meu, porque mora em mim. Essa saudade funciona como um espelho que não reflete o que fui, mas o que poderia ter sido: uma saudade sem objeto, mas cheia de pertencimento.

Talvez seja isso: um coração que, mesmo sem lembrar, insiste em reconhecer.

Saudades de algo que nunca vivi




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