#004 Séries - All Her Fault: A culpa como construção social
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Por Ana Luiza Faria

⚠️ Este texto contém spoilers completos da série.
Existe um tipo de terror que não precisa de escuridão nem de trilha sonora perturbadora para se instalar. Ele se apresenta em plena luz do dia, numa rua silenciosa de subúrbio, na porta de uma casa que deveria ser conhecida. É exatamente ali, nesse momento aparentemente banal, que All Her Fault começa a construir seu verdadeiro argumento psicológico: o colapso não vem do desconhecido, mas da dissolução daquilo que acreditávamos ser sólido.
Marissa Irvine não é uma protagonista frágil. Ela é uma mulher funcional, inserida numa vida que, por fora, exibe todas as marcas do sucesso contemporâneo casamento, filho, casa, posição social. E é justamente essa funcionalidade que torna seu desmoronamento tão poderoso do ponto de vista clínico. Na psicologia, há uma diferença fundamental entre quem entra em crise porque sempre viveu à beira do abismo e quem entra em crise porque o chão firme, de repente, some. O segundo caso é muito mais desorientador, porque o sujeito não tem repertório para aquela queda. Marissa pertence a esse segundo grupo. O desaparecimento de Milo não apenas inaugura um pesadelo externo ele desativa o sistema interno de referências que ela usava para se orientar no mundo.
O que a série captura com precisão rara é o modo como o trauma agudo reorganiza a percepção da realidade. Marissa começa a enxergar ameaça em todos os rostos, suspeita em cada silêncio, traição em qualquer hesitação. Do ponto de vista neuropsicológico, isso é exatamente o que acontece quando o sistema de ameaça é ativado de forma intensa e sustentada: o cérebro passa a operar em modo de hipervigilância, lendo o ambiente como permanentemente hostil. O problema é que, neste caso específico, a paranoia de Marissa não é um distúrbio ela é uma resposta adequada. Porque o ambiente realmente é hostil. As pessoas ao redor dela realmente estão escondendo algo. A série tem a inteligência de colocar o espectador na mesma armadilha cognitiva da protagonista: não sabemos o que é instinto calibrado e o que é distorção do medo.
O casamento com Peter é onde a série realiza sua análise mais sofisticada. Há uma dinâmica que clínicos reconhecem com facilidade em relacionamentos longos onde um dos parceiros opera a partir de uma estrutura narcísica: a erosão gradual da percepção do outro como sujeito. Peter não odeia Marissa. Esse seria um afeto simples demais para explicar o que ele faz. O que Peter demonstra é algo mais sutil e mais devastador uma incapacidade estrutural de reconhecer que os outros existem com a mesma profundidade e legitimidade com que ele próprio existe. Quando ele sequestra o filho de outra mulher para preencher o vazio deixado pela perda do filho biológico, não está agindo a partir da crueldade consciente, mas a partir de uma lógica interna que ele genuinamente considera razoável. Esse é o traço mais perturbador do narcisismo patológico: ele não se vive como maldade. Ele se vive como necessidade.
O fato de Peter manter essa fachada de marido presente, de pai dedicado, de homem confiável durante anos não é apenas uma habilidade de dissimulação é a expressão de uma fragmentação identitária onde as diferentes versões de si mesmo coexistem sem necessariamente se comunicar. Na clínica, isso aparece em pacientes que compartimentalizam experiências com tanta eficiência que parecem, para si mesmos, inocentes das próprias ações. A pergunta que a série levanta, e que não tem resposta fácil, é a seguinte: se alguém acredita profundamente que fez a coisa certa, isso o torna menos responsável ou mais perigoso?
A culpa, como tema psicológico, atravessa toda a narrativa de maneiras que merecem atenção. O próprio título da série All Her Fault, "tudo culpa dela" funciona como um diagnóstico social antes mesmo de a história começar. A culpa feminina não precisa ser provada; ela é presumida. Marissa não precisa ter feito nada de errado para ser imediatamente posicionada como suspeita moral da situação. Essa dinâmica está profundamente enraizada em padrões culturais que a psicologia social vem estudando há décadas: a tendência coletiva de responsabilizar mulheres, especialmente mães, por qualquer ruptura no tecido familiar. A série usa isso de forma consciente, colocando o espectador na incômoda posição de também ter duvidado de Marissa em algum momento e então fazendo com que ele se pergunte por quê.
Jenny Kaminski representa uma das relações psicologicamente mais interessantes da trama. A aliança que ela forma com Marissa nasce de um lugar ambíguo e essa ambiguidade é clinicamente honesta. Vínculos formados em situações de crise extrema têm uma intensidade que pode ser confundida com profundidade. A adversidade compartilhada cria intimidade acelerada, uma sensação de "ela me entende como ninguém" que nem sempre sobrevive ao retorno da normalidade. A série não romantiza essa aliança ela a mostra como o que é: duas mulheres usando uma à outra para sobreviver, com afeto real e interesse real operando simultaneamente, sem que isso invalide nenhum dos dois.
O desfecho, em que Marissa deixa Peter morrer ao não usar o EpiPen que poderia salvá-lo, é o momento em que a série mais explicitamente convida o espectador para um dilema ético sem solução limpa. Do ponto de vista psicológico, esse ato não é simplesmente vingança. É o momento em que uma pessoa, após anos de erosão de sua realidade, escolhe finalmente agir a partir do próprio julgamento e esse julgamento diz que ele vai fazer de novo. Que ele sempre vai fazer de novo. A frieza com que Marissa toma essa decisão não indica ausência de afeto; indica exaustão moral. Há um ponto, na vida de quem conviveu prolongadamente com manipulação e traição, em que o sistema de empatia simplesmente para de funcionar em relação ao agressor. Não por maldade, mas por esgotamento.
O que All Her Fault oferece, no fundo, não é uma história sobre sequestro. É uma história sobre o quanto as pessoas são capazes de sustentar uma mentira quando ela serve à construção de uma identidade que precisam preservar, e sobre o preço que os outros pagam por essa sustentação. É sobre como o ambiente doméstico pode ser simultaneamente o lugar mais seguro e o mais perigoso que existe. E é sobre como as mulheres, em particular, carregam o peso de provar sua inocência num mundo que começa cada história presumindo sua culpa.
A série não oferece redenção fácil nem vilões unidimensionais. E é exatamente por isso que ela funciona como espelho porque o que vemos nela não é ficção distante, mas dinâmicas que a psicologia clínica reconhece em consultório, semana após semana, em histórias que nunca chegam às telas, mas que doem com a mesma intensidade.


