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Regulação autonômica e saúde mental: da ameaça à segurança

  • Foto do escritor: Ana Luiza Faria
    Ana Luiza Faria
  • 9 de jan.
  • 3 min de leitura

Por Ana Luiza Faria

Regulação autonômica e saúde mental representada por corpo em estado de segurança e equilíbrio fisiológico
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A regulação autonômica é um dos pilares menos visíveis, porém mais determinantes, da saúde mental. Trata-se do modo como o sistema nervoso autônomo ajusta continuamente o organismo diante do que é percebido como ameaça ou segurança. Esse sistema opera de forma automática, regulando batimentos cardíacos, respiração, digestão, tônus muscular e níveis de vigilância. Embora atue fora do campo da decisão consciente, ele influencia diretamente estados emocionais, padrões de pensamento e a capacidade de estar presente no cotidiano.

Quando o ambiente interno ou externo é interpretado como ameaçador, o organismo mobiliza recursos para a defesa. A aceleração do coração, a respiração mais curta, a contração muscular e o aumento da atenção são respostas esperadas diante do perigo. O problema surge quando esse estado de alerta deixa de ser transitório e passa a se tornar o pano de fundo constante da experiência. Nessa condição, o corpo permanece preparado para reagir, mesmo quando não há um risco imediato. Aos poucos, surgem sinais como irritabilidade persistente, cansaço sem causa aparente, dificuldade de concentração, distúrbios do sono e uma sensação difusa de inquietação ou esgotamento.

A saúde mental não depende apenas do conteúdo dos pensamentos ou das emoções que se manifestam, mas também do estado fisiológico a partir do qual esses pensamentos e emoções emergem. Um sistema nervoso cronicamente orientado para a defesa tende a interpretar o mundo de forma mais restrita, com menor flexibilidade e maior sensibilidade a estímulos que confirmem perigo. Nesses estados, a reflexão se torna mais difícil, a memória pode falhar e o contato com experiências de prazer ou tranquilidade fica reduzido. Não se trata de fraqueza ou falta de esforço, mas de um organismo operando sob condições de sobrecarga.

Por outro lado, a experiência de segurança produz efeitos igualmente profundos. Quando o sistema nervoso reconhece sinais de estabilidade, previsibilidade e suporte, ocorre uma mudança no padrão autonômico. A respiração se aprofunda, o ritmo cardíaco se torna mais variável e ajustável, a musculatura relaxa gradualmente e a digestão retoma seu funcionamento mais eficiente. Esse estado favorece a curiosidade, a capacidade de escuta, o vínculo e a elaboração de experiências difíceis. A segurança não é apenas uma sensação subjetiva; ela é um estado corporal que permite maior integração entre emoções, memória e raciocínio.

Estudos em neurociência e psicofisiologia têm demonstrado que a variabilidade da frequência cardíaca, um dos indicadores da flexibilidade autonômica, está associada a melhor regulação emocional e maior resiliência diante do estresse. Pesquisas conduzidas por Thayer e Lane propõem o modelo de integração neurovisceral, no qual a comunicação eficiente entre cérebro e coração sustenta a capacidade de adaptação emocional e comportamental (Thayer & Lane, 2000). Esses achados reforçam a ideia de que a saúde mental não pode ser compreendida isoladamente do funcionamento corporal.

Ao longo da vida, experiências repetidas de instabilidade, perdas, violência ou negligência podem ensinar o sistema nervoso a permanecer em alerta. Em adultos e idosos, isso pode se expressar como uma sensação constante de tensão, mesmo em contextos aparentemente tranquilos. Muitas vezes, o corpo reage antes que qualquer pensamento seja formulado. A ameaça não precisa ser atual; memórias implícitas, associadas a vivências passadas, podem manter circuitos de defesa ativos. Com o tempo, esse padrão pode contribuir para quadros de ansiedade, humor deprimido e dificuldades de adaptação às mudanças naturais do envelhecimento.

A transição da ameaça para a segurança não ocorre por imposição ou convencimento racional. Ela depende de experiências repetidas que sinalizem ao organismo que é possível reduzir a vigilância. Pequenos momentos de previsibilidade, relações estáveis, ambientes menos ruidosos e ritmos mais respeitosos têm impacto direto sobre a regulação autonômica. A escuta atenta, o contato visual acolhedor e a sensação de ser compreendido são exemplos de estímulos que comunicam segurança em nível fisiológico, mesmo quando não são nomeados.

Compreender esses processos ajuda a deslocar a culpa frequentemente associada ao sofrimento psíquico. Estados de ansiedade persistente ou retraimento não indicam falha de caráter ou falta de vontade, mas refletem um sistema nervoso que aprendeu a se proteger de forma intensa. A partir dessa compreensão, abre-se espaço para abordagens que consideram o corpo como parte central do cuidado, integrando percepção, ritmo e relação. A saúde mental, nesse sentido, não é apenas a ausência de sintomas, mas a capacidade de transitar com flexibilidade entre estados de ativação e repouso, respondendo às demandas da vida sem permanecer aprisionado à ameaça.

Referência bibliográfica:

Thayer, J. F., & Lane, R. D. (2000). A model of neurovisceral integration in emotion regulation and dysregulation. Journal of Affective Disorders, 61(3), 201–216.


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