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Repetição como destino: por que você continua vivendo as mesmas histórias

  • Foto do escritor: Ana Luiza Faria
    Ana Luiza Faria
  • há 1 hora
  • 3 min de leitura

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista em tons neutros com mulher integrada a formas orgânicas, flores e folhas secas conectadas por linhas douradas, sugerindo repetição e ciclo contínuo.
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Costuma-se afirmar que certas histórias se repetem porque ainda não foram aprendidas. A crença é sedutora: haveria uma lição escondida no sofrimento e, uma vez compreendida, o ciclo se encerraria. No entanto, na experiência clínica, a repetição raramente cede ao esclarecimento. Ela persiste mesmo quando o enredo já foi nomeado, analisado e situado na biografia. Não se trata de falta de entendimento. Trata-se de algo que opera apesar dele.


É comum encontrar pessoas que descrevem com precisão os próprios padrões: escolhem parceiros indisponíveis, aceitam posições de subordinação, mantêm vínculos que as ferem. Reconhecem as origens familiares, identificam as primeiras cenas, conectam passado e presente com coerência. Ainda assim, retornam ao mesmo ponto. A narrativa é sofisticada, mas o gesto se mantém. A repetição, nesses casos, não indica ignorância. Indica compromisso.


Chamar isso de destino alivia a responsabilidade psíquica. O destino organiza a experiência sob a forma de inevitabilidade. A repetição deixa de ser uma produção e passa a ser um infortúnio. Essa formulação protege algo: sustenta a continuidade de uma posição conhecida. Há uma função defensiva clara nesse movimento. Permanecer no que já foi vivido, ainda que doloroso, evita o confronto com o desconhecido e com a perda de identidade que qualquer deslocamento implica. A dor reiterada é previsível; o novo não é.


A repetição também mantém uma fidelidade silenciosa a vínculos primários. Ao refazer a mesma cena, preserva-se um arranjo interno que, embora limitante, oferece coesão. Abandonar o padrão significaria trair uma organização antiga que deu forma ao sujeito. Nesse sentido, o sofrimento não é apenas padecido; ele é utilizado como eixo de estabilidade. O sintoma não é só um erro a ser corrigido, mas um modo de manter consistência.


Há um paradoxo clínico recorrente: quanto mais alguém se convence de que identificou a causa de suas escolhas, mais seguro se sente para continuar repetindo-as. O saber funciona como apaziguador. Produz a impressão de avanço, enquanto o comportamento confirma a permanência. A compreensão intelectual reduz a angústia momentânea, mas não altera a posição subjetiva. O discurso muda antes que o ato mude, e muitas vezes o discurso serve precisamente para que o ato não mude.


A repetição sob o nome de destino oferece uma narrativa coerente para aquilo que, de outro modo, exigiria ruptura. Ao declarar-se vítima de uma força externa ou de uma tendência inevitável, o sujeito se desobriga de reconhecer a própria participação na cena que se repete. Não se trata de culpa moral, mas de implicação estrutural. Enquanto essa implicação não é suportada, a repetição encontra justificativas plausíveis para continuar.


Nem toda repetição é superável. Algumas são constitutivas da maneira como cada um se organizou para existir. A expectativa de que tudo possa ser transformado reforça a mesma lógica que promete encerramento definitivo. A clínica mostra outra coisa: há movimentos que se deslocam, outros que apenas se reorganizam e alguns que retornam sob nova forma, ainda reconhecíveis. O nome pode mudar, a história pode ganhar novas explicações, mas o ponto de atração permanece.


Falar em destino simplifica o que é mais incômodo admitir: a repetição não é um acidente que acomete, mas uma escolha que se sustenta, mesmo quando não é reconhecida como tal. Essa constatação não produz libertação imediata. Tampouco oferece um roteiro de saída. Apenas retira o conforto da inevitabilidade e deixa à vista a permanência do que insiste.

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