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Escritos, artigos e catarses

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista sobre autenticidade mulher entre flores secas, linhas douradas e pretas, em fundo de papel levemente amassado
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Ser autêntico parece uma promessa bonita, mas na prática é quase sempre um desafio. Crescemos aprendendo a caber nos moldes que nos oferecem: a boa criança, o aluno aplicado, a pessoa educada, o profissional que não erra. Muito cedo, descobrimos que ser aceito pode depender menos do que somos e mais do que mostramos ser. E nesse entrechoque, nasce o medo do julgamento.


Esse medo é sutil. Ele se infiltra nos gestos mais simples: na roupa que escolhemos, nas palavras que deixamos de dizer, no silêncio que cultivamos quando gostaríamos de discordar. Ele faz parecer perigoso expressar a própria voz, como se o olhar do outro tivesse o poder de definir quem somos.


O julgamento funciona como um espelho distorcido. Ele nos devolve não a nossa imagem real, mas a versão filtrada pelas expectativas alheias. Quando vivemos debaixo desse espelho, esquecemos que a autenticidade não é aprovada em assembleia, mas sentida por dentro. O medo, então, nos afasta de nós mesmos, tornando-nos atores de um roteiro que nunca escrevemos.


Há quem acredite que ser autêntico é sempre ousado, quase revolucionário. Mas muitas vezes é apenas um gesto íntimo: falar de uma fragilidade, admitir uma dúvida, dizer “não” quando esperam um “sim”. O peso do julgamento é que transforma esses gestos simples em algo arriscado.


No fundo, o medo de não ser aceito nasce de uma verdade desconfortável: todos precisamos de pertencimento. Queremos ser amados, respeitados, vistos. Só que, ao tentar garantir a aceitação a qualquer custo, acabamos renunciando ao que é mais essencial nossa singularidade. Paradoxalmente, é essa singularidade que pode nos conectar de forma mais genuína com os outros.


Ser autêntico exige coragem. E coragem não é ausência de medo, mas atravessá-lo. Talvez nunca deixemos de sentir o desconforto do julgamento, mas podemos aprender a viver sem deixar que ele dite nossas escolhas. Porque o preço de agradar a todos é quase sempre alto demais: perder de vista quem realmente somos.


Por que o medo do julgamento nos impede de ser autênticos

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista sobre o esquecimento como função adaptativa
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

É comum a cena de abrir a porta de um cômodo e esquecer o motivo de ter ido até lá. A princípio, parece apenas um descuido ou falha da memória. No entanto, situações como essa revelam algo mais profundo: o esquecimento não é um defeito do cérebro, mas parte de um mecanismo essencial para a saúde mental e para a capacidade de adaptação ao ambiente. A ideia de que seria vantajoso lembrar de absolutamente tudo pode soar tentadora, mas a ciência mostra que a seletividade da memória é justamente o que garante maior eficiência ao pensamento humano.

Pesquisas em neurociência indicam que o cérebro humano armazena cerca de 2,5 petabytes de informação ao longo da vida, mas, ao contrário de um computador, esse armazenamento não funciona como uma cópia integral de tudo que vivemos. Estudo da Universidade de Toronto (2017), liderado por Blake Richards e Paul Frankland, mostrou que o esquecimento desempenha papel ativo na tomada de decisões. A mente não busca guardar fielmente cada detalhe, mas priorizar informações relevantes para o presente e o futuro. Ao apagar ou enfraquecer memórias, cria espaço para a generalização e para a flexibilidade cognitiva.

Outro dado relevante vem de pesquisas em 2022 realizadas pelo Trinity College Dublin, que destacam como o hipocampo região central para a memória não apenas consolida lembranças, mas também promove o descarte ativo de conexões sinápticas. Isso impede que o cérebro fique sobrecarregado por estímulos desnecessários, facilitando a aprendizagem de novos conteúdos. Lembrar tudo seria não apenas impossível, mas prejudicial, pois comprometeria a capacidade de reconhecer padrões e tomar decisões rápidas em contextos incertos.

O senso comum valoriza a boa memória como sinônimo de inteligência, mas a ciência mostra um contraponto intrigante: esquecer é também sinal de inteligência adaptativa. Imagine a dificuldade de se concentrar em uma tarefa se todas as memórias irrelevantes do passado surgissem ao mesmo tempo. Estudos em psicologia cognitiva revelam que a interferência de memórias antigas pode reduzir a eficácia do raciocínio, dificultando a atualização de informações. O esquecimento, nesse contexto, funciona como um filtro ativo, impedindo que o excesso de dados atrapalhe a clareza mental.

Essa função adaptativa do esquecimento pode ser observada no cotidiano de diferentes formas. Situações corriqueiras como não se lembrar de detalhes irrelevantes de uma conversa, esquecer onde se colocou um objeto pouco usado ou não recordar o conteúdo exato de um texto lido semanas atrás são estratégias inconscientes do cérebro para liberar espaço de processamento. O que é mais relevante tende a se consolidar em traços de memória de longo prazo, enquanto informações de baixo impacto são naturalmente descartadas. Esse processo garante que possamos aprender continuamente sem sobrecarregar a mente.

Uma descoberta recente publicada na revista Nature Communications em 2023 reforça essa perspectiva: os pesquisadores identificaram que o esquecimento pode estar associado a mecanismos de neurogênese no hipocampo, ou seja, à formação de novos neurônios que remodelam circuitos de memória. Essa remodelagem não só ajuda a criar novas conexões, mas também a eliminar lembranças antigas que já não são funcionais. Em vez de uma falha, trata-se de um processo dinâmico de renovação que mantém a mente flexível e preparada para mudanças.

Na prática, essa seletividade da memória nos ajuda a lidar com ambientes complexos. A capacidade de esquecer detalhes específicos, mas manter conceitos gerais, permite que façamos previsões mais rápidas sobre novas situações. Por exemplo, ao aprender uma regra de trânsito, não é necessário decorar cada circunstância particular em que se aplicou; basta guardar o princípio geral. Da mesma forma, ao cozinhar, não é preciso lembrar cada vez em que uma receita deu errado, mas sim a regra essencial sobre o tempo de preparo ou a temperatura adequada.

Um ponto curioso é que o esquecimento também protege o bem-estar emocional. Pesquisas da Universidade de Birmingham (2019) demonstraram que memórias de caráter negativo tendem a perder intensidade com o tempo graças a processos de reconsolidação seletiva. Isso significa que o cérebro é capaz de enfraquecer lembranças dolorosas, permitindo que a vida siga em frente sem o peso constante de experiências passadas. Embora nem sempre consiga eliminar completamente recordações traumáticas, esse mecanismo contribui para reduzir o impacto emocional de situações adversas.

Muitas vezes, as pessoas interpretam o esquecimento como sinal de desatenção, preguiça ou até de falha cognitiva precoce. Mas a ciência mostra que se esquecer de detalhes irrelevantes ou de informações pouco usadas não é motivo de preocupação, e sim sinal de que o cérebro está funcionando de forma saudável. A verdadeira preocupação surge apenas quando esquecimentos afetam tarefas fundamentais do dia a dia ou ocorrem em excesso, o que pode sinalizar condições clínicas que merecem atenção médica. Fora desses casos, o esquecimento deve ser visto como um aliado da mente.

Ao contrário do que se imagina, lembrar de tudo seria um fardo. Casos raros de hipertimesia, condição em que indivíduos recordam praticamente todos os dias de suas vidas, mostram as consequências dessa capacidade. Embora impressionante, esse excesso de memória pode ser angustiante, pois dificulta o esquecimento de eventos dolorosos e sobrecarrega o processamento mental. Assim, a sabedoria de não lembrar tudo está no equilíbrio entre retenção e descarte, uma forma de regulação que favorece a clareza e a adaptação.

Aplicar esse conhecimento ao cotidiano pode trazer benefícios concretos. Uma forma de favorecer o equilíbrio saudável da memória é aceitar o esquecimento como parte natural do funcionamento cerebral, evitando autocrítica exagerada diante de lapsos pontuais. Também é possível estimular a memória de longo prazo para aquilo que realmente importa, utilizando estratégias simples como revisão espaçada, escrita de resumos e repetição prática de tarefas. Outra prática útil é reduzir a sobrecarga de informações digitais: ao limitar notificações ou organizar melhor os registros em aplicativos, o cérebro não precisa guardar detalhes redundantes, liberando espaço para o essencial.

Outro recurso prático é reconhecer que o sono é fundamental nesse processo. Pesquisas indicam que durante o sono profundo o cérebro não apenas consolida memórias, mas também descarta conexões consideradas desnecessárias. Valorizar a qualidade do sono, portanto, significa também valorizar o papel ativo do esquecimento. O mesmo vale para atividades físicas regulares, que contribuem para a saúde cerebral e para o equilíbrio entre lembrar e esquecer.

No dia a dia, ao esquecer o motivo de ter entrado em um cômodo ou ao não se recordar de um detalhe irrelevante de uma conversa, é possível olhar para isso com mais gentileza. Esses episódios sinalizam que o cérebro está priorizando, filtrando e ajustando as informações, exatamente como deve fazer para manter o pensamento ágil e adaptativo. O esquecimento, longe de ser inimigo, é um dos maiores aliados da nossa capacidade de viver com leveza, aprender continuamente e enfrentar as incertezas do mundo moderno.

Referências bibliográficas


Richards, B. A., & Frankland, P. W. (2017). The persistence and transience of memory. Neuron, 94(6), 1071–1084.


Ryan, T. J., & Frankland, P. W. (2022). Forgetting as an active process: Evidence from human and animal studies. Nature Reviews Neuroscience, 23(8), 501–515.


Bernhard, E., et al. (2023). Adult hippocampal neurogenesis and memory clearance. Nature Communications, 14, 3412.


Lee, J. L. C., Nader, K., & Schiller, D. (2017). An update on memory reconsolidation updating. Trends in Cognitive Sciences, 21(7), 531–545.

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista delicada representando as tardes na gelateria com a minha mãe, com café expresso, Stracciatella e flores secas
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Há um certo luxo escondido nos instantes mais simples. Sempre penso nisso quando entro na pequena gelateria com a minha mãe. Não é um luxo que se mede em cifras, mas na delicadeza de poder viver a cena por inteiro. É um luxo que se traduz em tempo disponível, em presença plena, em ter espaço para respirar sem correria.


O ritual já começa antes de escolhermos o sorvete: pedimos um café expresso curto, desses que cabem na palma da mão mas sustentam conversas inteiras. O primeiro gole abre o corpo, aquece a garganta e prepara o coração para escutar. É nesse instante que as palavras começam a se derramar, sem roteiro. Falamos da vida, das escolhas que se impõem e das que conquistamos, daquilo que pesa e também do que alivia. Em alguns dias, o silêncio é quem nos acompanha, mas é um silêncio cheio de significado, como se não precisássemos de mais nada além daquela partilha invisível.


Depois vem a decisão que, na verdade, nunca muda: Stracciatella. É curioso como, diante de tantas opções, sempre escolhemos o mesmo sabor. Talvez porque ele represente continuidade, um ponto fixo no meio das incertezas. A cada colherada, lembro-me de como é precioso poder escolher não apenas o sorvete, mas o modo como conduzo a vida. Ter espaço para organizar meu trabalho de forma que caiba nessas tardes é uma conquista silenciosa, um pedaço de liberdade que não tomo como garantido. É privilégio, e sei disso.


Esses instantes, que poderiam parecer banais, carregam uma densidade rara. É como se a vida se revelasse em sua forma mais pura quando sentamos naquela mesa, sob a luz suave do sol que atravessa as folhas da árvore. O tempo se suspende. Não há pressa, não há urgência. Só o prazer de estar. Ali descubro que ter domínio do simples é muito mais do que um ideal: é prática cotidiana, é poder encontrar sentido no que, para muitos, passa despercebido.


As conversas, às vezes, mergulham fundo. Tocamos naquilo que não tem resposta fácil: o envelhecimento, os medos, a finitude. Mas também falamos de lembranças, rimos de histórias antigas, resgatamos frases de pessoas que já não estão. Tudo se mistura, e talvez seja isso que dá sentido ao encontro: o reconhecimento de que a vida cabe inteira em uma tarde na gelateria.


E quando volto para casa, sempre me pego pensando que não há tesouro maior do que esse: poder dividir um sorvete de Stracciatella com minha mãe, acompanhar cada gole de café com palavras e silêncios, sentir que pertenço a esse momento. É disso que é feita a vida. Não das grandes conquistas, mas desses recortes sutis que, quando reconhecidos, se tornam eternos.


Agradeço todos os dias por poder desfrutar disso: as tardes de gelateria com minha mãe, o gosto doce e fresco da Stracciatella, o café que antecede as escolhas, as trocas que se aprofundam sem esforço. A vida, penso, é generosa quando aprendemos a enxergar que o simples é, na verdade, o que temos de mais rico.


As tardes na gelateria com a minha mãe

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