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Escritos, artigos e catarses

Por Ana Luiza Faria

olagem surrealista delicada com figura humana vintage caminhando em direção a uma abertura dourada, rodeada por formas orgânicas, flores secas e linhas finas pretas e douradas sobre fundo de papel amassado. A composição evoca o paradoxo de buscar liberdade criando novas prisões.
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

A palavra liberdade carrega um fascínio quase absoluto. Desde cedo aprendemos a sonhar com a ideia de sermos donos de nossos próprios passos, livres das expectativas alheias, capazes de escolher o que quisermos. No entanto, quanto mais tentamos alcançar essa liberdade, mais percebemos que ela nunca se apresenta de forma pura. Ao contrário, parece que em cada tentativa de nos libertar acabamos construindo novas formas de aprisionamento.


Pense, por exemplo, em quem busca independência financeira. O desejo legítimo de não depender de ninguém pode levar a uma rotina de trabalho incessante, a tantas horas acumuladas que já não sobra espaço para respirar. O dinheiro, antes visto como caminho para a liberdade, se torna uma corrente invisível que prende à produtividade constante. O mesmo acontece com quem deseja a liberdade emocional: ao tentar não se apegar a ninguém, muitas vezes ergue muros tão altos que já não consegue deixar ninguém entrar.


Esse paradoxo nos acompanha em pequenas e grandes escolhas. Quando idealizamos a liberdade, tendemos a confundi-la com controle absoluto sobre a vida. Criamos regras rígidas, planejamos rotinas impecáveis, acumulamos informações para prever o futuro. Mas é justamente nessa tentativa de controlar tudo que vamos nos enredando em novas prisões: agendas sobrecarregadas, padrões perfeccionistas, expectativas inalcançáveis. O medo de perder a liberdade nos prende ainda mais.


Há também a dimensão cultural desse paradoxo. Vivemos em uma sociedade que valoriza a autonomia a qualquer custo. Somos incentivados a “ser únicos”, a “seguir nosso próprio caminho”, mas essa suposta liberdade logo se transforma em uma nova obrigação: não podemos parecer comuns, não podemos falhar, não podemos simplesmente descansar. A pressão para ser livre se torna, ela mesma, um tipo de prisão.


O que muitas vezes esquecemos é que a liberdade não está na ausência de vínculos ou de limites. Pelo contrário, ela se manifesta quando conseguimos habitar esses vínculos sem nos perdermos, quando aceitamos que limites fazem parte da vida. Não se trata de romper todas as correntes, mas de escolher quais correntes nos permitem viver de forma mais autêntica. Há relações que, em vez de nos aprisionar, nos sustentam; há rotinas que, em vez de nos sufocar, nos oferecem estrutura para respirar.


Buscar liberdade não deveria ser uma luta contra todas as formas de limite, mas sim um exercício de consciência: de que prisões estou criando sem perceber? O que me parece libertador, mas está consumindo minhas forças? A verdadeira liberdade talvez não seja um estado final a ser conquistado, mas uma prática cotidiana de perceber onde posso flexibilizar e onde preciso aceitar os contornos inevitáveis da existência.


Quando olhamos por essa perspectiva, entendemos que liberdade e prisão não são opostos absolutos. São movimentos que se entrelaçam, revelando que até nos espaços de maior autonomia ainda carregamos condicionamentos internos e externos. A questão não é eliminar todos os limites, mas aprender a viver de forma consciente dentro deles, reconhecendo quais escolhas realmente nos aproximam de nós mesmos e quais apenas repetem padrões de aprisionamento.


Assim, o paradoxo deixa de ser um problema insolúvel e passa a ser uma oportunidade de reflexão. Afinal, talvez a maior liberdade seja poder olhar para as próprias prisões e, com coragem, decidir quais delas ainda fazem sentido e quais já não cabem mais em quem estamos nos tornando.

paradoxo de buscar liberdade criando novas prisões


Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista em fundo de papel amassado. Uma figura humana vintage aparece de costas, com a boca costurada por fios dourados e pretos, simbolizando o silêncio ético da psicanálise. Balões de fala se desfazem em pássaros escuros, representando discursos que distorcem conceitos clínicos em slogans vazios. Flores secas e linhas orgânicas atravessam a cena, evocando fragilidade e passagem do tempo, em contraste com a banalização dos conceitos psicanalíticos.
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Nos últimos anos, tornou-se frequente ver conceitos psicanalíticos sendo usados como munição em debates políticos. Líderes públicos são classificados como “paranoicos”, “psicopatas”, “perversos” diagnósticos lançados em manchetes, artigos de opinião e redes sociais. O problema é que, ao fazer isso, perde-se de vista aquilo que a psicanálise é em sua essência: uma prática clínica, construída na intimidade da escuta, e não um dispositivo para justificar posições partidárias, seja de um lado ou de outro.


Freud foi categórico em sua crítica à chamada psicanálise selvagem: a apropriação apressada e irresponsável de seus conceitos para além do contexto clínico. Diagnosticar à distância, sem transferência, sem escuta, sem relação analítica, é trair a própria base da psicanálise. Mais do que um erro técnico, é um risco ético porque transforma uma ferramenta de compreensão do inconsciente em arma de combate ideológico.


Quando um analista, escritor ou intelectual usa a psicanálise para rotular figuras públicas conforme sua posição política, o que está acontecendo não é avanço teórico, mas confusão de estações. Em vez de contribuir para o debate, deslegitima-se a própria psicanálise, reduzindo-a a um panfleto sofisticado. Se a crítica é política, que seja feita no campo da política, com argumentos históricos, jurídicos ou sociais. Mas convocar Freud como chancela para juízos partidários é desonesto com a tradição psicanalítica e perigoso para sua credibilidade.


A psicanálise não nasceu para defender governos, partidos ou ideologias. Ela nasceu para abrir espaço ao sujeito, às contradições humanas, ao inconsciente que escapa dos discursos oficiais. Seu valor está justamente na capacidade de não se deixar capturar pelo imediatismo das narrativas coletivas. Transformar conceitos clínicos em rótulos políticos é esvaziar essa potência e banalizar seu alcance.


Não se trata, portanto, de discutir se determinado político é “louco”, “perverso” ou “normal”. Essa é uma falsa questão. O que importa é entender como discursos de massa operam, como lideranças mobilizam afetos sociais, como a violência simbólica e real se expressa na cultura. Esse é o terreno legítimo da psicanálise quando se volta para o coletivo: não o diagnóstico de indivíduos, mas a análise das formações sociais e dos fenômenos inconscientes que atravessam o laço social.


Ao misturar psicanálise com disputa partidária, perde-se duplamente: o debate político se empobrece, porque recorre a caricaturas clínicas em vez de argumentos sólidos; e a psicanálise se degrada, porque é instrumentalizada para fins que lhe são alheios. O resultado é confusão, polarização e desinformação.


É hora de retomar a seriedade da discussão. A psicanálise deve permanecer no lugar que lhe é próprio: o da escuta, do rigor conceitual, da ética do sujeito. Ela pode, sim, dialogar com a política mas não como diagnóstico à distância ou como justificativa de posicionamentos, e sim como reflexão crítica sobre os modos de gozo, de poder e de sofrimento que atravessam a vida coletiva.


Reduzir Freud a rótulos políticos é trair o próprio espírito de sua obra. Respeitar a psicanálise significa preservá-la dessa apropriação indevida e reconhecer que, em tempos de barulho ideológico, seu maior valor continua sendo o mesmo: a coragem de escutar o que não cabe no discurso oficial de nenhum partido.

banalização dos conceitos psicanalíticos

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Por Ana Luiza Faria

Lutos invisíveis representados em colagem surrealista delicada, com figura humana vintage, formas orgânicas, linhas douradas e pretas, flores secas e fundo de papel amassado.
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Existem dores que não aparecem em fotos de despedidas nem em rituais marcados pela ausência. São lutos que atravessam a vida sem cerimônia, flores ou gestos formais de consolo. Perdas que não encontram lugar para serem guardadas, mas que ainda assim pesam no peito. São os lutos invisíveis aqueles que não encontram espaço para serem ditos em voz alta, mas que, silenciosamente, moldam quem nos tornamos.


Um desses lutos acontece quando precisamos deixar de frequentar um lugar. Pode ser a padaria da infância, a casa da avó ou até um banco específico em uma praça onde tantas conversas e silêncios foram guardados. Quando voltamos, muitas vezes percebemos que nada é mais como antes. Os cheiros mudaram, as pessoas se foram, ou talvez nós já não sejamos os mesmos. Essa ausência de território é uma perda discreta, mas real: um pedaço de vida que já não pode mais ser vivido.


Outro luto que raramente se fala é o de perder versões de si mesmo. Crescer, amadurecer e mudar trazem ganhos, mas também deixam rastros de despedida. A criança que você foi, o adolescente sonhador, o adulto que acreditava em caminhos que não se cumpriram todos eles ficaram pelo caminho. Não existe urna ou lugar onde possamos depositar essas versões, mas existe saudade de quem já não volta. Às vezes, esse tipo de perda dói tanto quanto a ausência de alguém querido.


Há também a dor de se afastar de pessoas que ainda estão vivas. Amizades que se desmancham no tempo, relações que se esvaziam, vínculos que se desfazem sem brigas marcantes. É estranho perceber que alguém que um dia foi tão próximo hoje é apenas um nome perdido na memória do celular. Esses lutos são silenciosos porque parecem menos legítimos afinal, a pessoa está viva, caminhando em outro lugar. Mas a ausência dela na sua vida continua sendo uma perda, com todos os seus pesos.


Nem todos os lutos têm flores ou rituais, mas todos merecem ser reconhecidos. Quando negamos essas dores, elas se acumulam como camadas de silêncio dentro de nós. Reconhecê-las não significa se apegar ao que já não volta, mas dar nome àquilo que ficou em suspenso. É um gesto de cuidado consigo mesmo admitir: “eu perdi algo, e isso doeu”.


Ao falar sobre lutos invisíveis, abrimos espaço para que experiências cotidianas e subjetivas sejam acolhidas. Porque perder não é apenas dizer adeus a alguém que partiu para sempre, mas também aceitar as tantas despedidas sutis que nos atravessam ao longo da vida. Essas perdas, quando reconhecidas, podem se transformar em aprendizado, memória e até em força para seguir adiante.


A verdade é que carregamos muitos pequenos lutos no decorrer da existência. Alguns se disfarçam em saudade, outros em nostalgia, outros em uma estranha melancolia que não sabemos explicar. Mas todos fazem parte do processo de reconstrução constante de quem somos.


No fim, talvez a maior delicadeza que possamos ter conosco seja essa: honrar as perdas invisíveis, sem pressa de superá-las, entendendo que até o silêncio carrega suas despedidas.

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