top of page
Escritos, artigos e catarses

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista em fundo de papel levemente amassado, com figura humana vintage, linhas finas douradas e pretas, flores e folhas secas, simbolizando o diálogo entre ser e devir.
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Entre as perguntas mais antigas da filosofia, uma permanece sempre atual: o que significa “ser” e como isso se relaciona com o “devir”? Desde os pensadores da Grécia Antiga até reflexões contemporâneas, essa tensão acompanha nossa existência cotidiana.


O ser, em linhas simples, é aquilo que buscamos como estabilidade: nossa identidade, valores, memórias e a sensação de continuidade no tempo. É o ponto de referência que nos dá sentido e que nos permite dizer: “eu sou”. Sem essa âncora, nos perderíamos na fluidez do mundo. Porém, essa âncora não é estática. Por mais que desejemos constância, estamos em constante transformação. É aqui que entra o devir.


O devir é o movimento, o fluxo inevitável da vida. Tudo o que existe está em processo de mudança: nossos corpos, pensamentos, relações, desejos e até as formas como compreendemos a nós mesmos. É no devir que se abre a possibilidade de renovação, de novos caminhos e de futuros inesperados. Enquanto o ser aponta para a permanência, o devir nos lembra da impermanência.


Muitas vezes, vivemos o conflito entre os dois. Há quem se apegue demais ao ser, buscando uma identidade fixa, tentando manter a vida em uma rigidez que não acompanha o tempo. Por outro lado, há quem viva apenas no devir, sem referências sólidas, mergulhando no movimento sem encontrar um chão. Nenhum dos dois extremos traz equilíbrio. O desafio está em habitar o intervalo, esse espaço delicado em que ser e devir se encontram.


Na prática, isso significa reconhecer que somos feitos de história, mas também de possibilidades. Uma pessoa não é apenas sua biografia aquilo que já viveu e que a define, mas também o que ainda pode se tornar. O ser guarda a memória; o devir abre a esperança. Somos sempre uma mistura de continuidade e transformação.


Podemos perceber isso em momentos simples da vida. Um reencontro com alguém do passado mostra como permanecemos os mesmos em certos aspectos, mas também revela o quanto nos transformamos. A cada experiência, nossos contornos se redesenham. Carregamos em nós marcas profundas, mas elas não nos condenam a uma forma única de existir.


Essa relação entre ser e devir é também um convite a olhar para o presente com mais leveza. Quando entendemos que a vida não é apenas estabilidade nem apenas mudança, mas o encontro entre ambas, podemos lidar melhor com as incertezas. Reconhecemos que há partes de nós que permanecem, mas também aceitamos o fluxo que nos atravessa.


Em termos existenciais, isso significa aceitar que nunca estaremos prontos, mas também nunca estaremos totalmente perdidos. Somos processo e permanência ao mesmo tempo. Esse paradoxo é, em si, a beleza da condição humana.


Ao refletir sobre o ser e o devir, aprendemos a nos enxergar com mais compaixão. Não precisamos ser sempre iguais, nem precisamos nos dissolver em mudanças incessantes. Podemos, simplesmente, existir nesse movimento delicado, reconhecendo que a vida é feita de raízes e ventos: uma parte que nos sustenta e outra que nos leva adiante

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista em fundo de papel amassado, com figura humana dividida em duas metades, linhas douradas e pretas, flores e folhas secas, simbolizando a diferença entre quem somos e quem pensamos que somos.
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

Muitas vezes, olhamos no espelho e vemos apenas uma parte de nós mesmos. A imagem refletida não mostra os medos que escondemos, os desejos que não admitimos ou as forças que ainda não descobrimos. Existe uma distância silenciosa entre a pessoa que realmente somos e aquela que acreditamos ser. Essa diferença, embora desconfortável, faz parte da experiência humana.


Desde cedo, vamos construindo ideias sobre quem somos. Escutamos comentários da família, professores, amigos e, pouco a pouco, essas vozes externas moldam uma versão de identidade. Alguém pode crescer acreditando que é tímido, quando, na verdade, aprendeu a se calar para ser aceito. Outra pessoa pode se enxergar como forte, quando na verdade carrega uma fragilidade escondida, cuidadosamente disfarçada. O que pensamos sobre nós mesmos é, em grande medida, um reflexo das narrativas que fomos acumulando ao longo da vida.


Mas quem somos, de fato? Essa é uma pergunta que não se responde de forma rápida. Quem somos está nos gestos espontâneos, nas reações quando ninguém está observando, naquilo que sentimos em silêncio. É a versão de nós que surge antes do filtro da expectativa, antes da necessidade de agradar, antes das máscaras sociais que aprendemos a vestir.


A distância entre o “eu real” e o “eu pensado” pode gerar sofrimento. Muitas pessoas passam a vida tentando corresponder a uma imagem idealizada, esforçando-se para caber em papéis que não condizem com sua essência. Isso pode levar a frustração, ansiedade e sensação de vazio. Afinal, viver como quem acreditamos ser e não como realmente somos significa estar sempre em dívida consigo mesmo.


No entanto, essa diferença também pode ser um convite. Quando percebemos que aquilo que pensamos ser não dá conta da nossa complexidade, abre-se espaço para explorar o desconhecido dentro de nós. É nesse ponto que o autoconhecimento se torna essencial. Em processos de reflexão, terapia, escrita ou momentos de silêncio, podemos observar de perto as nossas contradições. Descobrimos que podemos ser tímidos em alguns contextos e expansivos em outros, fortes em certas situações e vulneráveis em tantas mais.


Somos feitos de paradoxos. Essa percepção traz liberdade, porque nos permite abandonar a rigidez das definições únicas e fixas. Não precisamos nos prender ao rótulo de quem pensamos ser. Podemos ser diferentes versões de nós mesmos, em transformação constante, e ainda assim existir em autenticidade.


Aceitar essa diferença é um passo importante. Significa compreender que nunca seremos uma identidade pronta, mas sim um processo em movimento. Quem pensamos ser pode mudar, porque nossa percepção se altera com as experiências. E quem somos também se revela pouco a pouco, como se retirássemos camadas de um tecido antigo que sempre guardou algo precioso em seu centro.


No fundo, talvez a grande questão não seja eliminar a diferença entre quem somos e quem pensamos que somos, mas aprender a conviver com ela. Esse espaço, que muitas vezes causa angústia, pode se tornar um território fértil para descobertas, encontros e novas possibilidades de existir.


Viver é aprender a nos reconhecer no meio dessa dança entre real e imaginado. Quando conseguimos nos olhar com curiosidade, em vez de julgamento, abrimos espaço para sermos menos reféns das expectativas e mais íntimos de nós mesmos. O caminho do autoconhecimento não é sobre chegar a uma definição final, mas sobre caminhar com leveza entre essas duas margens.


Talvez nunca consigamos coincidir completamente com a imagem que criamos de nós mesmos. E está tudo bem. A beleza da vida está justamente nessa diferença, nesse espaço onde podemos experimentar, falhar, nos reinventar. É ali, nesse intervalo, que mora a chance de viver com mais verdade e profundidade.

Por Ana Luiza Faria

A vida que não cabe em um feed perfeito
© Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização.

No café da manhã de domingo, entre um gole de café morno e uma mordida em um pão que já perdeu a crocância, o dedo desliza no celular como quem procura companhia. E lá está: o sorriso branco da influenciadora, a viagem paradisíaca do colega de faculdade, o prato perfeitamente equilibrado do conhecido que, na vida real, nunca soube fritar um ovo sem estourar a gema.


A mesa bagunçada com farelos de pão e a toalha manchada de café ganham um contraste cruel diante da tela. Quase dá vontade de ajeitar o cabelo só para ver se a câmera frontal não entrega demais a cena real aquela que ninguém posta. É curioso perceber como a luz do sol parece mais bonita na casa dos outros, mesmo sendo o mesmo sol atravessando a mesma janela.


O deslizar do feed é quase hipnótico: corpos que parecem sempre em ângulo certo, casas sem poeira, relacionamentos que cabem em legendas românticas e viagens que se sucedem como capítulos de um romance sem pausa. Por aqui, o capítulo é outro: a fila do supermercado, a roupa esquecida no varal, o boleto que não tira férias.


A mente, como boa comparadora compulsiva, não perde tempo. “E eu?”, pergunta em silêncio. “Por que não?” É nesse espaço invisível que a ansiedade se instala, como aquela visita inconveniente que chega sem avisar e se recusa a ir embora. De repente, a vida que parecia suficiente ontem já não parece caber na medida certa hoje. O filtro do Instagram não é só para as fotos: ele acaba filtrando também a forma como nos olhamos.


E no entanto, basta lembrar da amiga que confessou, num café rápido, que o sorriso postado horas antes escondia uma briga feia em casa. Ou do colega que publicou a foto da praia, mas tirou o celular do carregador no quarto abafado de um hostel que cheirava a mofo. A edição, no fundo, não é fraude, mas um jeito de contar uma história parcial, e o problema é quando acreditamos nela como se fosse um retrato fiel.


O pão amanhecido, nesse instante, revela seu papel de filósofo involuntário: é seco, irregular, mas continua pão. Sustenta. Talvez a vida seja isso mais miolo do que casca, mais bastidor do que espetáculo. E, ironicamente, quando a câmera vira para dentro, é onde descobrimos que quase ninguém vive no palco iluminado que publica.


De repente, o café esfria demais e o dedo pausa no scroll infinito. A epifania surge pequena, quase tímida: se a vida dos outros cabe tão perfeitamente em quadradinhos editados, talvez seja justamente porque não cabe na realidade inteira. E aí, a bagunça da mesa, o cabelo desalinhado e o pão sem brilho ganham uma estranha beleza.


Porque no fim das contas, enquanto a grama do vizinho floresce no filtro, o que sustenta mesmo é a raiz invisível que ninguém posta.

Site criado e administrado por: Ana Luiza Faria | Ponto Psi
Since: ©2022

bottom of page