top of page
Escritos, artigos e catarses

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista com Raul Seixas em estilo vintage, elementos simbólicos como disco voador,  zoológico sofá fazendo alusão a música

"Eu devia estar contente, porque eu tenho um emprego, sou o dito cidadão respeitável e ganho quatro mil cruzeiros por mês."

Assim começa Ouro de Tolo, uma das canções mais incisivas e desconcertantes de Raul Seixas. Lançada em 1973, a música não apenas desafia o ideal de sucesso vendido pela sociedade, como também expõe, com uma sinceridade incômoda, o desamparo que pode surgir exatamente quando tudo “dá certo”.


Raul canta a história de alguém que, aparentemente, venceu: tem emprego, reconhecimento, casa, carro, status. Tudo o que muitos desejam. No entanto, o tom é de cansaço, ironia e desencanto. O que parece ser um elogio ao sucesso se transforma, verso após verso, numa denúncia silenciosa do vazio que mora por trás das conquistas. "Mas confesso, abestalhado, que eu estou decepcionado, porque foi tão fácil conseguir. E agora eu me pergunto: e daí?"


Essa pergunta não é apenas retórica. Ela atravessa o ouvinte como um espelho desconfortável, pois sugere que talvez a busca por sucesso, quando descolada de sentido, nos leve não à plenitude, mas a uma forma sofisticada de fracasso. Um fracasso que se disfarça bem, porque usa gravata, frequenta zoológicos aos domingos e sorri nas fotos de família.


Esse movimento de conquistar tudo e, ainda assim, sentir que algo essencial falta tem nome na psicanálise. Em 1916, Freud escreveu sobre o que chamou de "os que fracassam ao triunfar". Pessoas que adoecem, tropeçam ou entram em crise exatamente no momento em que seus desejos se realizam. É como se o sucesso ativasse um conflito inconsciente: ao invés de satisfação, ele desencadeia culpa, angústia ou uma sabotagem silenciosa. O desejo, quando alcançado, mostra-se insustentável. E a pessoa entra em colapso justamente quando tudo parece bem.


Ouro de Tolo é quase um retrato desse tipo clínico, mas com um agravante existencial: o personagem da música não apenas percebe que o sucesso não o satisfaz, como também começa a questionar se todo o caminho que percorreu até ali fazia sentido. Ele olha para a vida que construiu e se sente ridículo, entediado, deslocado. Nada parece mais ter graça nem o zoológico, nem o carro, nem o jornal. É a experiência de um sujeito que foi convencido de que bastava seguir o roteiro para ser feliz. E, quando chega ao final, encontra o roteiro... vazio.


A alienação da qual Raul fala não é apenas social, mas profunda. É o adormecimento do olhar, da escuta, do sentir. Viver, para esse personagem, se transformou numa sequência de gestos automáticos. Uma existência que acontece, mas que não é realmente vivida. Ele diz: "Eu acho tudo isso um saco. É você olhar no espelho, se sentir um grandessíssimo idiota, saber que é humano, ridículo, limitado". Há algo de profundamente humano nesse estranhamento como se ele finalmente percebesse o quanto estava ocupado em ser alguém que os outros reconhecessem, sem nunca se perguntar se era isso que realmente queria ser.


Ao recusar “sentar no trono de um apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar”, Raul rompe com essa lógica. Ele escolhe não aceitar a existência domesticada, ainda que confortável. E é nesse ponto que a música encontra sua transcendência: na recusa em se contentar com uma vida que parece plena, mas que internamente está desabitada.


O último verso, aparentemente enigmático, é uma chave para compreender esse deslocamento: “No cume calmo do meu olho que vê, assenta a sombra sonora dum disco voador.” Essa imagem surreal, quase psicodélica, pode ser lida como um convite ao olhar que se eleva à capacidade de ver além das cercas, dos quintais, dos pequenos limites que nos separam de nós mesmos. O disco voador, nesse contexto, é metáfora para o espanto, para o mistério, para o desconhecido que nos habita e que insistimos em evitar quando nos contentamos com uma vida previsível.


Raul canta, sem metáforas delicadas, o que muitos sentem mas não sabem nomear: que nem todo sucesso é conquista, e que às vezes o pior fracasso é o que vem disfarçado de vitória. Ele fala da angústia de quem teve tudo, mas percebe que nada disso basta e que talvez a verdadeira revolução não seja mudar de vida, mas acordar dentro dela.

 Raul Seixas Ouro de tolo

Talvez o que mais assuste não seja o fracasso, mas descobrir que o sucesso também não basta.


Se uma música ou um filme insiste em você dias depois, talvez esteja tocando algo que ainda não foi nomeado algo que te chama a escutar, não lá fora, mas dentro.


Tag: Raul Seixas Ouro de tolo

Representação visual da neuroplasticidade no cérebro adulto, com formas orgânicas semelhantes a conexões neurais e raízes sobre um fundo de papel amassado, simbolizando a capacidade de mudança mental depois dos 40 anos.

Mudar hábitos depois dos 40 anos costuma parecer mais difícil. Não é raro ouvir pessoas dizendo que já tentaram, por exemplo, acordar mais cedo, se alimentar melhor ou evitar reações impulsivas, mas acabam voltando aos velhos padrões. Às vezes, nem é por falta de vontade. A sensação é de que, com o tempo, certas rotinas e comportamentos ficam tão enraizados que mexer neles exige uma energia que parece maior do que se tem. Isso gera frustração, e com ela vem a ideia de que talvez a mudança já não seja mais tão possível quanto antes.


Essa percepção é compreensível, mas não está de acordo com o que a ciência hoje nos mostra. Pesquisas recentes na área da neurociência revelam que o cérebro humano continua capaz de aprender, se reorganizar e criar novas conexões ao longo de toda a vida. Esse processo recebe o nome de neuroplasticidade a capacidade que o cérebro tem de se adaptar, mesmo depois de adulto. E o mais interessante é que ela não apenas continua ativa após os 40 anos, como pode ser estimulada com atitudes simples, consistentes e intencionais.


Durante muito tempo, acreditou-se que o cérebro perdia plasticidade com o passar dos anos, tornando-se menos flexível e mais “fixo”. Essa ideia foi sendo revista a partir de estudos que acompanharam adultos ao longo do tempo, observando como suas rotinas, emoções e experiências eram capazes de transformar não apenas pensamentos e comportamentos, mas a própria estrutura cerebral. Um desses estudos, publicado na Nature Reviews Neuroscience em 2021, analisou evidências de diversas pesquisas e concluiu que a capacidade de mudança cerebral permanece significativa na vida adulta inclusive em pessoas com mais de 60 anos.


É verdade que, na infância, o cérebro se molda com mais facilidade. Mas na fase adulta, ainda que o processo seja mais seletivo, ele continua ativo. O que muda é o caminho. Depois dos 40, o cérebro precisa de mais repetição, mais atenção focada e mais envolvimento emocional para consolidar um novo hábito. Isso porque, com o tempo, o cérebro tende a otimizar suas rotas, economizando energia em padrões já conhecidos. Se uma rotina antiga é constantemente repetida, ela se fortalece. Para transformá-la, é preciso construir uma nova trilha e isso leva tempo e constância.


Esse ponto ajuda a entender por que tentativas rápidas de mudança nem sempre funcionam. Adotar uma nova prática por alguns dias, sem clareza do motivo e sem se sentir realmente envolvido com aquilo, raramente leva a resultados duradouros. A plasticidade cerebral está ligada a como o cérebro percebe a relevância do que está sendo feito. Quando uma atividade é vista como significativa, quando gera algum tipo de satisfação ou faz sentido dentro de um propósito maior, o cérebro tende a registrá-la com mais força.


Um estudo realizado por pesquisadores de Harvard e publicado em 2022 no Frontiers in Human Neuroscience mostrou que adultos entre 40 e 60 anos que se dedicaram a aprender uma nova língua por oito semanas tiveram mudanças observáveis na estrutura cerebral. O mais interessante foi que os participantes que relatavam mais motivação pessoal como aprender por prazer ou por desejo de conexão com outras culturas apresentaram maior desenvolvimento em áreas ligadas à memória e ao foco. Isso reforça uma ideia importante: o cérebro adulto muda mais facilmente quando existe envolvimento emocional com a prática.


Outro fator que influencia diretamente na neuroplasticidade é o sono. A consolidação de novos aprendizados acontece, em grande parte, enquanto dormimos especialmente durante as fases mais profundas do sono. Com o avanço da idade, essas fases tendem a se tornar mais curtas e fragmentadas, o que pode dificultar a fixação de novos hábitos. Pesquisadores da Universidade de Berkeley têm investigado como a qualidade do sono interfere na capacidade de aprender e mudar, mostrando que noites mal dormidas podem reduzir significativamente a eficácia de qualquer processo de mudança comportamental.


A prática de atividade física também tem impacto direto na plasticidade cerebral. Um estudo publicado em 2023 na Proceedings of the National Academy of Sciences acompanhou adultos na faixa dos 40 a 60 anos e concluiu que a caminhada regular estava associada a níveis mais altos de BDNF, uma proteína essencial para a saúde dos neurônios e para a formação de novas conexões cerebrais. Ou seja, cuidar do corpo e do sono são partes fundamentais de qualquer tentativa real de mudar o que se faz ou como se pensa no dia a dia.


É comum imaginar que a repetição é o único caminho para a mudança. Mas o cérebro adulto também responde bem à variedade e à novidade. Contextos previsíveis e rotinas excessivamente estáveis podem reduzir o estímulo à adaptação neural. Por isso, explorar atividades diferentes, aprender algo novo, sair da zona de conforto de forma leve e progressiva são atitudes que fortalecem a capacidade de transformação. Isso vale tanto para mudanças comportamentais quanto para aspectos mais subjetivos, como flexibilizar crenças rígidas ou adotar novas formas de lidar com o cotidiano.


Uma descoberta recente, que vem chamando atenção na comunidade científica, é que o senso de propósito influencia diretamente na plasticidade cerebral. Em outras palavras, quando sentimos que algo tem valor, que estamos fazendo por um motivo que nos importa de verdade, o cérebro responde com mais abertura à mudança. Essa relação foi observada em estudos que associam envolvimento pessoal com alterações em áreas cerebrais relacionadas ao planejamento, tomada de decisão e regulação emocional.


É importante lembrar que mudar não significa virar outra pessoa. A ideia de transformação não precisa ser radical para ser válida. Muitas vezes, pequenos ajustes na rotina como incluir uma caminhada, reduzir o tempo nas redes sociais, prestar mais atenção ao que se come ou se permitir cinco minutos de silêncio por dia já provocam efeitos perceptíveis. E esses efeitos não são só comportamentais: eles refletem alterações reais na forma como o cérebro funciona.


Muitas pessoas acreditam que, depois de certa idade, a tendência é apenas conservar o que já se tem. Mas o cérebro adulto não é estático ele continua se moldando conforme o que vivemos, sentimos e escolhemos. A questão não é se ainda é possível mudar, mas sim como facilitar esse processo. E aqui vão algumas sugestões práticas, baseadas nas evidências mais recentes da neurociência:

  1. Defina um motivo que seja importante para você: A mudança tem mais chance de acontecer quando está conectada com algo que você valoriza. Pergunte-se: por que isso importa?

  2. Crie uma rotina que ajude seu cérebro a consolidar o novo: Estabeleça um horário regular para dormir, evite estímulos intensos antes de dormir e reduza a fragmentação do seu sono.

  3. Movimente-se com constância: Caminhadas leves, três vezes por semana, já são suficientes para estimular substâncias que favorecem a formação de novas conexões cerebrais.

  4. Evite fazer tudo ao mesmo tempo: O cérebro precisa de foco para aprender algo novo. Tente reduzir a multitarefa e dar atenção plena ao que está praticando.

  5. Explore atividades novas, mesmo que simples: Aprender algo diferente, como cozinhar um prato novo ou experimentar uma leitura fora do comum, já ativa circuitos neurais importantes.

  6. Seja gentil com o processo: Mudanças cerebrais não acontecem do dia para a noite. A consistência é mais importante que a intensidade.


Mudar depois dos 40 não exige esforço heróico. Exige presença, escolha consciente e um pouco de paciência. O cérebro está pronto para mudar, mesmo que em um ritmo mais maduro. Ele apenas precisa de razões que façam sentido, estímulos consistentes e um ambiente que convide ao crescimento. A neuroplasticidade não se encerra com o tempo ela apenas espera ser despertada de forma cuidadosa. E isso está ao alcance de qualquer pessoa, em qualquer fase da vida.


Tag: neuroplasticidade depois 40 anos

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista de tom melancólico. Um rosto humano parcialmente coberto por fitas de papel com palavras apagadas, simbolizando o silêncio interior. Do centro do peito da figura brotam ramos secos, representando o peso do que não foi dito. O fundo é uma folha de papel levemente amassada, remetendo ao não dito e ao desgaste emocional. Cores suaves em bege, cinza e azul esmaecido criam uma atmosfera introspectiva e sensorial. A imagem expressa exaustão emocional de forma simbólica e poética.

Há um tipo de cansaço que o sono não resolve.

Um tipo de exaustão que não vem do excesso de tarefas, mas do excesso de silêncio.

Não o silêncio que repousa, mas o que adoece.


Vivemos cercados de palavras nas mensagens, nas reuniões, nas redes mas é o que não dizemos que pesa mais. Palavras que engolimos com medo de desagradar. Sentimentos que sufocamos por não saber se seriam bem-vindos. Verdades que se acumulam nos cantos da garganta até virarem nó. E o corpo aprende a carregar tudo isso como se fosse natural.


A exaustão emocional muitas vezes nasce do que não teve espaço. De emoções interditadas, pausadas indefinidamente, escondidas até mesmo de nós. O corpo começa a dar sinais uma tensão que não solta, uma respiração curta, uma insônia frequente. Não há um evento traumático claro, nenhum episódio que se destaque. Só uma espécie de cansaço psicológico que se instala aos poucos, silencioso e contínuo.


Essa sensação de estar sempre no limite, mesmo quando tudo parece “normal”, pode vir justamente do que não foi nomeado. Há experiências que, por falta de escuta, nunca chegaram a se tornar pensamento. Sentimentos que ficaram trancados em um canto escuro, sem ar. E ainda assim, mesmo sem palavras, continuam nos habitando.


Às vezes, o que nos esgota é essa constante necessidade de parecer bem, de seguir adiante como se tudo estivesse sob controle. Há um custo em manter a aparência de equilíbrio quando por dentro há um redemoinho mudo. O silêncio interior, nesses casos, não é paz é contenção. E conter, continuamente, cansa.


Em alguns momentos, percebemos que não é a vida em si que está pesada, mas a solidão de não poder compartilhá-la em sua inteireza. O desejo de ser compreendido coexistindo com o medo de se mostrar vulnerável. A fala represada como uma represa prestes a transbordar e que transborda de outras formas: em irritação, em apatia, em um choro que vem “do nada”.


É aí que o corpo fala. Não com palavras, mas com sintomas. O cansaço psicológico se traduz em pequenas desistências cotidianas, em uma leve desistência de si. Como se algo dentro soubesse que há algo por ser dito mas não sabe por onde começar.


E talvez não seja mesmo sobre começar com um grande discurso. Talvez seja só sobre ter um espaço onde o não dito possa começar a existir, ainda que timidamente. Onde o silêncio encontre escuta. Onde o peso possa ser nomeado, aos poucos, e assim, tornar-se leve.

Quantas palavras você tem carregado em silêncio?

E se parte do seu cansaço não for sobre tudo o que você faz, mas sobre tudo o que você ainda não disse?

Site criado e administrado por: Ana Luiza Faria | Ponto Psi
Since: ©2022

bottom of page