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O desconforto como efeito estrutural do trabalho clínico

  • há 3 horas
  • 2 min de leitura

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista vintage de mulher fragmentada com flores e folhas secas, linhas douradas e pretas sobre fundo de papel amassado, sugerindo tensão e deslocamento estrutural.
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Há uma ideia disseminada de que psicoterapia é um espaço de acolhimento contínuo, um lugar onde se encontra amparo e validação suficientes para aliviar o peso das próprias histórias. Essa expectativa não é ingênua; ela se sustenta em parte do que de fato acontece no setting clínico. No entanto, quando o trabalho avança, torna-se evidente que a permanência no conforto compromete aquilo que se busca transformar.


Na experiência clínica, a compreensão costuma chegar antes da mudança. A pessoa relata sua trajetória com clareza, identifica padrões, reconhece repetições e nomeia conflitos com precisão. Consegue explicar as razões de suas escolhas e descrever as cenas que se repetem. Essa lucidez, porém, convive com a manutenção dos mesmos impasses. O discurso se organiza, mas a posição subjetiva permanece intacta. Saber não desloca necessariamente o modo de se implicar.


É frequente que o sofrimento seja apresentado como algo que precisa ser eliminado rapidamente. Entretanto, muitas vezes ele cumpre uma função de sustentação. Certos sintomas preservam vínculos, mantêm identidades estáveis e evitam confrontos que poderiam desorganizar a imagem construída ao longo dos anos. A queixa, quando examinada de perto, revela também um arranjo que protege. Abrir mão dela não implica apenas perder um problema, mas desestabilizar uma forma conhecida de existir.


O desconforto emerge precisamente quando a fala deixa de servir à justificativa e começa a expor contradições. Nesse ponto, a análise já não confirma a versão que a pessoa sustenta sobre si mesma. O que parecia coerente mostra fissuras. O que era atribuído exclusivamente ao outro retorna como participação própria. Esse movimento raramente produz alívio imediato; tende a gerar tensão, resistência e, por vezes, a tentativa de restabelecer o terreno conhecido.


Há um paradoxo recorrente nesse processo: busca-se mudança, mas preserva-se aquilo que a impede. Reclama-se da repetição, ao mesmo tempo em que se mantém intacta a lógica que a produz. O espaço clínico torna-se, então, o lugar onde essa contradição não pode permanecer encoberta. Não se trata de retirar sofrimento à força nem de oferecer respostas organizadas. Trata-se de sustentar a fratura entre o que se diz querer e o que efetivamente se faz.


Quando a psicoterapia se reduz a um ambiente de confirmação e conforto, algo essencial é evitado. O trabalho clínico, ao contrário do que se espera, não estabiliza identidades nem garante tranquilidade. Ele expõe a inconsistência dos enunciados, desmonta justificativas e coloca em questão as certezas que organizam a vida cotidiana. O efeito disso não é previsível nem imediatamente recompensador. O que se altera não é apenas o conteúdo das histórias, mas o lugar a partir do qual elas são contadas. E esse deslocamento não oferece abrigo.

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