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O tempo da terapia não obedece a urgência emocional

  • há 4 horas
  • 4 min de leitura

Por Ana Luiza Faria

Ilustração simbolizando o tempo da terapia em contraste com a urgência emocional
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Há um momento, comum a quase todo mundo que já passou por um sofrimento intenso, em que a única coisa que se deseja é que a dor pare. Não amanhã, não na próxima sessão, não em alguns meses, agora. Essa urgência não é fraqueza nem impaciência injustificada: é a reação natural de quem está exausto de carregar algo pesado demais por tempo demais. Quando essa pessoa finalmente decide buscar ajuda psicológica, é compreensível que espere da terapia o mesmo ritmo que sua dor exige. O problema é que a mente não funciona assim, e a terapia, por mais eficaz que seja, não tem o poder de acelerar processos que são, por natureza, lentos.


Isso acontece porque o tempo emocional e o tempo terapêutico raramente coincidem. A urgência emocional nasce do sofrimento presente, daquilo que dói agora e exige solução imediata. Já o tempo terapêutico segue outra lógica: a de elaboração. Elaborar não é apenas entender racionalmente o que se passa, mas digerir emocionalmente experiências, muitas vezes antigas, que moldaram formas de sentir, pensar e se relacionar. Esse processo não pode ser apressado sem se tornar superficial. Um sintoma que aparece hoje, uma crise de ansiedade, uma dificuldade de confiar, um padrão repetitivo de relacionamentos que terminam mal, costuma ser apenas a manifestação visível de algo que vem sendo construído há anos. Tratar apenas o sintoma, sem dar tempo para que suas raízes sejam compreendidas, é como aparar a parte de cima de uma planta daninha sem mexer na raiz: ela volta a crescer.


Além disso, a terapia depende de um elemento que não pode ser apressado: o vínculo entre paciente e terapeuta. A confiança necessária para falar sobre vergonhas, medos e feridas não se constrói em uma ou duas sessões. Ela se forma aos poucos, à medida que a pessoa testa, talvez sem perceber, se aquele espaço é seguro o suficiente para que ela se mostre por inteiro. Esse processo de confiança é parte do tratamento, não um obstáculo a ser superado rapidamente para que o "trabalho de verdade" comece. Em muitos casos, é justamente na construção desse vínculo que as primeiras mudanças significativas começam a acontecer, mesmo que de forma silenciosa.


Quando a urgência emocional não é acolhida com paciência, é comum que a pessoa caia em armadilhas que prejudicam o próprio processo que busca ajuda. Trocar de terapeuta repetidamente na esperança de encontrar alguém que traga alívio mais rápido, abandonar o tratamento nas primeiras semanas por não perceber resultados imediatos, ou buscar respostas prontas e fórmulas de autoajuda que prometem transformação em poucos passos são tentativas compreensíveis de driblar o sofrimento. Mas, na maioria das vezes, esses atalhos atrasam ainda mais a mudança real, porque impedem que o processo se aprofunde o suficiente para gerar transformações duradouras. Mudar de forma sustentável exige tempo justamente porque envolve reorganizar estruturas internas que levaram anos para se formar.


Isso não significa que a pessoa deva simplesmente se resignar e esperar em silêncio, engolindo a angústia como se isso fosse parte do "preço a pagar". Pelo contrário: é possível, e necessário, desenvolver uma relação diferente com o tempo da terapia, uma relação que não exija pressa, mas também não exija anulação da própria dor. Isso passa por reconhecer que sentir-se mal durante o processo não é sinal de fracasso, e que pequenos sinais de mudança, uma reação um pouco menos intensa diante de um gatilho antigo, uma capacidade maior de observar a própria angústia sem ser completamente dominado por ela, um dia em que a tristeza pesa um pouco menos, são sim, evidências de que algo está se movendo, mesmo que de forma quase imperceptível.


Também é fundamental que essa urgência seja comunicada ao terapeuta, e não escondida ou minimizada. Dizer abertamente "eu sinto que preciso de alívio mais rápido, isso está sendo muito difícil de suportar" não é uma queixa inadequada: é informação clínica valiosa, que ajuda o profissional a ajustar o ritmo do trabalho, reforçar estratégias de manejo da crise no momento presente e validar o sofrimento sem prometer o que não pode ser entregue. A terapia pode, sim, oferecer ferramentas para lidar com a ansiedade da espera enquanto o processo mais profundo segue seu curso, mas isso só é possível quando a urgência é trazida para dentro da sala, não escondida dela.


No fim, talvez o mais honesto que se possa dizer sobre o tempo da terapia seja isto: ele não é indiferente à dor de quem espera, mas também não se curva a ela como se isso fosse possível sem custo. Confiar no processo não significa negar a urgência, e sim aceitar que o alívio verdadeiro, aquele que não depende de manter-se em alerta constante esperando a próxima crise, é construído aos poucos, sessão após sessão, percepção após percepção, até que, um dia, sem que se perceba exatamente quando, a pessoa note que já não precisa mais correr tanto para se sentir inteira.


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