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Relaxar não é um botão de descanso: por que tentar relaxar à força aumenta o estresse

  • Foto do escritor: Ana Luiza Faria
    Ana Luiza Faria
  • há 3 dias
  • 2 min de leitura

Por Ana Luiza Faria

Colagem surrealista analógica com fundo de papel levemente amassado e iluminação difusa. Formas orgânicas abstratas em tons neutros se sobrepõem de maneira delicada. Linhas finas douradas e pretas atravessam a composição, conectando elementos de forma fluida. Figura feminina vintage aparece parcialmente integrada às formas, sugerindo tensão contida. Flores e folhas secas complementam a imagem, criando uma atmosfera poética e sutilmente inquietante, que simboliza o esforço de relaxar à força e o aumento do estresse.
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Existe uma ironia silenciosa que costuma visitar o final do dia de muitas pessoas: aquele momento em que, exaustas, elas decidem que "precisam" relaxar. O corpo se deita, o ambiente silencia, mas o pensamento parece acelerar justamente porque recebeu uma ordem de parada. É uma experiência comum, mas profundamente frustrante, tentar forçar o desligamento da própria mente como se ela fosse um interruptor de luz. O problema central dessa tentativa reside em um fenômeno psicológico simples: quanto mais atenção damos à necessidade de eliminar uma tensão, mais alimentamos essa mesma tensão com a nossa vigilância. Quando alguém se impõe o relaxamento como uma meta a ser cumprida, o cérebro deixa de interpretar aquele momento como um refúgio e passa a tratá-lo como mais uma obrigação na lista de tarefas. Surge então uma cobrança interna, um fiscal do próprio bem-estar que pergunta, a cada cinco minutos, se o alívio já chegou. Se a resposta for negativa, o nível de ansiedade sobe, criando um ciclo onde o esforço para descansar se torna, ele próprio, uma fonte de estresse.


Muitas vezes, essa dificuldade em "baixar a guarda" acontece porque o estado de alerta constante foi a ferramenta que permitiu a sobrevivência e a organização da vida por anos a fio. Para um adulto que passou décadas cuidando de responsabilidades ou para um idoso que se acostumou a estar sempre atento às demandas da família e do trabalho, a quietude pode ser lida pelo sistema nervoso não como prazer, mas como um perigo ou uma perda de controle. O silêncio traz à tona sensações e pensamentos que o ruído do cotidiano costumava abafar. Assim, quando tentamos nos obrigar ao vazio, a mente reage enviando alertas, lembrando de pendências ou repassando diálogos antigos. Não se trata de falta de força de vontade, mas de um mecanismo de defesa. O corpo não compreende ordens diretas e autoritárias; ele compreende ambientes e sinais. Se o comando é "relaxe agora", mas o sentimento interno é de urgência, a biologia sempre priorizará a urgência.


Compreender que o descanso é um processo de sedução e não de conquista muda a forma como lidamos com os dias agitados. Em vez de lutar contra a agitação, o caminho mais gentil envolve observar essa movimentação interna sem tentar expulsá-la à força. É como tentar acalmar a água de um lago: se usarmos as mãos para bater na superfície tentando aplainar as ondas, criaremos apenas mais turbulência. Se apenas esperarmos, a gravidade e o tempo farão o trabalho de assentar as partículas. O relaxamento genuíno surge quando paramos de lutar contra o fato de estarmos tensos. Ao aceitar que a mente está acelerada, retiramos o combustível da frustração, e é nesse espaço de não-conflito que o sistema nervoso finalmente encontra segurança para ceder. O verdadeiro repouso não nasce de uma imposição da vontade sobre o corpo, mas de uma trégua que oferecemos a nós mesmos, permitindo que o ritmo natural da vida retome seu curso sem a pressão de chegar a lugar nenhum.

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